Peru no meio de um processo revolucionário. Massacre contra trabalhadores pode já ter matado 100! Com indígenas à frente, os explorados resistem e enfrentam governo.
Depois de revoluções populares, que derrubaram presidentes e em que os trabalhadores estiveram perto de tomar o poder, só sendo derrotados em seu objetivo maior em decorrência da ausência de uma direção revolucionária, a luta de classes volta a abrir uma crise revolucionária na América do Sul.
Depois da Bolívia (por 3 vezes), Argentina, Venezuela, Equador e muitas lutas e ascenso em vários outros países, agora é a vez do Peru expressar o choque irreconciliável de interesses entre as comunidades nativas, como indígenas, os trabalhadores, os estudantes e o conjunto de explorados, de um lado; e os políticos, os burocratas sindicais, os juízes, a imprensa, o exército, os empresários e o imperialismo do outro.
Hoje, como dizia Lênin, a guerra civil oculta se transformou em guerra civil aberta no Peru. Tudo explodiu diante de mais um ataque ao povo do país, dessa vez a um dos bens mais essenciais à própria vida, que é a água. Estão envolvidos, na luta, os acessos e o direito à saúde, à soberania e à defesa da natureza, do emprego e da sobrevivência de milhões de pessoas.
Luta para não virar uma colônia
A jornada de lutas do povo trabalhador peruano, em especial dos indígenas amazônicos, ocorre pelo menos desde 9 de abril deste ano, e seu eixo de protesto iniciou contra nove decretos que privatizam a selva, e que foram ditados como parte dos requisitos de um Tratado de Livre Comércio (TLC) com os Estados Unidos.
Os decretos de privatização e colonização do Peru partem do presidente Alan Garcia e de sua amplamente majoritária coalizão no Congresso, que inclui até os aliados do neoliberal ex-presidente Alberto Fujimori, que massacrou lutadores, sindicalistas e camponeses, fechou o Congresso, privatizou o patrimônio público e depois fugiu do país ao ser condenado por corrupção. As leis de Garcia permitem a venda e a comercialização de terras ricas em petróleo e gás na selva Amazônica peruana e foram aprovadas pelo Congresso como parte de uma adequação da legislação peruana ao Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos, que entrou em vigor em fevereiro.
Os TLCs são uma tática “no varejo” do que Bush e os EUA queriam impor a toda a América Latina “no atacado” com a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas). Tantos a ALCA, que devido às lutas na América Latina foi provisoriamente derrotada, como os TLC, que foram impostos também a países centroamericanos e ao Equador, por exemplo, significam o saque das reservas naturais e da riqueza, a destruição de direitos trabalhistas e a submissão ainda mais completa de todas as instituições nacionais dos países aos Estados Unidos. No Equador, a situação foi tão longe, que os EUA implantaram uma base militar no país e até mesmo a moeda local (o sucre) desapareceu, e foi substituída pelo dólar americano.
Repetindo a velha tática, conhecida também no Brasil, de vincular a defesa da Amazônia e dos direitos indígenas a supostos interesses estrangeiros, o presidente Alan García acusou os indígenas de estar a serviço e ter colaboração de grupos internacionais. É uma afirmação cínica e ridícula, pois é ele quem assassina o povo a mando dos empresários e petrolíferas imperialistas, que, aliás, estão comemorando o massacre.
Contra o massacre fascista, a reação revolucionária
Contra o conjunto de ataques promovidos pela burguesia e governo peruanos, os manifestantes bloqueavam a estrada que dá acesso à região de Baguá há 10 dias, como parte dos protestos iniciados há quase dois meses. As comunidades indígenas e os moradores locais exigiam como ponto principal de suas reivindicações o cancelamento dos decretos contrários aos direitos dos povos nativos sobre a terra, e que permitiriam a exploração indiscriminada dos recursos naturais da Amazônia, em especial os grupos internacionais.
A luta assumiu maiores proporções e adquiriu a forma de uma greve generalizada, localizada nos departamentos de Amazonas, Cuzco, Loreto, San Martín e Ucayali.
Em defesa do cumprimento das ordens do imperialismo, Alan Garcia mobilizou pelo menos 600 policiais, que iniciaram o despejo do bloqueio da estrada de acesso a Baguá, utilizando bombas, helicópteros, de onde se metralhavam os manifestantes, e de execuções a sangue-frio.
Militares e policiais, depois de matarem cerca de 100 pessoas, num enorme massacre fascista, agora impedem o acesso à zona dos enfrentamentos, inclusive de jornalistas, para esconder os cadáveres, muitos dos quais estão atirando no Rio Marañón, esperando que nunca mais sejam encontrados.
Após o maior massacre, o governo peruano, através do exército, impôs o toque de recolher nas províncias de Baguá e Utcubamba, no estado Amazonas. Assim, a repressão contra os nativos locais, mas também contra os trabalhadores de todo o país, ganhou contornos ainda mais ditatoriais. Garcia tenta dois objetivos com o toque de recolher: um deles é o isolamento e a derrota da crise revolucionária na selva amazônica, onde o Estado burguês já manda muito pouco e está na corda bamba; o outro objetivo é, pelo exemplo dos massacres, impedir que os trabalhadores dos grandes centros urbanos se solidarizem com a luta indígena e popular, e derrubem seu governo.
