Publicado em 27/12/2011

Fraude nas eleições russas balança governo Putin

        O que parecia impossível pode acontecer. Depois da Primavera Árabe e das revoluções sem sequência por países do norte da África e Oriente Médio, além das incontáveis greves gerais na Europa e queda de 10 governos no continente, os ventos revolucionários atingiram a Rússia, do onipotente Vladimir Putin e de seu braço direito, o presidente Dmitri Medvedev.

Após os resultados eleitorais parlamentares, que deram a vitória ao partido governista Rússia Unida (RU), de Putin e Medvedev, a população reagiu com fúria e protestos foram organizados por toda o país, denunciando a fraude, documentada inclusive com imagens de fiscais “votando” em cédulas em branco.

A RU, pelos resultados fraudulentos, obteve a maioria absoluta na Câmara Baixa do Parlamento (Duma), com 238 deputados, mas seu resultado foi 15% mais baixo em relação às eleições de 2007 e ela perdeu 77 cadeiras. Este resultado, apesar da maioria simples, impede que a RU possa realizar mudanças constitucionais. Putin seguirá governando, mas com menos poderes. Isso na melhor das hipóteses para o governo: a de que as massas permitam a posse da Duma com os resultados divulgados e não imponham novas eleições.

Neste sentido, as manifestações contra o reconhecimento das eleições estão multitudinárias. A polícia russa deteve em apenas um dia 500 opositores em Moscou e em São Petersburgo, que protestavam contra a fraude nas eleições legislativas. 250 pessoas foram presas somente na Praça Trumfalnaia, no centro da capital russa, que também tem assistido a milhares de manifestantes na praça Bolotnaya. Tanto Moscou como São Petersburgo (ex-Leningrado) estão completamente conflagradas.

Os agentes “antidistúrbios" prendem e agridem todos que podem, no intuito de ameaçar a multidão inteira, mas esta tática do medo não está surtindo efeito. Dezenas de opositores foram colocados em furgões da polícia, ao mesmo tempo em que o governo orquestra manifestações em apoio a si mesmo, por meio de militantes do Rússia Unida, mas nada disso tem servido para demover a maioria da população, que está enxergando a oportunidade de derrubar Putin nas ruas, já que, nas urnas, sua indústria de votos impede qualquer chance da oposição.

A multidão grita "Rússia sem Putin" e panfletos são distribuídos com frases como "Os ratos devem ir embora!" e "Vigaristas e ladrões, nos deem a nossa eleição de volta!". Os manifestantes lotaram uma larga avenida a cerca de 2,5 km do Kremlin, apesar do dia frio e da neve que caía em Moscou, gritando o já universal “Rússia sem Putin” e segurando cartazes que diziam “A eleição foi uma farsa”. Policiais cercavam os manifestantes enquanto helicópteros sobrevoavam a multidão.

Independente das ameaças, entretanto, dezenas de milhares de pessoas não parecem dispostas a voltar a suas vidas sem uma mudança profunda no país e as manifestações continuam e se fortalecem.

Ao pedirem que as eleições ocorram novamente, os manifestantes sentem que a correlação de forças mudou, e que hoje há forças para desalojar Putin do Kremlin, já que as manifestações já encarnam um tamanho e proporções históricas.

Putin, que alterna-se entre presidente e primeiro-ministro desde o ano 2000, quer retornar à presidência em 2012, mas as manifestações podem impedir não apenas este plano, como derrubá-lo desde já. As mobilizações, do Pacífico ao Ártico, da Sibéria à parte europeia da Rússia, vão ganhando força, e seu conteúdo, além da exigência de novas eleições, já avança para reivindicar a libertação dos presos políticos e a investigação da corrupção em todas as áreas do governo.

Nenhum acordo com o governo. Fora Putin e Medvedev

Até 80 mil manifestantes em Moscou, milhares em São Petersburgo e centenas em ao menos outras 60 cidades russas terão o desafio, a partir de agora, de medir sua força e capacidade de organização contra o autoritário e corrupto governo Putin.

        Infelizmente, a falta de uma direção revolucionária coloca as coisas num cenário difícil, onde muitas manobras e distorções se impõem. Por exemplo, o Partido Comunista russo, stalinista e herdeiro das piores práticas antidemocráticas, de terror contra os operários e de corrupção, incluindo a divisão do espólio da ex-URSS, após a restauração do capitalismo que eles mesmo conduziram, tenta dirigir as manifestação anti-Putin. Por ser o 2º colocado nas eleições, e simbolizar o projeto “adversário” do governo, o PC tenta transformar a luta por mudanças sociais e democráticas na Rússia em uma oportunidade apenas para ele retomar a presidência.

Traidores e políticos burgueses como Mikhail Gorbachev aparecem em pública como “porta-vozes” da democracia, num espetáculo patético e inaceitável. Aproveitando-se desta falta de condições morais das maiores organizações políticas de oposição; e da desorganização da população, vítima de quase 70 anos de terror stalinista e, depois, do bonapartismo de Putin, o presidente russo, Dmitri Medvedev, fala em pequenas mudanças, com o objetivo de acalmar a população e deixar tudo como está.

Ele prometeu uma reforma do sistema político, no que, por um lado, já é prova da fragilização do governo, mas, por outro, é uma medida oportunista e inócua, pois nada de concreto foi apresentado. Entre as medidas propostas por Medvedev estariam as eleições para governadores, atualmente indicados pelo governo central, e que voltariam a ser livres.

Também haveria maior facilidade para formar novos partidos, admitindo que um grupo de 500 pessoas que represente mais da metade das províncias russas possa formar um partido, diminuindo a obrigação atual, que fala em ao menos 45 mil integrantes. Outra proposta é que uma candidatura presidencial se torne possível com a assinatura de 300 mil pessoas, e não de 2 milhões como atualmente.

Por fim, Medvedev prometeu suavizar o rígido controle sobre as emissoras de TV, que teriam permissão para fazer a cobertura das eleições sem interferência do governo. Ele disse que a Rússia “precisa de democracia, não de caos” e tentou agradar aos manifestantes dizendo “Quero dizer que ouvi e compreendi os que falaram sobre a necessidade de mudanças” e “Temos de dar a todos os cidadãos a oportunidade de participar da vida política.”

Ainda é cedo para sabermos que força terão as manifestações no futuro. Porém, o que já se percebe é que o gigante russo despertou e as massas inertes por muito tempo voltaram com força. Putin e Medvedev já balançaram; agora é o momento de avançar no enfrentamento e fazê-los cair!

 

 

 

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