Conflitos no campo: no Paraguai, trabalhadores sem-terra aumentam ocupações e latifundiários fazem tratoraço
A União de Grêmios da Produção (UGP), organização que representa os latifundiários no Paraguai, organizou uma manifestação contra as "ameaças" de grupos sem-terra do país. Essa iniciativa da patronal latifundiária acontece como resposta a um acirramento da luta pela reforma agrária no Paraguai, depois que um grupo armado de trabalhadores sem-terra invadiu nesta semana um sítio do departamento de Concepción (norte do país) e seu chefe, Casildo López, ameaçou não abandonar este tipo de ato até que o governo lhes ceda 10 mil hectares de terras, "para repartir entre os pobres", segundo a reivindicação.
Outro grupo anunciado como de sem-terra incendiou um depósito da fazenda do brasileiro Hildo Da Veiga, no departamento de Caazapá, na região centro-sul, e destruiu tratores, maquinarias e equipes de lavoura no suposto valor de US$ 400 mil.
Essa situação acontece cem dias após a posse de Fernando Lugo, que prometeu fazer a reforma agrária, combater os latifundiários brasileiros e mudar a cara do país. O presidente foi eleito como a expressão distorcida de uma necessidade e disposição de luta das massas no Paraguai. Nas eleições derrotou dois candidatos do Partido Colorado, que governou o país por mais de 109 anos, em apenas um século e meio
Entre as muitas promessas de campanha, e das esperanças e ilusões depositadas em seu governo, uma das que mais garantiu votos a Lugo foi a de realizar a reforma agrária. No entanto, até agora nada foi feito.
Há um mês criou a Coordenadoria Executiva para a Reforma Agrária. Junto com essa coordenadoria, Lugo lançou discursos que a reforma agrária será feita sem tocar na propriedade privada, ou seja, sem tocar nos latifúndios. Esse discurso vago, mas já suficientemente conservador, serve para desmobilizar as lutas no campo.
A direção do MST paraguaio, que equivocadamente alimentou expectativas em Lugo, e lhe deu apoio até agora, ajuda o governo a enganar e atacar os trabalhadores sem-terra. O MST aceitou uma trégua com o governo antes da posse e em seus primeiros meses. Isso é um crime! A reforma agrária só vai avançar no Paraguai se atropelar a lei dos latifundiários, as instituições burguesas e o próprio governo Lugo.
Agora, diante da falta de qualquer iniciativa de Lugo para resolver o problema, a direção dos sem-terra tem sido obrigada a radicalizar algumas de suas ações, interrompendo a “trégua”. No entanto, segue sem apostar na luta contra Lugo e seu plano de sustentação dos empresários rurais. Essa capitulação política cobra seu preço, e os fazendeiros já estão se reorganizando.
Ou se destrói o latifúndio, ou virá a reação
Pelo seu caráter, de governo de Frente Popular, Fernando Lugo, ao mesmo tempo que governa diretamente para a burguesia e para os latifundiários, sofre uma pressão por parte dos movimentos sociais que ocupam terras, como única forma de enfrentar os latifundiários. O argumento da UGP, ao iniciar seu movimento patronal de tratoraço, é o de conter as "ameaças" dos sem-terra, e afirmam que por culpa dos sem-terra a produtividade vem caindo diante da "incerteza" causada pelos conflitos.
Na verdade, o que fazem a UGP e os latifundiários é esboçar uma resposta diante do movimento que cresce e ameaça a estrutura fundiária no Paraguai, baseada em grandes propriedades, com a produção sendo exportada, e na mão de estrangeiros ou suas famílias, em geral brasileiros, que ocupam terras irregulares, roubadas pela ditadura de Strossner ou compradas a preço de banana de trabalhadores falidos.
A UGP pressiona o governo para que cumpra com os compromissos da classe que representa: a burguesia. Esse tratoraço é uma manifestação reacionária, que serve para dar mais forças para que o governo siga enrolando os sem-terra, pois agora a culpa seria do latifúndio em impedir a reforma agrária.
Lugo é aliado dos latifundiários, pois em vez de expropriar terras e colocá-las nas mãos de camponeses pobres, o que faz é criar uma Coordenaria Executiva como forma de tentar manobrar o movimento. É isso que querem os latifundiários: que o governo engane os sem-terra e, principalmente, que não toque, e não deixe o movimento sem-terra tocar na suas propriedades!
Essa é a reforma agrária que defende Lugo: uma reforma quase inexistente, que não mude nada de concreto, pague indenizações milionárias, e preserve o controle sobre a ação dos trabalhadores.
A resposta dos sem-terra no Paraguai deve ser duas vezes mais forte que a dos latifundiários, pois o que está em jogo nessa situação é a possibilidade ou não de travar uma luta conseqüente contra o latifúndio no país.
Essa luta dependerá de que se ampliem as manifestações e ocupações de terra. Os trabalhadores da cidade e do campo não podem ter nenhuma ilusão em Fernando Lugo, e é preciso romper definitivamente com o governo.
A tarefa que está colocada para os trabalhadores, que resolva de fato a situação no campo, é uma ampla e radical reforma agrária, que tire as terras das mãos dos latifundiários e as coloque na mão da maioria, os camponeses pobres, expropriando o latifúndio, sem indenização. Deve-se acelerar e generalizar as ocupações de terras, e exigir a aplicação do orçamento a serviço dos trabalhadores, com crédito, máquinas, sementes e adubos para os assentados.
Esta tarefa deve estar combinada também com a expropriação da burguesia da cidade. Isso só será possível com a ampliação das ocupações de terra no campo, da radicalização da luta nas cidades e de uma revolução socialista que coloque os trabalhadores no controle do estado através de seus próprios organismos de luta.