Publicado em 11/12/2008


A Grécia vive dias de tormenta:
Em luta há 1 semana, trabalhadores e estudantes paralisam a Grécia com uma poderosa greve geral

Há dias, a Grécia está tomada por manifestações massivas de estudantes e trabalhadores. As mobilizações tiveram início após o assassinato de Alexander Grigoropoulos, estudante de 15 anos, com um tiro disparado pela polícia grega.

Os protestos tiveram seu momento mais forte na quarta-feira, 10 de dezembro, com a deflagração da greve geral de 24 horas convocada pelas centrais sindicais do país. O país parou, bancos, empresas de diversos ramos, e até mesmo as instituições de ensino amanheceram fechadas. Durante a paralisação os grevistas promoveram uma grande manifestação que culminou num enfrentamento com a polícia grega, onde os manifestantes jogaram pedras e molotovs nos policiais e na sede do parlamento grego.

A revolta contra o assassinato de Alexander começou imediatamente após o fato, mas ganhou mais força, unificando as mobilizações, e as politizando cada vez mais,  a partir do enterro de Alexis Grigoropoulos, na capital, o que serviu como símbolo para a compreensão da necessidade de avançar e derrubar o governo. O próprio enterro foi acompanhado por milhares de pessoas e marcado por protestos. Após, o enfrentamento entre a polícia e manifestantes foi ainda maior: de um lado a população arrancava pedras do chão e jogava contra carros e vitrines de lojas; de outro, a polícia vinha com bombas de gás lacrimogênio.

Um dos alvos das manifestações foi o parlamento Grego, cuja árvore de natal gigante que fica em sua frente foi queimada, simultaneamente a um incêndio causado em uma grande loja de departamento no centro de Atenas. É importante dar atenção a este fato, pois não é só contra o governo que se dirigem as lutas, mas contra outras instituições centrais, como o Parlamento, demonstrando uma rebelião contra o regime político de conjunto.

Crise gera revolta

Embora se divulgue em toda mídia que os protestos são motivados apenas pela truculência ou abuso de poder da polícia grega, a verdade é que há muito mais motivos por trás das mobilizações. O assassinato do estudante foi apenas a gota d'água que faltava para que explodisse a convulsão social no país. Isso porque a economia da Grécia vem enfrentando um período de complicado há alguns anos.

Após sua entrada no bloco econômico da União européia, o governo do primeiro ministro Costa Karamanlis promoveu a de privatização de diversas áreas do país, somado a isso a política econômica vem gerando uma precarização do trabalho e da vida dos trabalhadores do país ao mesmo tempo em que aumento o lucro de uma burguesia grega e imperialista cada vez menor. Um dos elementos mais significativos desta precarização é o indicie de desemprego que já ultrapassou os 7% da população.

A situação do governo piora a cada dia. No início, Costa Karamanlis foi a TV pedir ordem à população. Nem foi ouvido. Antes, o governo protagonizou trapalhadas que o deixaram ainda mais desmoralizado. Após o assassinato do jovem, o ministro do Interior apresentou a sua demissão, que não foi aceita pelo primeiro-ministro.

Mesmo com toda a repressão e campanha vinda por parte do governo para tentar acabar com os protestos, os trabalhadores e estudantes não se mostram dispostos a recuar. E, a medida que os dias passam, as mobilizações se fortalecem e ganham mais força dentro da população grega, como vimos na greve geral de quarta feira. O governo já se vê enfraquecido e com a cabeça por um triz. Os lideres dos partidos de oposição, se aproveitando das lutas dos trabalhadores passaram a exigir a renúncia do primeiro ministro e a realização de novas eleições. Enquanto o governo, desesperado, tenta barganhar com os lideres dos protestos e os parlamentares opositores para que acabem os protestos. Como parte desta barganha foi decretada a prisão preventiva dos dois policiais envolvidos na morte de Alexis Grigoropoulos.

E, dialeticamente, se a crise gerou as lutas que vemos; as lutas, por sua vez, agravam mais ainda a crise econômica e do regime na Grécia. Enquanto os manifestantes questionam o governo de Costas Caramanlis, a oposição "Socialista" se joga de cabeça nas manifestações, com o objetivo de derrubar o atual governo, mas tentando preservar todo o sistema intacto, apenas trocando, para si, o controle do governo.

