Publicado em 25/06/2009

Anunciada confirmação da vitória de Ahmadinejad,
após conflitos no Irã

Desde o processo eleitoral em que o presidente Ahmadinejad buscava a reeleição, no dia 12 de junho, o Irã vive dias de intensos conflitos. A eleição foi marcada por inúmeras denúncias de fraude em que pelo menos 50 cidades tiveram mais votos do que eleitores, com pelo menos 3 milhões de votos fantasma. 

Mirhossein Mousavi, líder da oposição, que ficou em segundo lugar segundo a apuração oficial, exige que se façam novas eleições, e está desafiando o governo através do chamado à desobediência política e paralisações. O resultado tem sido centenas de milhares de manifestantes nas ruas e quase 20 mortes, numa onda de protestos contra o governo.

A Press TV, rede estatal iraniana em língua inglesa, anunciou: "Irã: recontagem parcial dos votos confirma resultado da eleição". A emissora não deu mais detalhes. Como o Conselho dos Guardiães, o mais alto órgão legislativo do Irã, tinha dito que recontaria 10% dos votos, escolhidos aleatoriamente, afim de acalmar os manifestantes, a Press TV parece estar se referindo a essa recontagem.

No início da semana, um porta-voz do Conselho, que precisa aprovar o resultado, voltou a descartar a possibilidade de anulação da eleição, dizendo que não foram constatadas grandes irregularidades. Essa postura deixa claro que, mesmo antes da recontagem, o conselho já definiu que vai validar o resultado eleitoral e sustentar a reeleição de Ahmadinejad. A divulgação antecipada do resultado, no entanto, é suspeita, pois o conselho tinha acabado de ganhar mais tempo para continuar a recontagem.

Regime e governo a perigo

O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, diante da forte divisão entre governo e oposição, acabou entrando na disputa, e declarando total apoio ao atual presidente, Ahmadinejad. Com esta postura, Khamenei reforça o governo, mas, na eventualidade de que o governo caia, é o pilar religioso e maior autoridade do país quem também ficará na berlinda.

Composto de 12 membros - seis clérigos de alto escalão indicados pelo Líder Supremo e seis juristas islâmicos -, o Conselho dos Guardiães é responsável por aplicar a lei islâmica da sharia e a Constituição iraniana. O Conselho também faz uma avaliação prévia dos pré-candidatos em eleições presidenciais. Neste momento, é este órgão que está mediando o conflito entre situação e oposição.

Além das instituições do regime, a população está bastante dividida politicamente. Por um lado, a população mais pobre apoia majoritariamente o presidente, em função de suas políticas sociais (favorecidas pela alta do petróleo, do qual o Irã é grande produtor, nos últimos anos) e de sua postura crítica em relação aos Estados Unidos. Por outro lado, a baixa recente do petróleo, com a redução de investimentos, a crise econômica mundial e a experiência da população com o governo Ahmadinejad, está alimentando a oposição. Muitos setores populares da capital Teerã, principalmente, mas ainda mais fortemente de setores da classe média e da burguesia iraniana estão engajados na luta contra o governo. 

Diante do aprofundamento da crise, o Irã vive hoje uma situação de agudização da luta de classes, e de disputas interburguesas que colocam a perigo não apenas a permanência do atual governo, mas a continuidade do próprio regime teocrático islâmico e das instituições que o sustentam.

Protestos massivos, com uma direção pró-imperialista

Nesse processo, começaram a haver diversos protestos, tanto em defesa da oposição de Mousavi, mais frequentes, como em defesa do presidente Ahmadinejad. Para garantir a aceitação do resultado da reeleição, as forças governistas mobilizaram, além da polícia, milicianos, que fazem o papel de vanguarda da repressão, atirando e espancando os manifestantes.

 

Internacionalmente, o imperialismo está aproveitando a revolta de setores da própria burguesia iraniana, apoiada por manifestações populares, e tenta acelerar a queda de Ahmadinejad. A União Europeia e os Estados Unidos têm condenado a repressão como modo de recuperar o controle do Irã, ao apoiar Mousavi e seu projeto mais favorável ao imperialismo e seus negócios na região.

Os EUA não têm relação com o Irã desde 1979, quando se deu a Revolução Islâmica, que derrubou o regime ditatorial e pró-imperialista existente. Este regime assassino e que não permitia nenhuma manifestação, oposição ou eleição, sempre foi apoiado e sustentado pelos EUA, o que prova a hipocrisia e falsidade das denúncias atuais desse país, diante da crise iraniana. Desde então, o novo regime islâmico surgido, dirigido pelo Aiatolá Ruhollah Khomeini, se baseou nas leis do alcorão, fundando uma “República Islâmica”. Khomeini foi substituído por Ali Khamenei em 1989, que segue sendo até o hoje o líder supremo do Irã.

E é tudo isso que está em jogo neste momento no Irã. O imperialismo joga suas fichas na possibilidade de, utilizando as insatisfações populares e a indignação com as fraudes eleitorais, voltar a dominar o país. De outro lado, o regime islâmico tem que aumentar os discursos contra os EUA como forma de ganhar prestígio com a maioria dos trabalhadores, que odeiam o imperialismo, mas já têm muitas críticas à situação atual.

No final das contas, Ahmadinejad e Mousavi estão juntos para recompor a “ordem” e atacar a população iraniana 

Sem dúvida, por trás dessas mobilizações não está somente a indignação com o processo eleitoral, e as acusações de fraude generalizada. É a crise econômica que serve de combustível para a insatisfação crescente no país. E, diante desse tema, situação e oposição têm o mesmo projeto, de manter os lucros do petróleo nas mãos de uma pequena parcela da população, ligada ao regime e formada por empresários islâmicos. Enquanto isso, a maioria da população sofre com salários baixos, serviços públicos insuficientes e repressão cultural, política, sexual e de liberdades civis e de organização.

Tanto Ahmadnejad quanto a oposição são espressões de uma mesma concepção burguesa e semicolonial para o Irã. Nenhum é capaz de representar ou aplicar qualquer medida efetiva em direção do desenvolvimento econômico do país, ou do fim da exploração. Por conta disso, nenhum dos dois setores fica tranquilo com a população na rua. Mesmo Mousavi, que hoje está chamando a população a ir às ruas, teme perder o controle das manifestações, que podem tomar outro rumo. 

Existe uma enorme disposição de luta por parte dos trabalhadores e da juventude do Irã, mas falta uma direção para toda essa revolta e indignação, que acaba sendo dirigida para recompor o regime. O que estas mortes e protestos no Irã estão comprovando é que é ainda mais necessário construir uma direção própria dos trabalhadores, que não se subordine a nenhum setor burguês iraniano e que possa combater o imperialismo às últimas consequências. Para isso, tem que surgir uma organização revolucionária, com um programa por um Irã laico, dos trabalhadores e socialista.

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