Brasileira é, sim, vítima de xenofobia na Suíça
Ferida com golpes de estilete na Suíça, vítima é ameaçada de prisão e deportação
Um escândalo chocou e segue dando assunto no Brasil e no noticiário internacional: a brasileira Paula Oliveira alegou ter sofrido um atentado na Suíça, e, como consequência, ficou com marcas de estilete no corpo todo, inclusive algumas com a sigla do partido de direita e posições pró-nazistas, SVP. Para aumentar a polêmica, Paula havia alegado que estaria grávida. Ambas as afirmações, da gravidez e do ataque, segundo a polícia suíça, são mentiras de Paula.
Desde que ocorreu o fato até hoje, o caso está tomando um caminho cada vez mais confuso. A princípio, os acusados pela agressão seriam de um grupo neonazista, que teria praticado o atentado logo após descobrir que Paula era brasileira. Depois, a polícia alegou que a própria vítima provocou seus ferimentos, no intuito de tirar algum proveito da situação. A família revelou que Paula sofria de Lúpus, uma patologia que pode provocar alucinações, o que já foi comprovado, pelo exame do histórico médico da brasileira.
A polícia suíça é a verdadeira mentirosa, além de cúmplice do neonazismo
Sem dúvida, todos esses fatos acabam dando um ar muito mais misterioso a este caso. Todas estas circunstâncias têm feito o caso ser tratado unicamente pelo aspecto de se Paula mentiu ou não. Isso, neste caso, deveria ser o menos importante.
Se Paula "mentiu", isso pode ter ocorrido involuntariamente, em função da confusão psíquica, decorrente da doença de Paula. Neste caso, não seria mentira nenhuma, pois não haveria esta intenção. Teria sido uma denúncia falsa, mas sem qualquer culpa, o que faz com que seja absurdo se pensar em punição. De outro lado, digamos que a imigrante brasileira tivesse mentido de propósito. Ainda que denunciar um crime inexistente seja equivocado, o que isso tem de imperdoável e de terrível?
Na verdade, ninguém inventa uma história que não tenha alguma base na realidade. Alguém que quisesse inventar ter sido agredido no Brasil, por exemplo, poderia dizer que foi vítima da polícia. Por quê? Porque a polícia espanca inocentes todo dia. Num caso isolado, isso poderia ter sido inventado, mas a própria mentira teria sido feita com esta versão, porque ela é verdade em outras centenas de casos. Paula, se mentiu, não poderia dizer ter sido agredida por traficantes, por exemplo. Nem por hooligans, ou outras versões que soariam ridículas, desde o início. Por que, se inventou, ela responsabilizou neonazistas? Porque são comuns práticas xenófobas, racistas e neonazistas na Suíça! É isso que a imprensa não quer discutir e se tenta esconder.
A polícia suíça é mentirosa e autoritária, como todas as outras. Mesmo internada, Paula foi importunada e coagida a depor, de maneira ilegal e ameaçadora. Esta polícia é a mesma que sabe muito bem que existem nazistas no país, e não faz nada a respeito.
A polícia só está repetindo o que fazem outras polícias mundo afora, e age parecido com outro caso também na Europa, o episódio do assassinato do brasileiro Jean Charles de Menezes, morto a tiros pela polícia da Inglaterra. A polícia inventou mil e uma histórias, dizendo que ele seria suspeito de terrorismo, que teria reagido, que correu quando foi abordado, etc. A verdade só veio à tona depois que apareceram vídeos, que mostram claramente que a polícia atacou de forma covarde e sem qualquer chance de reação a Jean Charles, executando ele com muitos tiros à queima roupa, sem que houvesse nenhum sentido.
Jean foi morto por ser imigrante. Era suspeito por isso. Foi um crime de xenofobia, o mesmo que Paula está sofrendo. As instituições do Estado capitalista, incluindo as dos países ricos, têm cada vez menos moral e confiança, pois fica mais claro que estão a serviço das propriedades dos ricos e de garantir, na marra, a ideologia da burguesia.
O neonazismo existe e precisa ser combatido. Liberdade, direito à permanência e privacidade a Paula
Não se pode esperar grandes resoluções do caso da brasileira na Suíça. Imprensa, polícia e governos fazem questão de tornar o caso ainda mais confuso, para que todos os caminhos levem a culpar quem antes era vítima.
A realidade é que a Suíça, que se tem como exemplo de desenvolvimento, baixa pobreza e melhor qualidade de vida, também tem um forte movimento neonazista, expresso em instituições importantes e partidos políticos, como o SVP, que é integrante até mesmo do governo!
Não é de hoje que se tem notícias que seguem existindo grupos que se organizam para seguir disseminando a ideologia nazista, que condena todos que não correspondam a um determinada “raça”, buscando assim dizimar todos que são “impuros”, como os grandes males da sociedade. Esse tipo de ideologia já demonstrou historicamente seu papel, através dos campos de concentração feitos por Hitler, por exemplo, onde milhões de judeus, principalmente, e outros setores, foram mortos através dos métodos mais cruéis possíveis. Enquanto isso acontecia a partir da Alemanha, a vizinha Suíça, que fingia ser neutra, era cúmplice e auxiliava o projeto nazista na Europa.
Hoje em dia, o nazismo não é mais centralmente contra judeus, mas sim imigrantes pobres em geral. É sabida a política de perseguição advinda dos próprios governos e polícias em relação a todos imigrantes. Nos EUA, se chegou ao cúmulo de se levantar um muro (chamado de muro da vergonha), na fronteira com o México. Ou seja, cada vez mais se vive um duplo perigo ao ir morar em outros países, principalmente se são imperialistas. Corre-se o risco de ser atacado por grupos doentes como neonazistas, e, por outro lado, pela perseguição da polícia.
A possibilidade de que Paula seja deportada é uma agressão maior que a denúncia de ataque com estiletes, que ela tinha feito. Expulsar alguém que ficou todo este tempo no país trabalhando e sendo explorada, tendo que conviver com o medo e o preconceito, por estar doente, ou, na pior das hipóteses, ter mentido, é uma desculpa para levar adiante uma prática xenófoba e fascistóide.
O SVP suíço, a polícia e todos que tentam punir Paula, ou estão questionando sua permanência na Suíça acabam defendendo os atentados racistas, á medida que questionam a liberdade de um imigrante permanecer em outro país.
O imperialismo age dessa forma, pois é o jeito que tem de controlar sua força de trabalho, bem como conter as convulsões sociais que possam ocorrer, devido à existência de muitos imigrantes num só país. Por isso, além usar a polícia de uma forma truculenta, não faz o menor esforço em conter os grupos paramilitares, como os neonazistas, pois são apenas uma variante da ideologia imperialista.
Os trabalhadores e a juventude devem repudiar esse ato de violência que seria punir Paula. Além disso, deve-se exigir que todos tenham o direito de viver no lugar onde bem entenderem sem sofrer retaliações jurídicas, ideológicas, físicas e psicológicas.
Isso só será possível numa luta contra o capitalismo, o Estado e todas suas instituições a serviço dos ricos e corruptos. Para que mais casos como este, seja os atentados em sí, ou a perseguição a imigrantes, não aconteçam mais, é necessário construir outro tipo de sociedade, controlada pelos trabalhadores, socialista e livre de preconceitos e ódios étnicos, raciais e nacionais.
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