Publicado em 15/05/2010

Depois de 13 anos, trabalhistas perdem cadeiras e Gordon Brown renuncia ao cargo de 1° Ministro.

Desde 1974 que não se tinha um governo de coalizão na Grã Bretanha, sem que nenhum partido tenha obtido maioria absoluta. Isso aconteceu depois que, nas eleições para o Parlamento, nem trabalhistas nem conservadores conseguiram empolgar os eleitores. Além disso, o mais curioso desta eleição é que o partido trabalhista, que tinha o primeiro ministro Gordon Brown, perdeu 91 cadeiras no parlamento, foi superado pelos rivais conservadores e ainda quase perdeu o 2o lugar para os Liberais Democratas.

Os conservadores conseguiram 36% dos votos, os trabalhistas, 29%, e os liberais-democratas, 23%. Das 326 cadeiras necessárias para se obter maioria absoluta, os conservadores conseguiram 306, sendo obrigados a uma coalizão para poder indicar o primeiro-ministro. O líder conservador, David Cameron, vai liderar o novo governo, mas cargos importantes foram designados para parlamentares liberais-democratas, e o líder do partido, Nick Clegg (Liberal Democrata), será o vice-primeiro-ministro.

Neste país é característico que um só partido fique muitos anos com maioria no parlamento, pois além do voto ser proporcional, ele é distrital (ou seja, há um único representante eleito para cada microrregião), privilegiando "currais" eleitorais onde praticamente só os grandes partidos conseguem se eleger. Antes dos trabalhistas ganharem e se reelegeram com Tony Blair, e depois Gordon Brown, os conservadores também passaram anos a fio indicando o primeiro-ministro.

Após a apuração dos votos e de sua derrota significativa, ainda assim o Partido Trabalhista tentou costurar um acordo com os liberais democratas, mas estes, desde o início, se demonstraram contrários a qualquer acordo que tivesse Gordon Brown como primeiro-ministro. Depois de se ver anulado politicamente, inclusive com gente de seu próprio partido com restrições ao seu nome, Gordon Brown veio a público renunciar ao cargo, apenas consolidando a derrota eleitoral que teve.

Acordos, reformas e coalizão para atacar os trabalhadores

O acordo parece ter sido fechado para durar cinco anos, levando-se em conta que os dois partidos concordaram em aprovar uma nova legislação que vai estabelecer que a próxima eleição ocorrerá em maio de 2015. Esse acordo, porém, não tem como ser considerado definitivo, pois qualquer maior instabilidade pode pôr a unidade abaixo.

        A unidade dos dois partidos, e também dos trabalhistas, em vários pontos, pois não se demonstram contrários a essas medidas, se dá em cima da redução do déficit do país que já está em patamares parecidos com o da Grécia. Já chegaram a um acordo em cortar cerca de 6 bilhões de libras nos gastos públicos, e já descartaram a hipótese de aumentar a taxação de impostos sobre mansões. Quer dizer: assim como antes, e assim como nos demais países, sai governo, entra governo, a saída apontada segue sendo atacar os trabalhadores.

        Ou seja, essa coalizão é somente um jogo de cena para deixar o país e os trabalhadores na mesma situação de antes, sofrendo ataques; enquanto a elite do país segue beneficiada, como era com Brown.

        A Inglaterra faz parte do mesmo castelo de cartas europeu que começou a desabar com o aprofundamento da crise na Grécia. A diferença de um país para o outro é que a Grécia não possui grandes parques industriais e grande parte da sua economia vem do turismo. Apesar de ter uma margem de manobra maior, e de inventar soluções momentâneas, a Inglaterra é parte deste mesmo processo que tende a se acirrar.

        A própria saída dos trabalhistas, depois de 13 anos, e a quase superação pelos liberais democratas mostra uma tentativa dos eleitores de, mesmo sem opções de mudança real, rejeitar o que esta aí, mas sem aceitar o voto passivamente nos neoliberais assumidos conservadores.

        O voto expressivo na oposição, mesmo bem distorcido, é a expressão de que a população exige mudanças, como punição aos anos em que as coisas só pioram. Trabalhistas, conservadores, e Liberais Democratas, no entanto, são incapazes de apresentar a alternativa que necessitam os trabalhadores ingleses, pois o compromisso destes partidos é com os magnatas e não com a população.

Muda a forma mas a democracia burguesa é sempre a mesma: uma farsa

        Esse processo que acontece na Inglaterra é bastante ilustrativo do quanto a democracia pode mudar sua forma e sua aparência, mas seu conteúdo é o mesmo em todos os lugares. No Brasil, por exemplo, as pessoas votam para eleger o presidente (papel semelhante ao de primeiro-ministro); na Inglaterra, a partir do número de cadeiras que cada partido conquista se define o primeiro ministro; nos EUA as votações acontecem por distritos, com delegados eleitos por região. Ou seja, podem-se ter várias formas de se eleger quem quer que seja, mas o conteúdo em todos é um só, de classes sociais em choque, com a burguesia dando as cartas.

        O que há de comum em todos estes processos é que só concorrem aqueles partidos que de uma forma ou de outra já integram o Estado, e, principalmente, que são controlados por magnatas e empresários. No Brasil, por exemplo, Lula chegou ao poder completamente comprometido com os empresários, apesar de o povo achar o contrário; na Inglaterra, Brown saiu, mas quem assume é um outro setor da burguesia; nos EUA mudou-se o discurso, porém o primeiro negro eleito segue com a mesma política do tão odiado Bush.

        Na Inglaterra, chegou-se ao cúmulo de ao rejeitar-se tanto conservadores como trabalhistas não haver maioria no Parlamento. E os liberais democratas cresceram bastante. O partido, considerado o mais "esquerdista" entre os 3, no entanto, apenas teve dúvida se aliaria-se aos governistas e iniciadores da guerra do Iraque, os trabalhistas; ou se governariam com os privatizantes e xenófobos conservadores. No final, escolheram esta última opção. na prática, portanto, não há saída por meio da votação sob este sistema. Os trabalhadores não têm como "votar certo", simplesmente porque eles são todos iguais.

Por isso, seja onde e como for, por meio das eleições burguesas, nada se conquista sem muita luta e mobilização, e só assim é possível ter de fato uma democracia, que seja expressão das necessidades dos trabalhadores e não dos interesses de uma meia dúzia de burgueses que controlam toda a economia.

 

 

 

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