Estudantes chilenos ocupam Congresso e proposta de plebiscito avança
Estudantes chilenos que ocuparam na quinta-feira passada a sede do antigo Congresso em Santiago, capital do país, abandonaram o edifício após chegarem a um acordo com parlamentares opositores para exigir um plebiscito sobre como resolver os problemas sociais do Chile, especialmente na área da educação.
O governo do direitista Sebastián Piñera havia anunciado a intenção de desocupar o prédio à força, com o ministro do Interior, Rodrigo Hinzpeter, tendo proposto ao presidente do Senado que lançasse mão das “forças de ordem” para desobstruir o prédio, que deveria servir ao povo, mas é um antro da elite e corruptos, como em todos os países capitalistas. A força, neste caso, não pode ser utilizada, pois seria a mesma força que os estudantes vem derrotando nas ruas, apesar dos milhares de presos desde o início do conflito.
Na ocupação, os manifestantes interromperam uma reunião da Subcomissão de Orçamentos, começaram a bater em mesas e gritar palavras de ordem, e o ministro da Educação, Felipe Bulnes, presente na sala, decidiu se retirar do edifício. A ocupação do prédio que era utilizado como Congresso antes da ditadura militar (1973 - 1990) levou a polícia a isolar a área do edifício com barreiras de metal para evitar que os outros manifestantes presentes entrassem. Dezenas tentaram se dirigir ao interior do prédio, mas foram afastados por jatos d'água lançados pelos agentes.
Enquanto os jovens tomavam a sede no centro da capital, cerca de 500 manifestantes se concentraram em seus arredores em apoio à ocupação.
Após mais de oito horas de ocupação, os manifestantes deixaram o local depois de parlamentares da oposição prometerem que vão apresentar um projeto de lei com caráter de urgência exigindo um plebiscito, embora líderes políticos da direita e da esquerda tenham dito que o próprio Congresso deve decidir essa disputa.
Esta é uma batalha constante: avançar na luta contra a privatização da educação, existente há 30 anos, mas sem poder contar com o apoio sério de nenhum partido ou governo, já que tanto o partido de direita no poder, como o Partido Socialista, que governava o Chile até há pouco, com Bachelet, foram continuadores da política educacional privatista de Pinochet.
Estudantes universitários e do ensino médio vem fazendo greve estudantil ,com boicote às aulas e ocupação de centenas de prédios há seis meses, para pressionar o governo a fim de que suas demandas sejam atendidas. Os manifestantes exigem que o governo realize mudanças profundas no sistema educacional do Chile, como tornar o ensino gratuito para todos.
A luta é para que o governo garanta educação pública para todos e melhore a qualidade do ensino. Eles também querem que os subsídios do governo para as universidades privadas sofram redução, numa demonstração política clara de que para ter melhoras à maioria da população é preciso combater a burguesia e avançar rumo à estatização e expropriação dos grandes empresários.
O governo de Piñera, completamente acuado, teve de admitir que não tem como fornecer educação de graça para todos os cidadãos. Uma resposta lógica e óbvia dentro do capitalismo, mas que gerou uma reação ainda mais furiosa da população, para quem o “normal” não serve mais, e exige nada mais nada menos que 100% de educação pública!
Piñera ainda tenta uma solução conciliatória, sobre uma reforma universitária, mas a direção dos estudantes radicalizou os protestos, e grupos estudantis do ensino médio e associações de pais e mestres estão agora juntos exigindo, entre outras coisas, que as escolas municipais, muitos das quais estão degradadas, sejam acolhidas pelo Ministério Nacional de Educação para assegurar o ensino gratuito e a rediscussão das dívidas estudantis.
Também s exigem mudanças constitucionais para garantir a educação gratuita de qualidade da pré-escola até o ensino médio e um sistema universitário financiado pelo Estado que garanta acesso à educação de qualidade e igualitária.
