Após ser desalojado, movimento "Ocupe Wall Street" tem desafio nos Estados Unidos
Após quase dois meses de ocupação, os manifestantes do "Ocupe Wall Street" foram retirados à força do Zuccotti Park, praça que ocupavam ao lado do centro financeiro de Nova York. O movimento serviu de inspiração para ativistas em diversas cidades do mundo. Não por acaso, dezenas de outras cidades dos EUA seguiram o exemplo da escalada repressiva autoritária de Nova York e também baniram seus acampamentos.
Agora, 20 dias depois, é necessário discutir o que vai acontecer com o movimento. Para onde irá o “occupy”? E não estamos falando apenas geograficamente, após serem expulsos dos parques; mas sim politicamente. O que será feito deste movimento que até agora foi extremamente dinâmico e cumpriu um papel tão importante?
A “democracia da América” é uma ditadura de classes furiosa e autoritária
Os policiais de Nova York, cidade presidida pelo magnata das telecomunicações Michael Bloomberg, que posa como um “republicano liberal”, começaram a retirar manifestantes na madrugada do dia 15 de novembro, depois de cercear todas as liberdades democráticas possíveis dos manifestantes, mas não ter como impedi-los de se reunir e ficar num parque público.
Segundo o prefeito Michael Bloomberg, a ação policial ocorreu durante a madrugada para diminuir o risco de confrontos. Sabemos que não foi isso, pois o confronto existiu de toda forma e mais de 200 pessoas foram detidas. A razão para uma ação sorrateira e truculenta dessas foi o pânico que os acampamentos e as mobilizações crescentes vinham tendo e a tentativa de reprimir os manifestantes “no escuro”, sem divulgação.
Tanto é que ao menos quatro jornalistas que cobriam o despejo foram detidos, e nem veículos prestigiados escaparam da censura e repressão para não poderem cobrir a ação bonapartista e de criminalização total dos protestos. Relato de repórter do "Wall Street Journal" aponta que os profissionais foram algemados. Até o final da tarde de ontem, a polícia não forneceu balanço da operação, pois dizia que a ação "ainda estava em curso".
Evidentemente, esta ação típica de ditaduras, de impedir a livre manifestação e a reunião pacífica de pessoas em lugares públicos, combinada à coerção da liberdade de imprensa, não ocorreu por acaso.
A justificativa do prefeito Bloomberg é um monumento de tão vergonhosa. Ele afirmou que a desocupação ocorreu a pedido da Brookfield's, proprietária do parque, para que a área pudesse ser limpa. Sendo que o parque é público! A empresa apenas o administra, no que é uma privatização de espaços absurda, mas que agora deu um salto de qualidade, ao o governo bater, prender e cassar liberdades civis para supostamente defender uma empresa, que sequer proprietária é. É pior que defender a propriedade privada a todo custo; é defender a propriedade pública somente para os privados a qualquer custo. No fundo, porém, não era isto que estava em jogo.
A empresa foi só o álibi do governo para desalojar aqueles que, mesmo inconscientemente, desafiaram o capitalismo como um todo.
Bloomberg disse ainda: "Desde o início, disse que a cidade tinha dois objetivos: garantir a saúde e a segurança públicas e garantir os direitos dos manifestantes [...]. Quando as metas entram em choque, saúde e segurança do público devem ser prioridade.". Há algumas semanas, a polícia já havia confiscado geradores usados pelos manifestantes. Segundo os agentes, havia risco de incêndio.
Ou seja, a desculpa é o que menos importa. É a higiene, a segurança pública, o direito à propriedade, etc. Desculpas usadas segundo a conveniência para impedir o que apenas as ditaduras podem abertamente proibir: a liberdade básica de expressão. O desalojamento dos manifestantes de NY não por acaso foi seguido de dezenas de outros em muitas outras cidades dos EUA, governadas tanto por republicanos como por democratas. Foi o imperialismo quem reagiu, desde Obama a cada prefeito de cidade, grande ou pequena, à possibilidade de generalização de um forte movimento dos trabalhadores nos Estados Unidos.
Mais uma vez ficou escancarado o limite tênue entre a democracia burguesa e os regimes totalitários dentro do capitalismo. O mesmo que a China faz e é criticada cínica e hipocritamente pelos EUA e Inglaterra, como censurar o facebook ou impedir manifestações, estes mesmos países fizeram e seguem fazendo para responder aos movimentos que os contestam internamente, como se viu em Londres e agora se vê em Nova York, ambos lugares com centenas de presos.
É necessária uma saída pela positiva. Por uma direção revolucionária.
O que criticar e combater, a maioria já tem claro: o 1% dos mais ricos, o sistema, os “políticos”. Mas tudo isso é muito genérico e os 99% representados pelos protestos terão que polemizar e infelizmente, se dividir para afunilar e concretizar alguma proposta. A única forma de manter-se simpáticos a todos, incluindo atores de Hollywood é manter as ideias políticas vagas e inócuas, como, compreensivelmente, elas surgiram.
Contudo, após a experiência de 3 meses de luta, e do sucesso da adesão na luta contra o sistema, mas, ao mesmo tempo, da reação deste mesmo sistema mostrando sua verdadeira face ditatorial, é preciso extrair lições e apostar no avanço do movimento.
Em primeiro lugar, é preciso construir um programa e coordenar este programa e estes objetivos gerais estratégicos com ações diretas práticas, o que o movimento já vem fazendo bem. Mas, sem programa, tais ações, por mais criativas e inovadoras que sejam cairão no desgaste do beco sem saída de não ter proposta nenhuma. Este programa não deve surgir do nada, e sim das reivindicações dos próprios manifestantes e que unificam a maioria da população norteamericana.
São a garantia de emprego, o aumento geral de salários; o aumento generalizado e a cobertura universal, pública, gratuita e de qualidade dos serviços públicos de saúde, educação, previdência, etc.; a anistia das dívidas contraídas com bancos e construtoras; o fim dos gastos militares e política de intervenção externa; etc.
Estas bandeiras devem ser o eixo de luta contra o governo Obama e seus adversários táticos, mas aliados estratégicos do Partido Republicano e Tea Party. Todos eles são inimigos e devem ser enfrentados nas ruas, com a inclusão de sindicatos, movimentos de defesa dos direitos dos negros, das mulheres, dos hispânicos, etc. Estes setores organizados devem se somar e ser parte dos indignados, mas o mais importante é manter o caráter de base do movimento, contra as infiltrações de provocadores e agentes sabotadores que certamente as agências do governo farão, e contra a cooptação do movimento por parte do próprio sistema.
Esta alternativa já é defendida por parte do movimento, que deseja virar uma “ala esquerda” do Partido Democrata, de Obama. Tal medida seria um desastre e destruiria tudo que o movimento já fez, ao construir uma luta e ações de forma independente e combativa. A saída, porém, não é ficar à deriva, sem organização alguma.
Só é possível enfrentar o capitalismo, mesmo numa medida mínima como poder ficar reunido num parque público, se houver uma organização política disso, e é esta organização, revolucionária, independente, da classe trabalhadora e de base que precisa ser formada de forma imediata nos Estados Unidos. As condições objetivas para isso não apenas já estão maduras como começam a apodrecer.
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