Publicado em 08/09/2009

Médici, Nixon e Pinochet. Ditadura brasileira e CIA tramaram golpe no Chile.

         Documentos revelados da CIA, após passarem por um período secretos, foram enfim publicados nos EUA. Este material comprova que o golpe militar com características fascistas, dado em 1973 por Augusto Pinochet, contra o então presidente do Chile, Salvador Allende, foi planejado 2 anos antes, já na eleição de Allende. A CIA, agência golpista dos Estados Unidos, do presidente Richard Nixon (depois deposto, por escândalos políticos que o levaram a renunciar) foi quem armou o golpe, mas o Brasil dos militares é que ficou com a tarefa de viabilizar sua execução, fazendo, como vizinho, o que os EUA teriam mais dificuldade em fazer. 

         O complô da ditadura brasileira, cujo general do momento era Emilio Garrastazú Médici, e o imperialismo mostra o grau de controle dos governos latinoamericanos pelos EUA. Além do Chile, as demais ditaduras do continente também haviam sido planejadas e eram apoiadas pelo imperialismo, algo que hoje não conseguiria ocorrer da mesma forma, dada a mudança da correlação de forças na luta de classes, com o aumento da força dos trabalhadores.

         De qualquer maneira, o caso deixa explícito o papel assassino e terrorista dos governos capitalistas, que passam por cima das leis que eles mesmos aprovaram, e conspiram contra suas próprias instituições, provando que a atual democracia é só uma fachada para esconder uma ditadura burguesa contra os trabalhadores, e que pode ser substituída pela força de golpes militares, caso se entenda que a situação política está saindo do controle, e que há condições de se dar um golpe.

         A colaboração da ditadura brasileira, como patrocinadora de um dos golpes mais violentos e criminoso da História também põe por terra as afirmações de grupos de direita como a Folha de São Paulo, jornal que caracterizou o governo militar brasileiro como "ditabranda" pois teria sido mais leve. Agora fica claro que além desse termo ser uma provocação e não ter nada a ver com a realidade de torturas, censura e assassinatos no Brasil, a ditadura brasileira também é cúmplice nas mortes de mais dezenas de milhares de ativistas pelo continente, como espécie de entreposto do imperialismo na região, coordenando os golpes vizinhos.

         Também fica desmoralizada a afirmação de que os militares são nacionalistas, ou defendem a "Pátria". Ficou explícito que os militares da ditadura brasileira eram capachos dos norteamericanos. Além de terem endividado o Brasil e o tornado muito mais dependente, os ditadores colocaram o Brasil de joelhos, humilhado como "leão de chácara" dos interesses dos EUA no continente.

         Há três memorandos de 1971 que exibem conversas pessoais entre Nixon e Médici na Casa Branca, nas que foram discutidos o papel que teria o Brasil na queda do Presidente chileno. Em um desses diálogos, Nixon perguntou se o Exército chileno tinha a capacidade para realizar a tarefa. Médici respondeu que “achava que sim” e que “Brasil estava trabalhando para esse objetivo”.

        Durante o encontro que aconteceu no Salão Oval, Nixon aprovou a intervenção do Brasil no Chile. O documento ilustra a situação: "O Presidente afirmou que era muito importante que Brasil e Estados Unidos trabalhassem juntos neste campo. Não podíamos tomar uma direção, no entanto, os brasileiros sentiam que havia algo que nós poderíamos fazer para ajudar em isto, ele (Nixon) gostaria que o Presidente Médici lhe comunicasse. Se precisava dinheiro ou outro tipo de ajuda discreta, poderíamos deixar a disposição. Isto seria feito com a maior discrição”.

        Na citada conversa, Nixon lhe disse a Médici que Estados Unidos e Brasil deviam  "evitar que houvesse novos Allende e novos Castro" na América Latina e, ao mesmo tempo, tentar "reverter esta tendência" onde fosse possível.

         Os documentos revelam que Nixon achava que uma relação especial com Brasil era muito importante, tanto que propôs a Médici que ambos estabelecessem um canal direto e secreto de comunicação "para contatar-se diretamente fora dos médios diplomáticos".

         O então presidente Médici, nomeou seu ministro de Relações Exteriores e assessor privado, Gibson Barbosa, como seu representante nesse canal, mas disse a Nixon que em caso de que tiver de tratar "assuntos particularmente privados e delicados, Brasil utilizaria o coronel Manso Netto. Por sua vez, Nixon nomeou a Kissinger como seu representante.

         Outro memorando da CIA afirma que Médici pediu ao Presidente norte-americano que trabalhassem juntos para combater a "expansão esquerdista marxista" e Nixon prometeu assistência norte-americana "onde e quando for possível". A análise feita pela CIA em 1972 dizia que o Brasil ia ter uma função cada vez mais importante nos assuntos hemisféricos "preenchendo qualquer vazio que os Estados Unidos pudessem deixar", e acrescenta que, o Brasil "não duvidaria" em realizar ações encobertas para "opor-se a governos de esquerda; manter governos amigos no poder ou ajudá-los a se instalar em países como Bolívia e Uruguai".

Lula acoberta a ditadura

              A divulgação de documentos antes tidos como secretos nos EUA gera ainda mais constrangimento ao governo Lula. Por um lado, porque o presidente já elogiou publicamente os ditadores militares, ao atribuir virtudes econômicas ou "democráticas" a alguns e seus representantes. Por outro, o pior: Lula esconde os arquivos do tempo da ditadura. Até hoje, passados 7 anos de governo, Lula não abriu os arquivos que falam da chacina à guerrilha do Araguaia. A situação é tão revoltante, que até militares da época, como o major Curió, famoso por ser um assassino frio e arrogante, já deram entrevistas, muito à vontade, se vangloriando das mortes a queima-roupa no Araguaia. Até mesmo o período absurdo de censura à divulgação dos arquivos, imposto pela lei brasileira, já venceu, mas Lula renovou este acobertamento e segue protegendo os militares, até que todos tenham morrido de velhice, no conforto e na glória que a imprensa e os traidores do PT lhes atribuem ou deixam que desfrutem.

             O investigador Peter Kornbluh, encarregado do Nacional Security Archive (Arquivo de Segurança Nacional, NSA em inglês), dos EUA disse que o "Chile poderia solicitar formalmente ao Presidente Lula que abrisse os arquivos militares do Brasil para esclarecer o que aconteceu". Peter Kornbluh é diretor dos Projetos de Documentação do Chile e Brasil do NSA, uma agência não governamental baseada em Washington DC que lidera a campanha para desclassificar (autorizar como divulgação pública) documentos ainda secretos da CIA em relação com a intervenção de Estados Unidos na América do Sul.

             É preciso não apenas que os trabalhadores exijam imediatamente que o governo revele o que de fato a ditadura fez para desenvolver golpes na América Latina, como que abra os documentos que mostram os crimes cometidos no Brasil. Há um processo de queima de arquivos e esquecimento deliberado da memória sobre o golpe, e Lula faz parte disso. Todos os documentos secretos devem ser tornados públicos imediatamente e todos os colaboradores da ditadura devem ser presos e justiçados, a começar pelos que seguem nos palácios do governo Lula, decidindo os rumos do país. O povo que sofreu com todos seus ataques merece isso.

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