FARC-EP:
O DESFECHO DE UMA ESTRATÉGIA ABNEGADA, PORÉM EQUIVOCADA
Deserções, fugas e desmoralização
Na semana passada, o mais antigo prisioneiro político das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) fugiu do cativeiro. O ex-deputado pelo Partido Conservador da Colômbia, Oscar Lizcano, que estava sequestrado há 8 anos, foi ajudado em sua fuga por um guerrilheiro conhecido pelo codinome "Isaza".
O desertor da guerrilha, Isaza, militou nas Farc por 10 anos e, agora, será reconpensado pelo governo Àlvaro Uribe com 500 mil dólares, por ter traído sua organização e se vendido, ajudando na libertação do deputado. Lizcano fazia parte de um grupo de 28 pessoas seqüestradas que as Farc esperavam trocar por 500 guerrilheiros detidos.
A guerrilha, agora, possui somente pouco mais de 20 reféns políticos, com algum peso, e pretende trocá-los por centenas de militantes presos. Oito guerrilheiros foram mortos e outros seis capturados pelo Exército na seqüência da fuga de Lizcano, num dos mais duros golpes contra as Farc desde a libertação da ex-senadora franco-colombiana, Ingrid Betancourt, e de outros 14 seqüestrados, há três meses.
A situação da guerrilha colombiana, a última sobrevivente de todas que surgiram na América Latina, principalmente na década de 60, piorou muito nesse ano. As FARC perderam 22 reféns políticos apenas em 2008. Para piorar, as deserções não param de aumentar. Casos como o de Isaza ocorreram com mais 1,5 mil guerrilheiros.
Uma estratégia idealista
A deserção em peso é uma das maiores expressões do final de uma estratégia de luta equivocada, pois a guerrilha sempre foi descolada do movimento dos trabalhadores, principalmente do setor operário. O conteúdo da maior parte das guerrilhas da América Latina nunca foi a mobilização das massas de trabalhadores para a revolução socialista.
A concepção majoritária nestas guerrilhas é a do foco. O foquismo consiste, justamente, em atribuir à guerrilha o caráter de gerar o processo revolucionário, e mesmo a tomada do poder. Por esta teoria, mais impostante que as greves, manifestações e outras atividades da luta de classes, em conjunto com a disputa da consciência da massa dos trabalhadores, o importante é o "exemplo". Assim as FARC, e outras guerrilhas, abandonam, ou menosprezam a atuação no dia-a-dia da população, e se isolam em locais de difícil acesso ao exército, mas tamném sem trabalhador algum, e, "das montanhas e selvas da Colômbia", tentam pregar a revolução, sem ligar esta luta à vida comum das pessoas.
Do ponto de vista do conteúdo, a estratégia guerrilheira é ainda mais equivocada que seu método vanguardista e afastado da classe trabalhjadora. As FARC não defende a expropriação da propriedade privada e a tomada do poder pela classe operária, aliada ao movimento popular. Pelo contrário, mesmo utilizando um método radical (a luta armada e o seqüestro, por exemplo), as guerrilhas levantavam um programa democrático, de defesa de um capitalismo mais humano, sem corrupção, etc. Ou seja, são reformistas. E, mesmo onde o programa avançou um pouco mais contra o capitalismo, o seu método de luta vanguardista sempre acabou isolando a guerrilha da classe trabalhadora e facilitando a ofensiva da burguesia contra os ativistas.
Em Cuba e outros países, a guerrilha chegou a tomar o poder e expropriar a burguesia, construindo um Estado Operário, por pressão da própria realidade polarizada pela Guerra Fria. Entretanto, hoje, com a restauração capitalista vitoriosa em todos os países, inclusive em Cuba, vemos o resultado histórico da tomada do poder dirigida por uma organização guerrilheira, distante do movimento operário e com um funcionamento de exército, burocrático desde o início. A ausência de organismos de base dos trabalhadores, no processo revolucionário, permite mais facilmente a deformação do regime político, que passa a ser controlado por uma burocracia, que se nega a multiplicar a revolução.
Muitos ativistas honestos e heróicos viram na guerrilha a estratégia mais correta para mudar a realidade. A grande maioria morreu nas matas da América Latina. A perda numérica de quadros importantes do movimento foi terrível para a luta do conjunto dos explorados do continente. Nós admiramos e reivindicamos a abnegação, ousadia e paixão revolucionária da maior parte dos guerrilheiros. Inclusive, apoiamos qualquer guerrilha diante de um ataque burguês.
Somos contra Álvaro Uribe e todos os governos que perseguem e matam militantes guerrilheiros, pois a origem desses movimentos é progressiva. Mais que isso: diante de situações da luta de classes que nos exijam isso, os revolucionários podem e devem se integrar ou constituir guerrilhas também. A guerrilha é uma tática que pode ser útil no processo de luta pela tomada do poder. Mas, uma coisa é adotar a tática da guerrilha a serviço da estratégia da revolução socialista, mantendo o programa revolucionário e desde que a guerrilha tenha apelo de massas, e seja a melhor alternativa para o momento; e outra coisa é transformar o guerrilheirismo em solução para qualquer lugar e situação.
Nós, trotskistas, do Movimento Revolucionário, seguindo todo o legado da Quarta – Internacional, deixamos clara toda nossa divergência com o método vanguardista, idealista e burocrático das guerrilhas, expressas nas FARC, que, neste momento, estão tendo um final bastante desmoralizante. Estamos com as FARC contra Uribe e o imperialismo. Mas devemos saber tirar as lições desse fato: as FARC estão pagando por seus erros, sua capitulação política e incapacidade de dirigir a classe trabalhadora.
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