Publicado em 25/01/2012

“Grécia vai quebrar se não cortar mais salários”, diz Papademos

Não precisa mais nem ser dito pelas agências de risco ou por qualquer economista. É o primeiro-ministro grego quem admite: a Grécia está prestes a decretar oficialmente moratória, mesmo após 3 pacotes e centenas de bilhões enviados ao país.

É claro que este surto de sinceridade tem um objetivo por trás, que é a justificativa para arrochar ainda mais os salários e direitos dos trabalhadores e solicitar um novo empréstimo à União Europeia. Mas, apesar dos interesses e soluções neoliberais por trás da admissão do tamanho da crise, a realidade é essa mesma: a Grécia caminha para quebrar de vez, e muito em breve. O primeiro-ministro grego, Lucas Papademos, alertou que o país pode quebrar e ser obrigado a deixar o euro já nos próximos três meses.

Entre as medidas propostas pelo novo governo grego, após a derrubada de George Papandreou por pressão das massas, estão a continuidade de todos os ataques anteriores e a aplicação de mais uma reforma trabalhista, além da decretação de um “calote seletivo” de pelo menos mais 50% de sua dívida com os bancos.

O governo, que se reuniu com sindicalistas oportunistas nestas primeiras semanas do ano, liberou o conteúdo da conversa, cujo objetivo foi tentar convencer trabalhadores de que terão redução em sua renda. "Temos de ceder um pouco para não perder muito", disse Papademos, repetindo o velho e conhecido discurso do “sacrifício” para os trabalhadores, tentando jogar aos mais pobres os custos da crise que os ricos fizeram e da qual se locupletaram.

Paralelo aos ataques aos trabalhadores, que concentram o grosso das medidas, o governo grego tenta forçar os bancos a aceitar um calote de 50% de sua dívida, no mesmo discurso d “perder um pouco, para não perder muito”. Com uma diferença: os bancos já ganharam tudo! E foram eles que estiveram na origem da crise. Foi o socorro ao sistema financeiro por parte de recursos estatais um dos principais problemas que levaram à falência do país. Agora, os bancos, no máximo, iriam deixar de ganhar muito, para ganhar pouco, após já terem ganho tudo.

Há pressa, pois existem 14 bilhões em dívidas que vencem já em março. Pelo novo acordo que se está negociando, Atenas receberia 130 bilhões como parte de um novo fundo. Os investidores aceitariam receber apenas 50% da dívida da Grécia com eles (cerca de 100 bilhões de euros) e os trabalhadores pagariam a conta final. A EU exige mais e mais... O bloco agora manda Papademos retirar o bônus de férias e de Natal (13º e 14º salários) para servidores públicos e o fim das correções salariais automáticas.

Mesmo aplicando estas medidas, contudo, a Grécia caminha para o buraco e o PIB despencará 6%. Como se ainda fosse pouco, a Europa como um todo deve jogar a Grécia ainda mais para baixo. Até mesmo a maior economia da região, a Alemanha, teve contração de 0,25% no quarto trimestre de 2011, após ter crescido só 0,5% no terceiro trimestre. O número desmascara a expansão de 3% em todo o ano de 2011, que não é em si tão ruim, mas que só foi obtido por conta de um bom resultado no 1º semestre do ano passado, o que não deve voltar a ocorrer.

Neste ano, o próprio governo alemão acredita que o crescimento econômico do país neste ano vai cair para 1,0%. Com um resultado ruim destes para quem é a “locomotiva” europeia, a Grécia pode ir fazendo as malas do euro.

Yannis Panagopoulos, um dos principais sindicalistas gregos, garantiu ontem que os trabalhadores não aceitarão mais sacrifícios. Mas admitiu que poderia negociar uma redução de salários em troca de garantias de não haver mais demissões. Quer dizer, os sindicalistas pelegos gregos ameaçam e protestam, mas, no fundo, são coniventes e cúmplices com os ataques.

A única saída aos gregos é aprofundar suas mobilizações e derrubar mais um governo, paralisando o país e unificando-se aos demais trabalhadores europeus em uma forte greve geral continental, que exija a expropriação dos bancos e grandes empresas, fazendo com que sejam os ricos a pagar pela crise.

 

 

 

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