Publicado em 17/01/2010

FARC e ELN: esvaziamento e uma sucessão de erros

A luta de classes assume diversas formas, e os trabalhadores acabam utilizando os mais diferentes tipos de organizações para avançar em sua luta contra o capitalismo. Isso, para responder aos ataques que a burguesia aplica aos proletários, utilizando-se das mais variadas instituições, regimes, leis, etc.; tudo aquilo que está à disposição, tudo aquilo pertencente ao Estado burguês.

Para a luta dos trabalhadores avançar cada vez mais, as lideranças dos trabalhadores devem ser totalmente flexíveis em táticas. Ou seja, as formas organizativas operárias devem responder ao momento da conjuntura em que se vive. Por exemplo, em um momento onde a burguesia aplica uma ditadura, em que está conseguido acabar com as organizações operárias, inclusive matando as lideranças dos trabalhadores, o partido revolucionário marxista, como máxima expressão organizativa do proletariado, deve estar preparado para continuar sua luta, porém na clandestinidade. Num momento de ascenso de massas, onda de greves, etc., o partido deve se expor muito mais, e agitar sua política pública e amplamente.

Mas não basta uma organização ter flexibilidade nas táticas. Principalmente, mesmo alterando suas formas de luta, deve ter firmeza nos princípios e nas estratégias. Em outras palavras: a forma pode variar, desde que os objetivos e o programa continuem os mesmos. O que delimita essas duas frações é uma linha muito tênue, existindo inúmeros exemplos em que a História obrigou diversas organizações a demonstrarem sua força, mas, infelizmente, a maioria delas não passou por essa prova, acabando por fazer com que suas fileiras fossem dissolvidas, seus quadros mortos e os trabalhadores novamente ficassem sem rumo. Tudo porque, ou não se soube ter flexibilidade nas táticas, ou porque se abriu mão da estratégia.

No que políticas e táticas equivocadas resultam?

Um exemplo claro desses erros é expresso pelo esvaziamento das fileiras das FARC (Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia) e do ELN (Exército de Libertação Nacional). Segundo as fontes governamentais, que não são confiáveis, mas costumam estar caladas quando estão sendo derrotadas, 2600 integrantes desses grupos armados desertaram das fileiras das guerrilhas, e se entregaram às autoridades do governo, sendo 2.128 desertores das FARC, 492 do ELN e 18 de outros grupos.

Mesmo que metade disso fosse mentira e contrainformação, o fato é que centenas de militantes estão se rendendo, e casos famosos como os de Ingrid Betancourt e vários deputados e presos importantes, como oficiais da polícia e exército, libertados através da colaboração de seus guardas, comprovam isso.

Desde que Álvaro Uribe iniciou seu mandato em 2002, recebendo muitos financiamentos dos EUA para o suposto combate ao narcotráfico, na verdade às guerrilhas; sua principal tática tem sido incidir nas organizações para esvaziar as fileiras de combatentes, com o propósito de enfraquecê-las e, assim, acabar com os grupos. Segundo as informações divulgadas, cerca de 17 mil guerrilheiros abandonaram a luta, e a fragilidade das FARC nos últimos tempos dá razão aos números.

Toda essa deserção é fruto, na verdade, não da ofensiva do imperialismo na Colômbia, ou por Álvaro Uribe ter um dom de persuasão excepcional. O que existe por trás desses números são organizações degeneradas, que, por serem as mais conhecidas direções que se enfrentam com o regime, acabam tendo influências de massas, e captando muita gente, mas, com o tempo, ao terem sua política conciliadora de classes revelada, deixam claro que não são nenhuma alternativa coerente.

Os novos integrantes da guerrilha, por exemplo, fazem a experiência com os grupos e percebem que a estratégia guerrilheira se resume a reformas radicais no capitalismo, rumo a uma "democracia popular", burguesa, com mais participação popular, na melhor das hipóteses. E que este programa se sustenta com métodos e táticas afastados da massa.

Assim, o esvaziamento não se deu pelo dinheiro investido em campanhas de mídia, já que a realidade do país latino-americano lança diversos trabalhadores a abrir mão de suas vidas para se dedicar à luta armada, ou a admirá-la. O esvaziamneto se dá graças às direções totalmente burocráticas, que usam o dinheiro do tráfico de drogas, ou seja, um dos setores mais degenerados do capitalismo, para financiar uma luta contra os governos, mas sem se constituírem como polo organizador das lutas de toda a classe trabalhadora contra o capitalismo. Ao demonstrarem não estar à altura das tarefas históricas a serem desempenhadas, as guerrilhas entram em crise e seus membrois abandonam a vida de privações e sacrifício, que não se dirige a lugar nenhum.

As guerrilhas, por si só, nunca representaram alternativa alguma para os trabalhadores, quando foram ações individuais ou "foquistas". Historicamente, porém, a guerrilha é mais uma das táticas que podem ser usadas, e que é extremamente valiosa quando a população apoia a ação armada, sem que haja condições de uma guerra aberta. Foi o que se deu no Vietnã, por exemplo, e se repete em parte do Oriente Médio, como no caso do Hezbollah, no Líbano.

Mesmo nestas circunstâncias em que é correto apostar nas guerrilhas, como forma de combater a burguesia, essa disputa deve se combinar com a luta pelos organismos de massa dos trabalhadores, assim como por sua consciência, construindo um partido leninista que obtenha influência de massas. Os objetivos de qualquer organização que defenda os interesses dos trabalhadores coerentemente, deve ser de enraizar uma organização que lute até o fim do capitalismo, como a parte mais consciente e combativa da classe trabalhadora, e não em substituição ou à parte dela; muito menos abandonando a luta revolucionária, pela reforma do capitalismo.

Infelizmente, não é esse o caminho seguido pelas FARC, nem pelo ELN, conhecidos ultimamente por seus erros e capitulações.

 

 

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