Após a deflagração da greve geral no país, a Grécia inicia um novo momento da luta, decisivo, em que se exigem conquistas econômicas e mudanças sociais. Do protesto contra a polícia e o governo, já se reivindica ajuda mensal de mil euros para famílias de classe baixa, aumento do seguro-desemprego e das pensões, e contra as reformas econômicas do governo.

Embora os protestos tenham sido desencadeados pela morte de um jovem, toda essa revolta que toma contas das ruas da Grécia só pode ser entendida a partir do agravamento da crise econômica que atinge o capitalismo, e um sentimento de revolta por parte da população que vê, a cada dia que passa, que a vida só piora, enquanto os governos e a burguesia não poupam esforços em jogar todos os problemas e violência do capitalismo nas costas dos trabalhadores e da juventude.

Lembrando a França

A própria imprensa burguesa noticia, chocada, que os jovens pareciam controlar a cidade. Demonstrando o medo da burguesia diante do crescimento das mobilizações, e o quão forte é o processo de luta que está se dando na Grécia.

Os protestos já causam um grande prejuízo aos empresários, mais de 130 lojas foram incendiadas na capital, mais de 12 delegacias foram destruídas, um jornal governista foi atacado. Já são milhões de euros de prejuízos!

Este cenário nos traz à memória, imediatamente, a lembrança dos fatos ocorridos na França, 2 anos atrás. Milhares de carros foram incendiados nos subúrbios e periferia de Paris e de toda a França. O início da revolta se deu também com o assassinato de dois jovens pela polícia, o que, depois, se estendeu como um processo de luta contra o governo inteiro, o sistema e o capitalismo, ainda que inconscientemente e sem direção. Na Grécia, retirando-se o fato de que não são imigrantes a vanguarda da luta (caso da França), a situação é bastante semelhante, e prova que também no coração do capitalismo a ameaça de uma revolução que destrua as instituições e ponha o povo trabalhador no poder não é uma ilusão. A força da luta permite que se avance para isso. O que falta é uma direção revolucionária que corresponda a este desafio.

Por um programa de ruptura, que atenda ao que querem os manifestantes, trabalhadores e estudantes

Ao lutar contra a violência, contra um governo repressor e contra a situação de crescimento do desemprego e da miséria na Grécia, inconscientemente os trabalhadores e a juventude estão lutando pelo socialismo. Todos os esforços da oposição de esquerda (socialista) passa por tentar convencer a população de que os problemas do país serão resolvidos pela queda do atual governo e sua substituição por um governo mais de "esquerda" e "democrático".

Essa não é a alternativa que vai solucionar os problemas do país, pois todas essas lutas e enfrentamentos se dão não somente contra o governo, mas são a expressão de uma luta contra o modo de produção capitalista, que enquanto seguir existindo, independente do governo (conservador, de direita, "esquerda"), vai seguir jogando mais e mais pessoas na miséria e deixando a mercê da violência.

Mais uma vez os trabalhadores, agora na Grécia, se vêem diante de seu maior problema: Ao mesmo tempo em que vão as ruas, derrotam a polícia, paralisam a produção e sitiam o poder, se vêem sem uma direção capaz de levar a cabo sua luta, de forma coerente e conseqüente. Infelizmente a falta de uma direção revolucionário, com um programa claro combate ao governo, a burguesia e o capitalismo deixa um processo brilhante, revolucionário, de luta dos trabalhadores nas mãos de uma direção que será incapaz de levar os trabalhadores à vitória. Se não superarem, atropelarem, a direção dos partidos de oposição ao atual governo, estas mobilizações acabarão em derrota dos trabalhadores, e vitória dos patrões e do capitalismo.

____A alternativa para os trabalhadores da Grécia, e do mundo todo, passa por derrotar o capitalismo através de uma revolução socialista, que coloque o poder nas mãos dos que hoje são obrigados a se enfrentar contra o governo e a polícia. Não existem condições de um capitalismo mais "humano". É preciso levar estas lutas até as últimas consequências, ou seja, a construção de uma sociedade socialista!

 

 

 

 

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