Radicalização da juventude e de setores organizados da classe operária fazem a luta na França ser mais poderosa.
As recentes mobilizações na França, entre as mais massivas e radicalizadas da Europa, está impactando todo o mundo.
A greve geral do dia 12 de outubro já iniciou bastante diferente das recentes greves gerais que a antecederam, como a greve geral da Espanha, que apenas duas semanas antes, já havia mobilizado 10 milhões de trabalhadores.
O que houve de diferente na França não foi somente o número massivo de trabalhadores que aderiram às mobilizações. Este aspecto já foi impactante, demonstrando a total insatisfação da população com a medida apresentada por Sarkozy, com 3,5 milhões de trabalhadores tendo aderido, e 69% da população se dizendo contrária ao projeto do governo.
Porém, o verdadeiro e mais importante diferencial da luta na França é a participação de setores organizados da classe trabalhadora, com destaque maior aos petroleiros da Total S/A que deram um exemplo categórico aos trabalhadores do mundo todo.
Os trabalhadores da Total paralisaram quase 100% de seu trabalho e aproveitaram o dia 12 de outubro, dia da greve geral, para começarem a greve específica da categoria.
Mesmo com a repressão policial aumentando consideravelmente, já que Sarkozy mandou acabar com os piquetes que existiam em frente às refinarias que estavam totalmente paralisadas, os trabalhadores do setor petrolífero não se dobraram e continuam sua greve.
Os trabalhadores de setores estratégicos, como são os operários petroleiros, da mineração, metalúrgicos, etc.; aqueles que lidam diretamente com produção, quando paralisados, dão duros golpes no que mais dói para os patrões capitalistas: o lucro.
No caso dos petroleiros, paralisando a produção, grande parte da economia fica também paralisada devido à dependência do combustível. O efeito colateral é o efeito cascata sobre outros ramos da economia.
Há alguns setores da população que acham equivocado exercer este tipo de pressão, pelo transtorno que causam. Porém, o que os trabalhadores, tanto da Total S/A, quanto todos outros que se mobilizavam nas ruas em protestos, queriam dizer com a mobilização é: Que os ricos paguem pela crise! Não são os trabalhadores que são explorados de uma forma absurda, enquanto os ricos seguem lucrando cada vez mais, que novamente devem pagar esta conta!
Sem a luta dos trabalhadores que paralisa a produção, não há outra maneira de negociar com a burguesia.
Além das refinarias, os trabalhadores bloquearam portos fundamentais à economia francesa e europeia, e deixaram metade das viagens de trem e voos cancelados. Esta demonstração de força da classe trabalhadora de um dos principais países imperialistas do mundo deu um exemplo de que o método da greve geral ainda é o mais eficiente para não somente reivindicar temas específicos, como o salário ou os direitos trabalhistas, mas, inclusive, para expressar lutas políticas.
Neste caso, a luta contra a reforma de sarkozy deve se transformar numa luta diretamente contra Sarkozy, mobilizando pela queda de seu governo.
O Movimento Estudantil como aliado estratégico dos operários
Se o que exerceu pressão política para a greve foram os setores organizados dos trabalhadores, o que deu radicalização à luta foram os estudantes.
Mesmo a mudança na legislação não sendo um ataque que influenciará diretamente os estudantes, neste momento, a mobilização dos universitários e secundaristas foi de extrema importância. Foi expressão de uma solidariedade ativa diante daqueles que também sofem com o governo Sarkozy, e um sinal da conscientização e potencial de luta do movimento estudantil e juventude em geral.
Fechando escolas, os estudantes tomaram as ruas e apoiaram a luta. Surgiu uma nova vanguarda de luta entre os estudantes, que têm em seu passado recente uma grande vitória contra o governo francês, quando este tentou aprovar a Lei do Primeiro Emprego, que instituía que os jovens só poderiam trabalhar tendo todos os direitos garantidos, como 13º salários, férias etc. após os 26 anos de idade.
Os jovens imigrantes e negros, como sempre, desempenharam um papel de destaque. Além da juventude estudantil, os bairros mais pobres, como o de Nanterre, na periferia de paris, por exemplo, aderiram em peso às manifestações. A juventude negra e os imigrantes são maioria nestes locais e se somaram à luta, com seus métodos de luta radicalizados, incendiando carros, atacando prédios públicos e se enfrentando com a polícia.
Assim, como no maio de 1968 e em outros episódios fundamentais da luta dos explorados, a França vive hoje um acontecimento notável: a classe trabalhadora e a juventude realizam, na prática e nas ruas, a aliança social necessária para derrubar o capitalismo.
Ainda falta um programa e uma direção conscientes e socialistas para apresentar mudanças que, de fato, signifiquem uma mudança de vida para melhor para a maioria da população, mas a luta exemplar destras jornadas de outubro na França mostra o caminho.
Os trabalhadores franceses, mesmo não tendo conseguido barrar este ataque específico contra seu direito à aposentadoria, tiraram várias lições importantes, e principalmente mostram que é possível mobilizar a classe trabalhadora e responder à altura aos ataques da burguesia.
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