Morre Kim Jong-il, e dinastia stalinista da Coreia do Norte se perpetua com seu filho, Kim Jong-un.
No poder desde 1994, Kim Jong-il, filho do líder stalinista Kim Il-Sung, que esteve à frente do país desde a instalação e um Estado operário deformado no país, morreu aos 69 anos de um infarto. Repetindo o caso até então inédito e bizarro, de transferência de poder de uma burocracia formalmente “operária” de forma hereditária, num caso “sui generis” de dinastia, a família Kim agora “entrona” sua 3ª geração.
O governo do país se sustenta num enorme poder das Forças Armadas (o 4º maior exército do mundo) e do que se converteu a antiga burocracia stalinista norte-coreana. Essa casta foi-se transformando numa burguesia, deixando de ser apenas um extrato privilegiado, parasitário e criminoso da classe operária para se transformar numa classe proprietária, burguesa, processo esse que já se concluiu na Rússia, China, Vietnã e Cuba.
Na isolada Coreia do Norte, apesar das forças produtivas serem muitíssimo menos desenvolvidas e, portanto, o peso do proletariado e de setores de massas ser muito insignificante, o capitalismo já controla o país. Um capitalismo com traços semifeudais, burocráticos e camponeses, mas que napesar da combinação destes atrasos, faz parte da economia capitalista, sendo hoje uma extensão comercial e política do capitalismo chinês.
É a China quem sustenta a Coreia do Norte, exportando comida, garantindo energia e todo o resto. E é a burguesia militarizada chinesa quem sustenta a dinastia exótica e reacionária norte-coreana. Kim Jong-un já foi declarado o "grande sucessor" e pediu união aos nortecoreanos. A emissora estatal KCNA, num espetáculo patético, mostrou imagens da população chorando nas ruas. Na verdade, é difícil distinguir o que é pura fraude para a TV e o que é resultado de vidas desesperadas, sempre à merçê da fome e submetidas a uma ditadura e a um culto à personalidade terríveis.
A morte de Kim Jong-Il despertou preocupação nos países capitalistas da órbita dos EUA na região. Tanto o imperialista Japão, como a semicolonial Coreia do Sul colocaram seus militares em estado de alerta, visto que a Coreia do Norte, além de milhões de soldados, possui mísseis de longo alcance que podem perfeitamente atingir esses países, além de armas nucleares!
No entanto, tais temores parecem infundados. Os interesses burgueses na Coreia são reflexos dos interesses da burguesia estatal chinesa, que por mais rusgas que tenha com a Coreia do Sul, Japão e EUA, já é completamente adaptada e dependente do imperialismo. Assim, a Coreia do Norte só sobrevive com sua relativa independência e autonomia militar porque convém à China, “ameaçar” seus aliados, chantageando-os e barganhando mais benefícios com o compromisso de “controlar a Coreia do Norte”.
Com diversas crises alimentares, estima-se que dois milhões de pessoas tenham morrido no país nos últimos anos, e o regime nortecoreano canalizou a maioria de seus recursos para os gastos militares. Kim Jong-un deve seguir refém desses interesses militares. Assim, a dinastia burocrática sobrevive pelo respaldo das armas, mas, em troca, governa quase que exclusivamente para as Forças Armadas.
Kim Jong-Un, de quem nem sequer a idade exata se conhece, foi educado na Suíça e é filho de uma das várias esposas de Kim Jong-il. Uma dinastia tão afetada, folclórica e ridícula como as demais casas reais decadentes que existiram na História, ou apenas decorativas como a maioria das que se mantêm ainda hoje. Extravagâncias que incluem sequestros de “cineastas” para produzir filmes para Kim Jong-Il e gastos nababescos para uma família considerada como “deuses”, sob a bandeira de “comunismo” são expressões da degradação moral, política e concreta de um país falido e sem futuro sob o capitalismo, seja em que forma for: sua forma despótica atual, ou uma forma liberal semicolonial futura.
O Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte, representante do modelo stalinista de “partido único” considerava os dois filhos mais velhos do antigo ditador como “playboys preguiçosos”, e qualquer movimento para rejeitar a família Kim e impor um governo militar que não fizesse parte da dinastia Kim poderia encerrar a legitimidade do próprio regime. Assim, o culto à personalidade típico do stalinismo atingiu um tal grau de deformação na Coreia do Norte, que toda a família é considerada infalível, genial e divina. Exército e “família real” são uma coisa só, e a destruição de um exigirá a destruição do outro.
Alguns analistas dizem que há sinais de que o novo déspota começou a substituir o pessoal militar mais antigo por uma nova geração de oficiais na casa dos 30 e 40 anos, num intuito de fazer com que essa nova geração “promovida” se constitua na base fiel de sustentação do poder da família Kim. No entanto, apesar deste caminho poder de fato ser implementado, é difícil que as concessões feitas num ano impeçam que camadas ainda mais arrivistas e pró-capitalistas que ascendem e ascenderão cada vez mais ao poder no país, deixem de poder conspirar contra o governo, num eventual colapso de sua liderança. Ao mesmo tempo, uma burguesia nativa norte-coreana cresce sem cessar, incluindo uma nova base social de comerciantes ricos e um influxo de produtos "Made in China".
De toda forma, a libertação dos norte-coreanos só poderá existir na hipótese de se derrubar a ditadura militar do país, incluindo aí todos seus dirigentes, construindo um poder popular, camponês, operário e dos soldados. Sem uma divisão profunda nas Forças Armadas, ainda mais pelo peso militar do país, tal saída não parece possível. É essa tarefa que é necessária desenvolver uma aliança de todos os explorados por uma Coreia do Norte dos trabalhadores.
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