Morre Mercedes Sosa, a “voz da América Latina”
No último dia 4 desse mês, morreu a cantora argentina Mercedes Sosa. Aos 74 anos de idade, devido a uma doença hepática, complicada por problemas respiratórios, a cantora encerrou mais de cinquenta anos de carreira e uma obra musical de mais de setenta discos.
Causando comoção nacional e internacional, ela deixa um legado artístico muito importante para o mundo mas, especialmente, para os lutadores e rebeldes.
Vinda da província de Tucumán, noroeste da Argentina, começou a cantar aos quinze anos. De origem indígena e francesa, Mercedes Sosa era tratada pelos fãs por “La Negra”, devido a essa mestiçagem que não lhe conferia traços nada europeus. Sua origem “étnica” e social (família pobre trabalhadora das lavouras de cana-de-açúcar) parece ter sido fundamental para o conteúdo de suas músicas, e também para a identificação dos trabalhadores com suas mensagens.
Na década de 70, quando a ditadura militar se alastrava pela América Latina e assumia caráter especialmente sanguinário em sua terra-natal, Mercedes cantou músicas de contestação não apenas à ditadura e à violação dos direitos humanos, mas de simpatia ao comunismo e às organizações de esquerda. Mercedes, inclusive, foi filiada ao PC argentino, e perseguida pela ditadura.
Foi vítima da censura e presa em 1979, sendo libertada 18 horas depois -por pressão internacional-, mas tendo de fugir e ficar exilada na Europa, onde permaneceu até 1982, regressando à Argentina nos momentos finais da ditadura.
Com a queda dos regimes militares, sua obra passou a ser dedicada à denúncia das guerras e da pobreza.
Assim, ela, conhecida como “a voz da América Latina”, tentava expressar artisticamente a opressão e exploração sofrida pelos latinos, no que conquistou uma legião de fãs, e transmitiu um recado de luta ao povo latinoamericano.
A cantora não era uma revolucionária ou militante ativa da esquerda, e sim uma pessoa de origem pobre que, sentindo as mazelas do capitalismo no 3º mundo, cantou as suas dores, também compartilhadas por milhões de outras pessoas no continente. Apesar disso, Mercedes Sosa é a expressão de uma arte engajada, cada vez mais rara, e de uma pessoa que soube usar de seu prestígio para lutar, a seu modo e limitadamente, pela libertação dos países e pela emancipação dos trabalhadores.
Por tudo isso, sua contribuição fará falta, num mundo cada vez mais comercial, com a arte degradada e artistas alienados e distantes das necessidades da maioria da população.
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