Publicado em 23/07/2009

“Greve da Copa” na África do Sul mostra contraste: bilhões para as construtoras e tostões para operários.

Há pouco mais de 300 dias para o início da Copa do Mundo, a África do Sul, sede de um dos campeonatos mais lucrativos do mundo, parou. Quer dizer, quem parou foram os operários da construção civil. Cerca de 70 mil, espalhados por todo o país, realizaram uma fantástica greve, que iniciou em 8 de julho e teve duração de 8 dias, exigindo aumento de salário e diminuição da jornada de trabalho.

Os trabalhadores sul-africanos, que têm baixíssimos direitos trabalhistas e sofrem com uma exploração brutal, que lhes esgota totalmente, através de um salário de fome, ausência de benefícios sócias, carga de trabalho extenuante e péssimas condições de trabalho, mostraram o caminho. Diante de salários que mal chegam ao mínimo no Brasil, os operários das construções dos 5 estádios e demais obras da Copa entraram em greve e demonstraram muita força.

Estes trabalhadores assistem a bilhões sendo gastos em tecnologia de última geração, máquinas e toda a parafernália capitalista, que produz lucros e fortuna aos capitalistas, enquanto suas vidas são esgotadas em troca de dinheiro que mal compra comida.

A construção civil é um dos trabalhos mais árduos que existe. Trabalho braçal, mal pago e pouco valorizado, executado por gente que, em qualquer dia da semana, faça chuva faça sol, esta no batente. Assim, é inquestionável a necessidade deste aumento.

A greve, portanto, foi uma necessidade, e aconteceu apesar da ausência de um sindicato combativo, exigindo um reajuste imediato de 13%, enquanto que a patronal não oferecia nada além de 10%, índice já em função da observação de que a luta estava forte. Afinal, eram 70 mil operários parando as obras e pressionando!Ao fim das contas, se conseguiu 12% de aumento, e os grevistas saíram com um salto em sua organização política, num sentimento de vitória, e de que mais luta virá pela frente.

Radicalização da base atropela sindicatos acomodados

Com pedaços de pau nas mãos e gritando “estamos em greve”, centenas de operários iniciaram suas mobilizações em torno do Soccer City, estádio que sediará a partida inicial e a final da Copa, e marcharam ate a porta do Comitê Organizador da Copa.

O Comitê se posicionou, desde o início, contra a greve, dizendo que a África do Sul, enquanto pais democrático, devia respeitar o direito a greve que todos os trabalhadores têm, porém, chantageando que o atraso nas obras poderia fazer com que se perdesse o Mundial e todas suas alegadas maravilhas.

Os trabalhadores, que ganham uma média salarial de R$ 550, são organizados pelo Sindicato Nacional dos Mineradores, responsável tanto pelos trabalhadores da mineração quanto da construção civil. O sindicato, apesar de ter prometido “pulso firme” com os patrões nas negociações, só entrou em ação por conta da luta dos trabalhadores desde a base. Aliás, o Congresso dos Sindicatos Sul-Africanos (Cosatu), o sindicato mais poderoso na África do Sul, anunciou que os trabalhos seriam retomados imediatamente após o fim da greve: “É um alívio. Acolhemos o Mundial no próximo ano e não podemos permitir que haja atrasos na construção dos estádios”, explicou Zwelenzima Vavi, um dos responsáveis do sindicato.

O discurso dos sindicalistas expressa o papel de colaboração com os patrões e o governo daqueles que deveriam os enfrentar, defendendo os operários. Ficou evidente que foi a base quem conseguiu levar adiante a mobilização dos trabalhadores, apesar de sua direção.

Porem, sabemos que o sucesso ou o fracasso das mobilizações, apesar do heroísmo da base, está intimamente ligado à forma como sua direção conduz o processo. Os operários da construção civil da África do Sul, que conseguiram impor uma derrota econômica parcial ao governo, precisam aumentar sua organização, e construir uma nova direção para suas lutas. A experiência dos que lutaram na greve sem apoio firme do sindicato pode, e deve, se converter no embrião de um novo sindicalismo e organização política na África do Sul, mobilizando trabalhadores de outras frentes para uma luta maior contra todos os exploradores.

 

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