Região espanhola da Catalunha proíbe touradas. Defesa dos animais ou separatismo?
O Parlamento da Catalunha, região autônoma que pertence à Espanha mas reivindica independência, decidiu nesta quarta-feira proibir as touradas, transformando a província na primeira região da Espanha continental a banir a prática.
A votação foi resultado de uma petição levada ao Parlamento com a assinatura de 180 mil pessoas que diziam que a prática é bárbara e antiquada. Esta alegação, além do fato em si de proibir as touradas – uma das mais típicas celebrações espanholas – levou a um acirramento de ânimos, com partidários das duas posições bastante exaltados.
Aqueles que são favoráveis às touradas insistem que as “corridas”, como são chamadas na Espanha, são uma tradição importante que deve ser preservada. Grupos pró-touradas temem que a proibição possa inspirar uma onda de campanhas semelhantes no resto da Espanha. Eles dizem que as touradas são uma forma de arte e que a medida ameaça o meio de vida de milhares de pessoas.
Por outro lado, os defensores dos direitos dos animais alegam que é inaceitável que a Espanha moderna prossiga com uma prática que leva à tortura e morte agonizante de animais.
Este é um debate interessante, porque contrapõe o “direito à cultura” a preceitos como o respeito aos animais. Assim como em casos como os de rinha de galo, por exemplo, a “cultura” é contraposta a um novo grau de consciência, mais condizente com o avanço das forças produtivas. O que antes era parte dos hábitos de um povo, com a mudança da realidade material deste povo tende a gerar mudanças também em suas ideias e concepções.
Com o desenvolvimento das sociedades; o progresso científico e tecnológico; e a consolidação de relações capitalistas de produção, há um enorme impacto social, econômico e ideológico sobre a população, e não é possível considerar que a cultura permaneça intacta. Assim, sob a alegação de “cultural” escondem-se métodos, práticas e crimes, muitas vezes, que antes poderiam ser justificáveis, mas hoje deixam de corresponder à consciência dos trabalhadores.
A principal arena de touradas de Barcelona, por exemplo, é uma das mais antigas da Espanha, mas o apoio à prática vem caindo entre os moradores da cidade.
Depois de alguns ensaios de alteração da lei, a medida foi aprovada por 68 votos contra 55, com nove abstenções. A votação foi muito apertada porque os dois principais partidos presentes no Parlamento suspenderam a fidelidade partidária, tomando a rara decisão de permitir que seus membros votassem de acordo com suas consciências. Esta autorização de liberação de voto expressa a dicotomia política de, ao mesmo tempo, não pretender perder votos nem de um lado, o velho, nem de outro, o novo.
A proibição começa a ter efeito em janeiro de 2012, num gesto de adaptação e transição, inclusive levando em conta os milhares de empregos envolvidos na prática.
Por trás de tudo, a política
Mas, enquanto o debate oficial é sobre os direitos dos animais ou o conservadorismo cultural, a disputa real em jogo é quanto à tentativa da Catalunha de se tornar ainda mais diferente e oposta à Espanha como um todo.
O forte movimento nacionalista pró-independência catalã vem de 3 fatos importantes. Um deles foi a negativa, por parte da Justiça, de reconhecer uma maior autonomia pleiteada pela região. O segundo fato foi a manifestação de mais de 1 milhão de pessoas nas ruas, contra a decisão da Justiça, radicalizando a exigência de direitos maiores rumo à autodeterminação, como a garantia do catalão como principal língua oficial da região, do uso de símbolos e leis próprias, etc.
Por último, o aparentemente não relacionado título inédito da Copa do Mundo de futebol pela Espanha também alimentou as polêmicas. O técnico da seleção, com base em jogadores do catalão Barcelona, defendeu que o título era uma prova de que a Espanha unida era mais forte, e que esperava que a taça servisse para unificar ainda mais o país. Este debate foi repetido e rebatido ao longo das 2 últimas semanas.
Assim, a proibição das touradas neste momento não é uma simples coincidência. Com o objetivo claro de marcar sua diferença do resto da Espanha, rejeitando uma das mais conhecidas tradições do país, catalães esperam cindir ainda mais a região do restante do país e acelerar o processo de separação, que já angaria mais adeptos em função da gigantesca crise econômica vivida pela Espanha.
Os revolucionários sempre apoiaram e apoiarão as manifestações e o direito à autodeterminação dos povos, no caso, pela independência da Catalunha. Da mesma forma, especialmente por ser a vontade de seus trabalhadores, achamos importante a proibição das touradas.
No entanto, independentemente das práticas culturais que venham a ser adotadas, e da constituição de um novo país, hoje os trabalhadores precisam, mais do que nunca, é do internacionalismo proletário, deixando de lado as fronteiras que os dividem a atuando em comum contra os interesses de suas burguesias locais e do imperialismo.
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