A Frente Popular em crise na Argentina
O Governo Cristina Kirchner, da Argentina, atravessa uma profunda crise política. De um lado, a oposição de direita aumenta o tom de algumas denúncias e enfrentamentos contra o governo, e, de outro, a classe trabalhadora e os movimentos populares estão realizando cada vez mais mobilizações, protestos de ruas e bloqueios de estradas.
Recentemente, esse cenário se acentuou ainda mais, depois de Cristina ter decretado a demissão do presidente do Banco Central, Martín Redrado, tentando forçar sua renúncia, já que o Banco Central é autônomo no país. Redrado, porém, se recusou a acatar a ordem, e se tornou o pivô e mais uma desmoralização de Cristina, sendo imediatamente apoiado pela direita Argentina, em particular pela União Cívica Radical (UCR), que tem o vice-presidente, Julio Cobos, agora um crítico da presidente.
O centro dessa disputa tem a ver com que forma a Argentina vai pagar a dívida externa, que, somente em parcelas que vencem esse ano, totaliza US$ 13 bilhões. O governo criou um fundo de reservas destinado ao pagamento da dívida em dezembro de 2009, chamado absurdamente de bicentenário, em alusão à data da independência argentina, o que é um contrassenso a quem quer dar dinheiro público aos exploradores internacionais. O fundo, contudo, ainda não foi aprovado pelo Congresso argentino.
A oposição de direita e Regrado são contra a utilização das reservas do Banco Central para o pagamento da dívida, defendendo novos empréstimos e o aumento do endividamento e dependência do país. .
Na verdade, tanto os Kirchner como Regrado defendem a mesma coisa: seguir pagando bilhões aos banqueiros e especuladores internacionais e manter a população sem emprego, salário, saúde e educação de qualidade. Nessa disputa, os trabalhadores não possuem nenhum lado. A única bandeira que interessa à classe operária e à população pobre é o "Não Pagamento da Dívida Externa". Somente assim, deixando de pagar uma dívida ilegítima, que serve para aumentar o domínio sobre este país sulamericano, será possível investir nas questões essenciais da vida dos trabalhadores.
No dia 22 de janeiro, diversas organizações de esquerda marcharão pelas ruas de Buenos Aires defendendo o não pagamento da dívida. Fatos como esse têm sido rotina na Argentina. Diariamente ocorrem protestos, cada vez maiores, e o governo vai perdendo o controle político da situação. Utiliza a repressão da polícia contra as manifestações, mostrando seu caráter burguês, mas as lutas aumentam ainda mais. Ao mesmo tempo, se tenta fazer alguma concessão para os trabalhadores, se vê impossibilitado pela crise econômica e pela pressão da oposição de direita.
Assim, a Argentina começa a enfrentar uma situação onde o governo de Frente Popular está perdendo o controle sobre a classe trabalhadora. A Frente Popular é uma aliança entre setores da burguesia e da burocracia operária. O objetivo desse tipo de governo é frear as lutas dos trabalhadores e manter a estrutura capitalista intacta, através de um discurso mais de esquerda e algumas medidas compensatórias que atendam alguma necessidade mínima dos mais pobres.
Esses tipos de governo, como os de Lula, Mujica, Evo Morales e Hugo Chávez, são as últimas apostas da burguesia para tentar controlar as lutas dos explorados, justamente porque conseguem cooptar e atrelar importantes organismos sindicais ao governo, criando os pelegos e traidores do movimento sindical.
O problema é quando esse governo já não consegue mais enganar as massas com um discurso mais popular, pois já existe uma experiência com o governo, e não existem condições econômicas para conceder algo de bom para os trabalhadores. Nesse caso, setores da burguesia que antes enxergavam nesse governo algo necessário para manter o capitalismo funcionando, já não contam tanto com isso, pois não podem mais abrir mão de um centavo sequer.
Hoje, o governo de Cristina Kirchner está sob uma corda-bamba, pois não tem sustentação mais nem na burguesia (que está rachada, mas pendendo para a saída à direita), nem na classe operária (que em parte ainda está submetida aos sindicalistas governistas, mas em parte rompeu à esquerda, ou se desiludiu e vai votar na direita).
E quanto mais crescem as mobilizações dos trabalhadores pela esquerda, mais a oposição de direita aumenta o seu enfrentamento, por medo de que as instituições e o conjunto do sistema percam o controle sobre as massas. O resultado é uma tensão de classes e uma polarização social e política enormes.
O governo de Cristina Kirchner, em 2 anos de mandato, já tinha sofrido uma derrota quando tentou aumentar os impostos para os agricultores, em 2008, tendo seu projeto derrubado no Parlamento. Depois disso, também estatizou a Aerolíneas Argentinas e a Previdência, pagando indenizações aos antigos proprietários, como forma de fingir para os trabalhadores que estaria tomando medidas de esquerda.
Recentemente, o governo e a burocracia sindical sofreram uma dura derrota para os trabalhadores de base do Metrô de Buenos Aires, que criaram um novo sindicato, depois de romper com o sindicato pelego e governistas dos transportes. Nesse episódio, a CGT peronista e defensora incondicional dos K. chegou a convocar uma marcha contra a criação de novos sindicato e alterações do modelo sindical, mas recuaram e cancelaram a mesma quando os trabalhadores anunciaram que fariam uma contra-marcha, em defesa de sindicatos de luta e independentes do governo.
A Argentina caminha para conflitos ainda maiores dos que já ocorrem hoje. Os trabalhadores e a burguesia não confiam no governo de Frente Popular em crise. A questão toda reside em saber se, do lado dos explorados, existirá uma direção revolucionária capaz de canalizar a luta contra a Frente Popular em uma luta contra o capitalismo de conjunto.
O caminho do socialismo, da expropriação da propriedade burguesa e do controle operário das fábricas, bancos e riquezas argentinas está mais fácil de ser agitado amplamente entre as massas pelas organizações revolucionárias, ainda que enfrente muitos obstáculos.
Essa é a necessidade dos trabalhadores na atual situação: aumentar o enfrentamento contra o governo, a burocracia sindical e o regime como um todo, mas sem deixar que a direita também cresça, organizando a auto-defesa dos trabalhadores e convocando grandes e poderosas mobilizações para derrotar a Frente Popular e a burguesia inteira, rumo a um governo socialista e dos trabalhadores.
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