Maradona Pisa na Bola:
O craque argentino dos gramados declara apoio a candidatura de Cristina Kirchiner contrariando suas posições anti-imperialistas
Na semana anterior às eleições presidenciais na Argentina, o eterno craque Diego Armando Maradona, sempre brilhante em campo, pisou na bola fora dele. Maradona se somou ao tenista David Nalbaldián (último campeão de um Master Series) e outras personalidades argentinas que declararam apoio à candidatura de Cristina de Kirchner, que foi a vitoriosa na eleição.
Para os brasileiros isso pode parecer banal, pois estamos acostumados a jogadores de futebol e artistas muito despolitizados. No Brasil, foi-se o tempo em que havia movimentos ligados à política e às lutas sociais entre atores e esportistas. O jogador tido como melhor de todos os tempos no Brasil, Pelé, é a maior expressão disso. Pelé, quando fez seu milésimo gol, em plena ditadura militar dedicou seu gol "às criancinhas do país". Pelé sempre foi o "bom moço" que não se metia em política, no sentido de não dar um "ai" que fosse contra as torturas e mortes no Brasil. Pelé foi para o estrangeiro, no caso os EUA, e nunca foi capaz de usar seu prestígio internacional para denunciar a realidade brasileira e, de fato, "defender as criancinhas" e os pobres que não tinham seu espaço na mídia. Mas, ao mesmo tempo em que "não falava em política", Pelé não teve nenhum constrangimento em posar como garoto propaganda do "país que vai pra frente", lema do general Médici, o mais violento dos militares e fã de futebol e da seleção tri campeã mundial de 1970.
Pelé depois foi ministro dos Esportes de FHC, o que dispensa palavras. A lei que leva seu nome foi a lei que liberou o futebol brasileiro para a rapina dos europeus e empresários de todos os locais, que agora lucram como nunca, levando os talentos do país muitas vezes sem pagar nada, ainda com 12 ou 14 anos. Outro ídolo brasileiro é Romário, que também fez 1000 gols e também era fã de FHC, chegando a homenageá-lo em comemorações, com camisetas de apoio, quando 100 mil trabalhadores marchavam contra ele em Brasília. A lista ainda tem Zico, ex-ministro de Collor, e outras dezenas de candidatos a vereador e deputado, sempre por partidos de direita.
Na Argentina, os jogadores também não são revolucionários, nem são independentes dos diretores e anunciantes, que são grandes empresários e banqueiros. Foi asim, por exemplo, na recente candidatura (e vitória) do presidente do Boca Juniors (Macri) à prefeitura de Buenos Aires, em que contou com o apoio de muitos jogadores.
No entanto, é histórica a politização dos jogadores argentinos. Na queda da ditadura, em 1982, muitos jogadores se posicionaram pelo fim da ditadura. Na década de 80, entre os jogadores da seleção bicampeã do mundo, com Maradona, muitos eram simpatizantes dos partidos de esquerda, inclusive do MAS (partido revolucionário, dirigido por Nahuel Moreno). Nos episódios da crise política revolucionária de 2001, a seleção argentina, ao menos em 2 jogos, entrou em campo com camisetas em defesa da "Aerolíneas Argentinas" e dos trabalhadores ameaçados de demissão, e "Em defesa da educação pública" também submetida ao corte de verbas.
O próprio Maradona sempre foi de "esquerda", num sentido geral da palavra. É óbvio que ele, na realidade, é mais um milionário do futebol que vive num mundo que em nada tem a ver com o sofrimento dos trabalhadores. Mesmo assim, Maradona foi, centenas de vezes, um porta-voz da denúncia do papel dos Estados Unidos na América Latina e de Bush como representante deste projeto. Maradona fez parte das lutas contra a ALCA (Área de Livre Comércio da Américas, que faria os EUA dominarem a região). Em recente manifestação contra a presença de Bush em Mar del Plata-Argentina, em 2005, Maradona foi o protagonista da "anti-cúpula" junto com Hugo Chávez. Maradona sempre denunciou o bloqueio americano a Cuba (embora, neste caso, isso o leve a capitular a Fidel Castro). Mesmo na morte do papa João Paulo II, que já era popular em vida e virou "santo" na morte, Maradona não perdoou.
Conhecido pelas críticas à Igreja, disse que se ficava triste era só porque ficava assim quando morria um ser humano, e completou que o papa era um ser humano, como se dissesse que o papa não valia nada, mas assim como morre qualquer um, a morte do papa tinha esse mesmo valor para ele; e completou que o que o deixava mesmo triste era "o ouro todo que existe nas igrejas enquanto as crianças da África e Argentina passam fome". A melhor de Maradona, porém, foi depois da Revolução de 2001. Quando a burguesia, finalmente, conseguiu acalmar a insurreição popular, até os partidos que se diziam "revolucionários" se voltaram com tudo para as eleições. O único partido que chamou boicote às eleições foi o FOS (seção da LIT/PSTU, que hoje se arrepende disso). Pois foi esta a postura também de Maradona, que àquela altura defendia "qué se vayan todos".
Por isto é triste e lamentável que Maradona hoje tenha se juntado a todos os que enganam os trabalhadores e apoiam uma candidata (agora futura presidenta) que só vai atacar os trabalhadores e, direta ou indiretamente, facilitar a vida da Igreja Católica e do imperialismo dos EUA na Argentina e Amárica Latina!