Greve de fome, radicalização e poder estudantil
Onde os alunos tomaram o controle das escolas públicas, eles organizaram a segurança e colocaram latas nas ruas para coletar dinheiro para pagar por suprimentos e há formas incipientes de poder estudantil por todos os lados, em contraponto ao poder governamental de Piñera, que não tem mais o controle da grande maioria de escolas e universidades.
Há mais de 30 estudantes que permaneceram em greve de fome e, nos mais de dois meses desde que começaram os protestos pela educação no país, os estudantes organizaram manifestações que atraíram até 100 mil participantes, assumiram o controle de dezenas de escolas de todo o país e forçaram outras centenas a parar as aulas.
Inspirados em parte também na primavera árabe, como ficou conhecido o fenômeno ainda em curso de revoluções no norte da África e Oriente Médio, os chilenos protagonizam o seu “Inverno Chileno”, e Piñera já não consegue governar como efeito das manifestações que contagiam o país.
Até mesmo setores da sociedade que eram vistos como politicamente apáticos alguns anos atrás, particularmente os jovens, tomaram uma postura de confronto radical contra o governo e a burguesia como um todo, exigindo mudanças nos transportes, na educação e na política energética, às vezes violentamente, e com um conteúdo claramente de fundo socialista.
Na quinta-feira, em um dos dias mais longos e violentos de protestos até o momento, estudantes secundaristas e universitários entraram em confronto com a polícia, que usou canhões de água e gás lacrimogêneo para dispersar centenas de manifestantes. Somente neste dia, mais de 500 pessoas foram presas, cerca de metade na capital e o restante no interior. Manifestantes armaram diversas barricadas em chamas na cidade, enquanto as pessoas batiam panelas e frigideiras fora de suas casas em apoio ao movimento estudantil e denunciavam a repressão da polícia.
Os protestos estudantis exigem, entre outros pontos, US$1,8 bilhão a mais para a educação por ano e muitos estudantes carregam bandeiras que dizem "Educação Grátis Agora".
Alunos e professores dizem que estão determinados a não repetir os erros de 2006, quando um movimento de protesto apelidado de Los Pinguinos, em homenagem aos uniformes azul escuro e branco dos alunos das escolas públicas, desencadeou uma crise para a ex-presidente Michelle Bachelet, mas não conquistou reformas profundas. Em 2006, as reivindicações principais eram sobre o financiamento desigual e a qualidade da educação do ensino fundamental e médio, mas o caráter pouco concreto das exigências permitiu que a mobilização se dispersasse e o governo conseguisse “enrolar” os manifestantes, cujos alguns líderes já eram atrelados ao governo “socialista” da então presidente.
Mas este ano o foco foi ampliado para incluir exigências de um sistema universitário mais barato e acessível, questionando o próprio caráter privado do sistema, além de que as mobilizações são imensamente maiores, mais radicalizadas e sem nenhum tipo de ilusão no governo.
O sistema que se pretende pôr abaixo foi construído ainda pelo então ditador Pinochet, que decretou um sistema em 1981 que incentivou o desenvolvimento de universidades privadas e com fins lucrativos, o que levou a grandes dívidas aos estudantes, que hoje são impagáveis e consomem a renda de famílias cada vez mais afetadas também pela crise econômica.
Antes do decreto de Pinochet havia oito universidades financiadas pelo Estado e menos de 150 mil estudantes universitários no Chile. O Estado começou a reduzir o financiamento do governo para as universidades públicas, e dezenas de universidades privadas foram abertas no país. Hoje há 1,1 milhão de alunos nas universidades do Chile, em um país de cerca de 17 milhões de habitantes e a maioria desses estudantes estão em faculdades privadas do que nas públicas.
Neste momento, os estudantes jogam, nas ruas, a sorte do país, ao lutar por um futuro completamente diferente, que se choca com o governo, os principais partidos, o modelo econômico, a propriedade privada e o próprio capitalismo chileno. Viva o “inverno chileno”!
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