A Nacionalização ronda a porta:
Banqueiros e o Banco Central americano discutem maior intervenção estatal na economia.
O “espectro” da nacionalização rondou a economia do imperialismo. Depois dos governos europeus terem necessitado estatizar parte de seus bancos e algumas empresas, a bola da vez parece ser os EUA. O governo Obama anunciou novas medidas de recapitalização de bancos pelo governo, que abre brechas para a estatização, em especial podendo atingir os gigantescos Bank of America e Citybank.
Diante disso, as bolsas no mundo inteiro despencaram: Londres cedia 0,36%, Frankfurt perdia 0,37%, Paris retrocedia 1,01%, Hong Kong encerrou a sessão em queda de 2,86% e Xangai desabou 4,56%. Em Tóquio, segundo maior mercado financeiro mundial, o índice Nikkei registrou baixa de 1,46%. Em Nova York, a bolsa teve uma de suas maiores quedas desde 1997, o índice industrial Dow Jones recuou 2,94%. Esses índices não são nenhuma novidade diante da crise que vive o mundo todo: é somente a comprovação de que o que vem fazendo a burguesia, como injetar dinheiro público em instituições privadas não é um fim em si mesmo, e não resolve a crise estrutural que atinge o capitalismo.
O que interessa mesmo, porém, é o que está por trás da queda das bolsas: a convicção, da própria burguesia imperialista, de que a economia saiu do controle e seus lucros em queda obrigam a medidas de estatização que, por um lado, salvam seus negócios, mas, por outro, a afastam do controle direto de ramos e frações importantes da propriedade capitalista.
Com a proposta defendida pelo Federal Reserve (Banco Central dos EUA), os bancos podem buscar recursos junto à iniciativa privada, e, caso não encontrem, o Estado irá garantir os investimentos necessários. Na prática o que tende a acontecer é justamente uma maior intervenção do Estado na economia, pois os recursos privados estão escassos, o que significará enormes quantias de dinheiro público indo salvar lucros dos banqueiros.
Tanto para a burguesia quanto para o governo e banco central é difícil ter que assumir essa postura, pois vai contra o que passaram anos defendendo, de que o Estado deveria intervir menos na economia. Cada vez mais, esse discurso liberal está indo por água abaixo, e o capitalismo se volta à intervenção estatal para se salvar de grandes desastres econômicos.
O medo da Nacionalização
Logo que as bolsas despencaram, Ben Bernanke (presidente do FED) saiu à imprensa para declarar que não haverá nenhuma espécie de nacionalização, que os banqueiros podem ficar tranqüilos que o Estado não tem o menor interesse em controlar a economia. Falou isso muito mais como forma de acalmar os ânimos do que como algo que de fato depende apenas da vontade do governo e dos banqueiros.
Essas declarações são dadas justamente num momento onde se especula que o Citigroup poderia pedir ao Governo que converta as ações preferenciais que o Departamento do Tesouro possui em papéis ordinários, fazendo com que o estado assumisse o controle de cerca de 40% das ações do banco. Isso mostra um pouco do desespero que vive a burguesia hoje, pois além de se desmoralizar ideologicamente, indo contra tudo que defenderam nos últimos anos, é a prova de que o capitalismo não tem mais condições de sobreviver sem atacar ainda mais a classe trabalhadora no resto do mundo, e ter que controlar sua própria burguesia.
Enquanto milhares de pessoas estão sofrendo as mais graves consequências da crise econômica, e se vêm completamente desamparadas pelo Estado, banqueiros contam com toda a estrutura estatal para não perderem suas fortunas. Temem a estatização justamente porque sabem que vão perder dinheiro com isso, ao não obterem mais, sozinhos, todo o lucro dos próximos anos; mas se vêem ao mesmo tempo em um beco sem saída, pois podem perder muito mais se não se tomarem tais medidas. Hoje a burguesia é obrigada a vender os anéis (e bem caro, com fortunas sendo pagas pelos governos), para salvar os dedos.
Os limites desse tipo de nacionalização
Um dos principais debates feitos ao longo da década de 90 foi justamente o papel do Estado na economia. Os defensores do neoliberalismo não pouparam esforços em fazer uma ampla campanha político e ideológica acerca dos benefícios de acabar com a intervenção. As consequências desse debate hoje podem ser vistas na prática. Mundialmente os governos tiraram do controle do Estado os principais ramos da economia, como a indústria, serviços, etc. O resultado dessa desregulação na economia permitiu que também se impusesse uma retirada histórica de direitos dos trabalhadores, cada vez mais o interesse do patrão prevalece ao dos trabalhadores.
O suspiro que pôde dar a burguesia na última década do século XX se deu por causa das privatizações e ataques à classe trabalhadora. Junto disso, diversos países no Leste Europeu se reintegravam à economia capitalista, além da China. Isso permitiu que, materialmente, a burguesia pudesse aumentar sua produção, com maior mercado consumidor e mão de obra mais barata, além de poder usar isso como exemplo uma suposta superioridade do capitalismo em relação ao socialismo. Mas esta vantagem burguesa acabou, e chegamos à superprodução atual, com a crise que abala o mundo inteiro.
Uma das principais bandeiras dos revolucionários é justamente uma maior intervenção do Estado na economia, com garantia de investimentos sociais. Todos os países que tiveram economias planificadas, chamadas de socialistas (ainda que débeis) tinham essa característica, do Estado como coordenador de tudo que se produz. Mas os verdadeiros revolucionários sempre entenderam que esse tipo de medida se torna inútil se o Estado não estiver sob a ótica dos trabalhadores. Para isso, o necessário é não só estatizar, mas principalmente arrancar a burguesia também do poder do Estado, para que ele esteja voltado para os interesses da maioria da população.
Esse tipo de nacionalização que se discute hoje, não é nem de perto o que devem defender os revolucionários e que interessa aos trabalhadores. Para nós, a medida em si é importante, pois demonstra que de fato o socialismo segue sendo uma necessidade histórica, e que a burguesia não é capaz ao menos de sustentar suas próprias teorias. Mas nunca podemos tirar conclusões das coisas de uma forma isolada: devemos saber qual o fim de qualquer tipo de medida.
No caso dessa maior intervenção estatal, ou uma possível nacionalização, feita pela burguesia, isso tem apenas o intuito de salvar os banqueiros, inclusive já se preparando para revender a parte estatizada mais adiante, reprivatizando tudo. No primeiro momento que puderem repassar o controle total de bancos e empresas para a mão da burguesia farão mais uma vez como foi feito ao longo da década de 90 inteira.
Pela estatização sem indenização de todos os bancos e empresas privadas!
Pela revolução e o socialismo!
É necessário que se estatizem todas os bancos e empresas privadas. Além disso, é necessário acabar com o próprio Estado burguês. O Estado não é neutro e muito menos existe para garantir a satisfação de todos. É o instrumento de coação de uma classe sobre a outra. A burguesia tem o poder e não desperdiça tempo em usar essa máquina para atacar a classe trabalhadora. É necessária a construção de um Estado operário, que sirva como um instrumento de coação também, mas dessa vez contra a burguesia e os patrões. Só assim é possível ter uma economia racionalizada para a necessidade de toda a classe operária e não ao lucro dos banqueiros e patrões.
VOLTAR
|