Publicado em 07/10/2009

Eleições de Portugal e Alemanha dão duro golpe na social-democracia

                As eleições para primeiro-ministro em Portugal e Alemanha soaram o sinal de alerta para a esquerda social-democrata na Europa.

            Em Portugal, o primeiro-ministro José Sócrates (do Partido Socialista) foi reeleito para o cargo, porém perdeu a maioria absoluta que havia conquistado na eleição de 2005.

            As principais críticas a Sócrates estão ligadas ao seu trabalho na área social. Portugal registra hoje um número de mais de 500 mil desempregados, o que tornou a geração de empregos ponto prioritário na plataforma do primeiro-ministro. Os “socialistas” aplicaram o mesmo receituário capitalista de salvar banqueiros e empresários da crise econômica, enquanto assistiam à quebradeira da população.

            Por conta disso, quem ganhou espaço foi a esquerda “radical”, que entre comunistas, ecologistas e de “extrema-esquerda” conquistou mais de 30 cadeiras no Parlamento e promete não apoiar o governo de Sócrates.

            Mas, se em Portugal, o Partido Socialista foi derrotado politicamente, porém teve uma vitória eleitoral, o mesmo não ocorreu na Alemanha.

            Angela Merkel -atual primeira-ministra- foi reeleita, rompendo com a social- democracia e aliando-se aos liberais. Ela, candidata da conservadora democracia cristã, obteve confortável maioria no Parlamento, e pôde relegar os social-democratas a um papel secundário, descartando-os de sua coligação.

            O Partido Social-Democrata Alemão, o mais antigo e tradicional da esquerda em toda a Europa, foi o que mais perdeu. Obteve o pior resultado eleitoral de todos os tempos dentro do regime democrático. Mesmo diante da crise internacional, que exigiu uma maior intervenção do Estado sobre a economia -tradicional bandeira da esquerda- não conseguiram ser vistos como alternativa. Isso só prova que a população não vê mais diferença nem razão de votar na “esquerda” neoliberal, que é o que expressam hoje os partidos social-democratas.

            Assim como em Portugal, a Alemanha registrou o crescimento eleitoral das organizações mais à esquerda. A esquerda radical e os ecologistas tiveram um avanço de 11,9% no parlamento.

Esquerda para valer!

            Com esse resultado, a esquerda reformista ausenta-se dos governos das principais economias europeias -França e Alemanha- e, ao que tudo indica, também ficará de fora do próximo governo britânico. Na Grã-Bretanha, os trabalhistas vêm sendo duramente criticados pela gestão de Gordon Brown e podem sair do poder, após 14 anos de governo. O jornal italiano, La Stampa, inclusive publicou a manchete “Uma Europa sem esquerda” para esboçar exatamente isso, o que, segundo o jornal, ocorreu devido às coalizões nada principistas que a “esquerda” europeia vem fazendo, até mesmo com a direita (como no caso alemão).   

            Quer dizer, até a imprensa burguesa consegue ver o óbvio, que a esquerda degenerada, reformista e eleitoreira parece ignorar. Quem votou na esquerda queria ver um governo que fosse, de fato, à esquerda -mais educação, emprego, sistema de saúde- e não uma continuação das práticas da direita -corte de direitos trabalhistas, privatização-. O avanço da “esquerda radical” expressa isso: a desilusão com a esquerda liberal e conciliadora.

            O que o La Stampa não diz (aliás, diz o contrário) é que não é a esquerda e sua ideologia quem estão sendo reduzidas, mas sim os partidos oportunistas que simulam ser de esquerda, sem ser nada disso. A ideologia e o programa da esquerda, canalizados eleitoralmente em especial pela esquerda mais combativa, mesmo que não seja revolucionária, estão em alta.

            Portugal, que reelegeu o seu primeiro-ministro socialista, fez isso diante de um processo eleitoral que registrou um nível de abstenção de mais de 40%, o que mostra uma desilusão não apenas com a “esquerda de faz-de-conta”, mas também com os processos eleitorais e a democracia burguesa. Esse dado, combinado com uma votação ampliada dos candidatos mais “radicais, mostra que há espaço para um esquerda de verdade, revolucionária, o que mesmo com estes partidos mais combativos ainda não é representado. Há espaço para ir ainda mais longe, e construir partidos de fato revolucionários e que organizem os trabalhadores para a ação direta na Europa.

            Para a social-democracia fica a lição de que o seu projeto -historicamente dado ao fracasso- engana cada vez menos. Não há mais espaço para a “conciliação de interesses”, pois os trabalhadores já perceberam que os interesses entre as classes são irreconciliáveis e cada vez mais os programas se delimitam e exigem um posicionamento claro: ou se está ao lado dos trabalhadores, da juventude, dos desempregados e explorados; ou se está ao lado dos grandes empresários, políticos corruptos e exploradores

 

 

 

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