Publicado em 26/08/2009

Golpe em Honduras se mantém pela força da repressão e pela traição do reformismo e chavismo

Passados 2 meses do golpe dado em Honduras no último domingo de junho, o governo ilegal e golpista segue no poder. Ao contrário das décadas de 60 e 70, a situação atual mostra uma classe trabalhadora na ofensiva, fazendo greves, resistindo a ataques,e, ao mesmo tempo, arrancando medidas sociais em muitos países, derrubando presidentes e colocando em cena novamente a luta pelo poder.

Nesta realidade, soa fora do lugar o golpe dado por setores bonapartistas e semi-fascistas do país centroamericano. Até mesmo o sempre intervencionista e golpista governo imperialista dos Estados Unidos precisou condenar “da boca para fora” o golpe no país, pois ele não corresponde à atual correlação de forças na luta de classes, e pode pôr a perder a estratégia de domar as massas pela via eleitoral e das Frentes Populares.

No entanto, mesmo numa conjuntura desfavorável e sob isolamento internacional, o governo golpista de Micheletti segue no poder, sem aceitar as “pressões” internacionais e nem sequer negociar a volta do presidente Zelaya, deposto pela força militar.

O que explica essa permanência de um governo odiado pelas massas e sem respaldo nem sequer da burguesia internacional, é uma combinação de violência e perseguição à oposição, internamente; e a covardia, traição e  incapacidade de se opor ao golpe por parte da burguesia nacional “democrática”, com Zelaya à frente, assim como do reformismo e chavismo na região.

A ditadura de classes em Honduras

O governo de Honduras, surgido após o golpe, é chefiado por Micheletti, um civil. No entanto, a principal instituição que sustenta esse governo ilegítimo, depois do seqüestro e expulsão do presidente eleito, são as Forças Armadas. Há uma ditadura em Honduras, baseada em toque de recolher, perseguições, censura e assassinatos de ativistas.

A burguesia não consegue governar por meio de suas instituições típicas da democracia burguesa, que também é uma ditadura da classe proprietária dos meios de produção, mas mediada por uma aparência de democracia. Hoje, até as instituições que permanecem após a derrubada do Executivo, servem de linha auxiliar e porta-vozes de um governo baseado na repressão. O Congresso e a Justiça sobrevivem como auxiliares da força policial que sustenta Micheletti.

Tanto o Exército como a Polícia Nacional atiram e jogam bombas contra as manifestações. No dia 12 de agosto, após uma marcha muito forte no dia anterior,com 30 mil manifestantes, houve 40 presos em Tegucigalpa (a capital) e mais de 80 em San Pedro Sula (segunda cidade do pais com cerca de 700.000 habitantes). Houve outra violenta repressão em San Pedro Sula quando as massas, em outro momento, bloquearam a estrada que liga ao porto de Tegucigalpa.

No total, são pelo menos 30 pessoas executadas nas madrugadas de Tegucigalpa desde o golpe, pela polícia, militares e grupos paramilitares, compostos pela direita organizada e com apoio estatal. São centenas de detidos e feridos. E há a censura e intimidação constantes.

Neste exato momento, as forças armadas e policiais golpistas estão colocando em curso um processo de fechamento e perseguição da imprensa burguesa oposicionista e contrária ao golpe. Há atentados contra emissoras da fração burguesa que apóia Zelaya. Motoristas da Rádio Globo, por exemplo, com sede em Tegucigalpa, disseram que homens encapuzados chegaram ao local onde funcionam os transmissores da emissora e os atacaram com gases tóxicos. O sinal da Rádio Globo foi interrompido na noite de domingo, sendo restabelecido parcialmente depois das 6h (9h em Brasília) da 2ª-feira. Os responsáveis pelo ataque eram militares, conforme testemunhas. O canal 36, também da capital, sofreu um outro ataque, e a emissora está totalmente fora do ar.

Após a deposição de Zelaya, tanto a Rádio Globo quanto o Canal 36 foram ocupados por militares e seu sinal esteve fora do ar durante alguns dias. Neste caso, são empresas burguesas, e a fúria da ditadura se concentra sobre seus equipamentos e capacidade de transmissão. Diante dos trabalhadores, porém, a situação é mais cruel: são execuções e prisões por toda parte.

Mesmo assim, o governo não consegue impor seu controle absoluto, e há marchas com multidões, além da instabilidade política constante. Essa fragilidade da burguesia, e mesmo sua menor truculência e traços fascistas, apesar de tudo, quando se compara Honduras com as ditaduras de 30 anos atrás, se explicam pela força atual da classe trabalhadora.

Mesmo que queira dar golpes militares, a burguesia hoje não tem forças para isso. Pode conseguir este intento em algum país marginal politicamente, como Honduras, mas precisa disfarçar esta ação com um governo civil, ter que se “contentar” com uma perseguição dura, para padrões da democracia-burguesa, mas bem menos terríveis do que o continente já sofreu.

Esta política “em falso” da burguesia golpista hondurenha só não é completamente aniquilada, apesar das lutas populares, porque falta uma direção combativa, devido à rendição do reformismo e da burguesia deposta.  

 

A democracia e independência nacional são partes da luta revolucionária

 

Em Honduras, a luta pela derrubada do golpe passa pela luta contra a propriedade privada e a influência burguesa nacional e internacional. Sem expropriar os golpistas e derrubar as instituições “democráticas” que o sustentam, como Congresso e Justiça, não há como derrotar definitivamente os golpistas e a ditadura.

Diante da crise capitalista, a luta desde as reivindicações mais mínimas, como o direito ao voto, à liberdade de imprensa e de organização, até o fim da exploração,por salário e emprego digno a todos,precisam ser luta anticapitalistas.

Ainda que o regime político tenha se convertido de democrático-burguês em bonapartista em Honduras, o Estado burguês segue o mesmo, assim como a propriedade privada, a corrupção e as instituições políticas, em seu conteúdo.

A Frente Nacional Contra o Golpe, formada por setores de trabalhadores e pela burguesia, não é capaz de dirigir resistência nenhuma, como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, também não é.  Tanto o chavismo, como o reformismo são covardes quando se trata de sair do discurso e ir para a ação. Nenhum deles é capaz de ajudar militarmente, muito menos de entrar em choque com os golpistas. Isso porque seus interesses de classe são os mesmos. Chávez se enfrenta parcialmente com o imperialismo no seu país, e quase foi derrubado em 2002 por ele, porque na Venezuela a pressão popular obriga a que o governo leve adiante alguns enfrentamentos.

Mas somente os trabalhadores podem, de fato, derrotar a burguesia até o final, sem vacilar. São as professoras, organizadas no Sindicato dos Professores, reunidas na Faculdade conhecida como “la Pedagógica”, os 100 mil hondurenhos que marcharam até o aeroporto quando Zelaya mentiu que pousaria no país, e o conjunto da classe operária, junto dos explorados e estudantes que são contra o golpe, os que podem vencer.

Para isso, é preciso reforçar a organização por bairros e por categoria de trabalho, tentando construir uma nova organização, revolucionária e de luta, desde a base. A História mostra que a força dos de baixo pode muita coisa, mas, para derrotar em definitivo os golpistas e a ameaça capitalista, além de garra e coragem, é preciso um movimento socialista e revolucionário.

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