Ao redor de 47 pessoas foram divulgadas como mortas depois dos primeiros confrontos, e outras 93 ficaram feridas na Amazônia peruana. Mas estes números logo ficaram defasados e já se fala em mais de 100 mortos, embora tudo esteja obscuro diante do isolamento da área feito pelo governo.
Após a sangrenta repressão, a resposta está sendo dada. Uma gigantesca marcha em Lima e uma série de paralisações e mobilizações similares no interior do Peru estão expressando solidariedade com a luta dos nativos amazônicos e a condenação à política e ao governo peruanos.
A demonstração em Lima unificou trabalhadores, estudantes e setores populares, num conteúdo que ultrapassou a condenação democrática dos assassinatos, e avançou para a denúncia e combate ao presidente Alan García.
A marcha, porém, foi contida umas quadras antes de chegar ao Congresso, por um forte contingente policial, que lançou gás lacrimogêneo e atacou os manifestantes. Alguns estudantes que estavam na manifestação, como resposta, lançaram bombas de gasolina contra os policiais.
Também houve marchas e protestos nas cidades de Iquitos, Pucallpa, Yurimaguas, Moyobamba e Puerto Maldonado, todas na região amazônica. Em Puerto maldonado, inclusive, foi realizada uma greve geral de 48 horas. Em Puno, na fronteira com a Bolívia, a paralisação foi total, incluindo bloqueios de ruas e acessos a estradas próximas. Ainda houve manifestações e atos em cidades do norte do Peru, como Chiclayo, Chimbote e Huaraz, assim como algumas do Sul, como Arequipa, Moquegua e Tacna.
Todas estas demonstrações de lutas dos trabalhadores mostra que o repúdio à privatização da Amazônia e da água ultrapassou os limites indígenas. Hoje a luta se multiplicou por todo o país e se converteu numa luta contra o próprio governo Garcia e seu projeto pró-imperialista. Uma das respostas a essa luta é que 2 dos 9 decretos contra os quais se está lutando já foram suspensos. Agora as reivindicações também exigem a renúncia do gabinete ministerial, uma investigação sobre as mortes recentes e o número de vítimas e estão se enfrentando diretamente contra o governo.
Falta uma direção revolucionária que corresponda à base revolucionária no Peru
Entre as organizações que estão dirigindo as manifestações, estão a Associação Inter-étnica da Selva Peruana (Aidesep), a Confederação Geral (CGTP) e a Central Unitária dos Trabalhadores (CUT), assim como as confederações Nacional Agrária e Camponesa do Peru. A CGTP, a de mais massiva presença condenou a matança, mas não é capaz de ir mais adiante e chamar a derrubada de Alan Garcia. Disse a CGTP: "Responsabilizamos o governo por esses fatos que, longe de solucionar as demandas dos povos amazônicos, responde com violência contra a população indefesa". A central sindical, ao mesmo tempo, exigiu que o Congresso anule os decretos e que se inicie um diálogo sobre as questões indígenas.
Enquanto isso, o dirigente da Associação Inter-étnica de Desenvolvimento da Amazônia (Aidesep), Sapión Nonengo, denunciou que o governo peruano "distorce a opinião pública nacional e internacional". Essa denúncia expressa a preocupação em relatar os fatos e não deixar que a morte de dezenas de trabalhadores seja manchada. Isso é muito importante, mas não basta. O que é necessário para honrar os mortos é a transformação da luta numa verdadeira guerra contra a burguesia peruana e imperialista.
Muitas dessas organizações não podem ir adiante da crítica ao massacre, porque estão comprometidas com a defesa do regime democrático-burguês e do capitalismo. Estas entidades não lutam pelo fim da propriedade privada das grandes terras, fábricas e bancos do país. Sua luta é contra o despotismo, o entreguismo nacional e outros “desvios” do neoliberal Alan Garcia. Estas organizações, dessa forma, ao criticarem a violência capitalista, mas defenderem o capitalismo em si, não conseguem representar nenhuma alternativa.
A estratégia desses setores é a atuação parlamentar e mudança eleitoral. Por isso, parte de seu movimento está a serviço da construção do projeto reformista em torno do ex-candidato a presidente, Ollanta Humala, apoiado por Hugo Chávez e derrotado nas últimas eleições por Garcia.
Disse Humala, dirigente do Partido Nacionalista: "O governo preferiu a matança de indígenas ao invés de revogar os decretos legislativos lesivos aos interesses da Amazônia". E culpou os deputados da base governista que boicotaram a discussão sobre as terras indígenas, enquanto se calavam diante do massacre.
Infelizmente, o heroísmo e a disposição de lutar e morrer dos indígenas e trabalhadores peruanos não têm a correspondência das mesmas qualidades em sua direção. Os ativistas de base que lutam, e enfrentam tiros, bombas e pancada, tem a disposição de vencer ou morrer. Mas seus dirigentes e lideranças são o oposto: pedem calma, moderação e que se deposite as esperanças de mudança nas próximas eleições.
Os trabalhadores não podem cair nessa manobra. Só a manutenção, radicalização e politização da luta, que precisa assumir um conteúdo revolucionário e anticapitalista pode defender a Amazônia, de verdade, assim como garantir a soberania indígena e peruana, o emprego e a vida dos trabalhadores. A luta dos povos indígenas é cada vez mais a luta de classes em comum com todos os explorados pelo socialismo.
É a hora de unificar todos os explorados do Peru e lutar pela tomada do poder. Pela greve geral insurrecional para derrubar Alan Garcia. Pela revolução socialista!
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