Publicado em 21/07/2009

El Salvador: mais uma Frente Popular eleita mostra América Central polarizada socialmente.

Depois do golpe militar em Honduras, o subcontinente centroamericano como um todo desperta a atenção mundial. Neste sentido, é fundamental discutir-se também a situação no vizinho El Salvador, cujo presidente eleito, Mauricio Funes, tomou posse dia 1 de junho, mais uma vez repetindo a cena de trabalhadores esperançosos e com a ilusão de que a vida vai mudar com o voto dado na mudança.

Eleito pela Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN), Funes é o primeiro presidente que se elege com um discurso mais de esquerda e popular no país. Funes obteve 51,27% dos votos, enquanto Rodrigo Ávila, (ARENA) da direita tradicional, ficou com 48,73%. Em janeiro, nas eleições legislativas, a FMLN já havia se tornado a maior legenda do país, conquistando 35 das 84 cadeiras na Assembléia Legislativa.

Prometendo reformas políticas e sociais, mais redistribuição de renda e programas assistenciais, o ex-guerrilheiro prometeu manter boas relações com os EUA e fez questão de deixar claro que seu governo será mais parecido com o de Lula do que com Hugo Chávez. Na cerimônia de posse, no entanto, o momento de maior aplauso foi quando o novo presidente anunciou que vai reatar relações com Cuba, que haviam sido rompidas em 1959, quando a guerrilha tomou o poder na ilha. Ainda que Cuba, tristemente, tenha se tornado mais um país capitalista, seu passado ainda lhe confere um ar de símbolo de luta e resistência, ideais aos quais Funes tentou se associar.  

Com estes gestos e declarações, já se delineia o perfil de Funes: vai discursar para a esquerda, pela democracia e solidariedade com outros países, mas vai manter o capitalismo, a propriedade das multinacionais e a economia semicolonial e explorada do país.

Nos últimos 17 anos, depois do fim da guerra civil de 1980 a 1992, em que o FMLN esteve com o poder nas mãos, El Salvador foi governado sempre pela Aliança Republicana Nacionalista (ARENA), diretamente pró-imperialista e serviçal dos Estados Unidos. A eleição de Mauricio Funes representa, portanto, uma nova página na história de El Salvador.

O papel da Frente Popular e a política dos trabalhadores

Desde o início do século, um número nunca visto de governos de Frente Popular foi eleito em nosso continente, ao mesmo tempo: Venezuela, Bolívia, Brasil, Uruguai, Argentina, Equador, Chile, Paraguai, Nicarágua, Honduras... Todos governados por presidentes que discursam em nome dos trabalhadores e do povo pobre, mas governam para os grandes empresários do país. Agora, El Salvador entra na lista dos países onde a aliança da burguesia com a burocracia operária chegou ao poder, ao mesmo tempo em que em Honduras o governo é deposto.

Essa realidade tem a ver com o aumento significativo da luta dos trabalhadores latinos, que está aumentando com a crise econômica. A Frente Popular é o último recurso da burguesia para impedir que as mobilizações avancem até questionar o sistema capitalista como um todo. Elas podem ser preventivas, como no Brasil, onde assumem o poder antes de um ascenso das lutas; ou podem ser fruto de um processo revolucionário, no caso clássico de serem a opção para resgatar o controle capitalista.

Em ambos os casos, seu papel é destruir a luta e a organização da classe trabalhadora, e jogar água fria em suas mobilizações. A Frente Popular canaliza a indignação das massas com os representantes do capitalismo para dentro do sistema e das eleições.

Cada vez mais, considerando-se o enfraquecimento político do imperialismo, que é repudiado de forma crescente, as Frentes Populares são a forma mais eficaz que a burguesia encontra para seguir lucrando, sem estar permanentemente ameaçada pela radicalização das massas.

Por isso, são governos inimigos dos trabalhadores e dos pobres quanto ao seu conteúdo.  Mantêm a situação social e econômica essencialmente igual, desmontam e desorganizam o movimento sindical e social dos trabalhadores, cooptando os dirigentes operários e atrelando o movimento ao Estado burguês.

Nesse sentido, ainda que a vitória de Funes signifique uma vitória distorcida do povo salvadorenho, pois significou uma derrota da direita mais reacionária do país, o novo governo deve ser combatido desde o primeiro momento pelas organizações de luta dos trabalhadores, pois, a partir de agora, é quem impõe todo o projeto capitalista sobre os trabalhadores.

O que as massas de El Salvador querem, e esperam obter com Funes, só poderá ser obtido através da luta direta e anticapitalista. O novo presidente não levará El Salvador ao socialismo, nem mesmo trará grandes avanços aos trabalhadores, visto que o capitalismo em crise não permite isso. Por isso, precisa ser derrotado pelas greves e mobilizações da classe trabalhadora, como parte do processo de construção de uma sociedade socialista, através de um governo dos trabalhadores e do controle operário e popular da produção.

 

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