Islândia: um país arrasado pelo neoliberalismo
A Islândia é uma pequeníssima ilha no extremo norte da Europa, conhecida como “a terra do gelo”, pois é formada por uma superfície rochosa e coberta de gelo por muitos meses, num frio intenso. Sua população é de apenas 300 mil pessoas, menor que quase todas as capitais brasileiras e mesmo que a maioria de nossas cidades médias.
A Islândia não tem pecuária desenvolvida, não tem agricultura, não produz vinhos, nem extrai nenhuma matéria prima importante. Ela também não possui mercado interno quase nenhum, nem fábricas, montadoras de automóveis nem nada que signifique produção de qualquer bem, numa escala um pouco maior.
Assim, a economia do mini-país era bastante fraca, e completamente dependente da pesca e seus derivados, que respondem por quase 70% das exportações. A economia praticamente se resume ao mercado para produtos de origem marinha.
Ainda assim, apesar da baixa produção, a pequena população e a localização dentro da Europa, além da vizinhança relativamente rica, com proximidade com a Noruega, Suécia e Finlândia, a Islândia conseguia ser um lugar praticamente sem desemprego e com uma política baseada no “Estado de bem-estar social”.
Neste modelo, de exploração menos violenta, como ficou conhecido o capitalismo em certos países europeus do pós-2ª Guerra, havia muitas concessões sociais, feitas a fim de evitar o perigo de revoluções socialistas, numa Europa arrasada. Como resultado, taxas baixas de desigualdade social, seguros-desemprego de mais de 1 ano, salários bastante altos, direitos trabalhistas, saúde e edeucação de qualidade.
Mas o capitalismo não pode garantir concessões de modo duradouro em lugar nenhum, nem mesmo numa ilha remota e minúscula. Desse modo, o neoliberalismo chegou,e chegou com tudo à Islândia.
Praticamente do nada, o país virou um paraíso fiscal e se tornou sede de inúmeros bancos e empresas financeiras. Junto da montanha de dólares, euros elibras que afluíram para a Islândia nos primeiros tempos, veio a demissão,a precarização dos serviços e o aumento da desigualdade. Mas tudo ainda permanecia num nível semalhante ao de muitos países europeus,e bem longe do caos e superexploração sulamericanos, por exemplo.
O exemplo mais impressionante desta nova fase era o banco Landsbanki, da capital Reykjavík. O banco saiu das pequenas agências da cidade para megaoperações e instalações no centro comercial de Londres. As poupanças do Icesave, plano de captação de fundos do banco, foram um grande ralo de dinheiro formado pelo Landsbanki, que garantiam lucros altíssimos, que não tinham a menor sustentação.
A destruição da crise capitalista
O colapso do sistema financeiro internacional simplesmente derreteu bancos, fundos de investimentos, corretoras, seguradoras e muitas outras empresas e indústrias, num turbilhão que atingiu tanto o “especulador” como o “produtor”, conforme os reformistas falsamente dividem a burguesia. A economia da Islândia, que era uma enorme bolha, e recordista na artificialidade do crescimento recente do neoliberalismo, baseado em crédito farto e lucros fantásticos e irreais, explodiu!
Ainda tentando tapar o sol com uma peneira, o FMI concedeu um empréstimo de US$ 2,1 bilhões à Islândia, cujo governo se comprometeu a iniciar um programa de austeridade para estabilizar a taxa cambial, reestruturar os bancos e garantir a sustentabilidade fiscal. Mais US$ 3 bilhões foram emprestados por outros países. Era a tentativa de pagar dívidas com mais dívidas ainda. Nada deu certo.
A população perdeu todo seu investimento de um dia para outro. Empresas faliram, milhares de pessoas foram demitidas e o país quebrou. Os dados são implacáveis: antes menos de 1% da população não tinha emprego, e hoje são quase 10%! Diante disso, a pressão contra o governo se tornou insustentável e as massas o derrubaram, acabando com o mandato, formado por uma coalizão entre o Partido da Independência e o Partido Social-Democrata, que terminaria só em 2011.
No lugar do governo de direita de Geir Haarde, derrubado, mais nenhum partido ou liderança tradicional pôde assumir, pois além do governo, as massas repudiavam o modelo aplicado no país, que era defendido por quase todas as demais forças políticas. Junto com o governo que caiu, o regime democrático-burguês também balançou na Islândia.
A Frente Popular “à islandesa”
Primeiro país a depor o governo como resultado da crise, a Islândia corre o risco de ver o governo substituto ser derrubado também. Depois da Islândia, outros governos já caíram, o principal sendo o da República Tcheca, a “queridinha” do capitalismo no leste europeu. Mas foi na Islândia que a vassoura popular passou primeiro e mais forte, varrendo todos que via pela frente.
Diante da falência e desmoralização dos partidos tradicionais, Jóhanna Sigurðardóttir se tornou a primeira chefe de governo declaradamente homossexual da Islândia. Mesmo do Partido Social-Democrata, ela representa uma “novidade”,por ser mulher e lésbica. É nesta condição, de “alguém novo, de fora da política tradicional”, que ela assume e forma uma coalizão de “esquerda”,com traços de Frente Popular, para tentar acalmar as massas.
Lilja Mosesdottir, uma economista, e membro da bancada parlamentar do Partido Esquerda Verde, foi alçada como liderança do novo governo. Lilja, de pouca experiência política, assim como seu próprio partido, antes de oposição, passou a participar da situação este ano, quando o partido conservador foi deposto pela "revolução dos paneleiros", como ficou conhecida a luta insurrecional na Islândia.
Mas estes “esquerdistas no governo” já mostraram a que vieram. Segunda a portavoz dos Verdes:
"É como uma situação posterior a uma guerra, na qual nós somos os perdedores". E, diante deste diagnóstico que não distingue trabalhadores de patrões, defende a proposta de arrocho e mais empréstimos ao FMI e países imperialistas: "Essa é a maior de todas as tragédias, mas trata-se de algo que precisa ser feito".
O plano neoliberal levado adiante pelos que assumiram depois de um levante contra o governo neoliberal, mostra que no capitalismo eles são todos iguais e que não há como reformar o capitalismo. O papel das Frentes Populares é o de melhor agredir os trabalhadores, que têm ilusões em seus dirigentes. A proposta inclui o que são chamados de “agressivos cortes nos gastos com a saúde”, além de preços mais altos para o combustível, que a maioria da população irá arcar, e um novo empréstimo de US$ 5,7 bilhões.
A situação é tão humilhante que até o achincalhado FMI e seus especialistas voltaram a dar conselhos: "Quando a austeridade é imposta, é dolorosa e tem preço" e "serão obrigados a suportar o gosto amargo do remédio que precisam tomar." disse Simon Johnson, ex-diretor do fundo.
Apesar de o governo “esquerdista” da Islândia não expor com tamanha franqueza o seu ponto de vista, ele defende essencialmente os mesmos argumentos... Infelizmente, a luta exemplar dos islandeses ainda não alcançou seu objetivo. Os “paneleiros” terão que voltar e, dessa vez, derrubar o governo e junto dele o capitalismo inteiro, se quiserem ter sua vida e empregos de volta.
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