Mobilizações no Irã não cessam. Ahmadinejad cada vez mais sem saída
Passados seis meses das últimas eleições presidenciais no Irã, na qual Mahmoud Ahmadinejad foi reeleito, as manifestações contestando a legitimidade do pleito continuam abalando o regime dos aiatolás. As eleições, que em algum grau, certamente foram fraudadas, acabam sendo a gota d'água para as mobilizações, que levam parte da classe trabalhadora às ruas de Teerã e demais cidades do país.
As lutas travadas pela população acabaram aumentando após a morte do aiatolá Hossein Ali Montazeri, um xiita bastante respeitado no país, morto aos 87 anos de ataque cardíaco, em meados de dezembro. Montazeri teve papel fundamental na Revolução Iraniana de 1979, sendo cotado, inclusive, como um dos possíveis sucessores do aiatolá Ruhollah Khomeini -o chefe maior do regime iraniano-, até entrar em colizão com líderes do país. Essa possibilidade foi ficou descartada após ter sido contrário às mortes de prisioneiros da guerra civil, que se instaurou no período pós-revolução. Hossein era considerado o líder espiritual da oposição reformista.
Milhares de pessoas que já estão cansadas dos discursos radicais, mas da pouca ação de Ahmadinejad, aliado à repressão crescente, tomaram novamente as ruas para homenagear o clérigo e protestar contra a realidade que o país esta inserido.
Porém, a população foi duramente reprimida, sendo inclusive impedida de organizar todas as cerimônias religiosas que seriam feitas ao aiatolá da oposição. Durante as manifestações, a polícia usou dos mais severos meios de repressão: balas de borracha, gás lacrimogêneo; e até mesmo tiros com projéteis letais, causando diversos feridos e 70 mortos em manifestação ocorrida dia 27 de dezembro - segundo fontes que apóiam as manifestações da oposição.
E os mortos durante os confrontos não atingiram somente desconhecidos. Até mesmo um sobrinho de Mirhossein Mousavi, candidato derrotado por Ahmadinejad nas últimas eleições contestadas, Ali Mousavi, de 20 anos, morreu durante manifestações. Mousavi, o tio, é umas das maiores lideranças de oposição, e o maior crítico da apuração eleitoral que reelegeu Ahmadinejad.
A repressão está atingindo duramente as organizações de oposição. Com as milícias organizadas pelo regime, composta por policiais à paisana, sob forma paramilitar, a população em geral e as lideranças estão sendo presas e impedidas de continuar sua luta. Até o final de dezembro, foram divulgados dados que indicavam estarem presos 10 líderes de oposição, incluindo três assessores de Mirhossein Mousavi.
Até mesmo Mohammad Ali Abtahi, ex-presidente iraniano ligado a uma fração religiosa mais moderada, foi condenado a 6 anos de prisão, ainda que logo tenha voltado à liberdade após pagamente de fiança, no valor de 700.000 mil dólares, quantia que a esmagadora maioria daqueles que estão se mobilizando contra o governo e acabam sendo presos, não possuem, por isso acabam amargando na cadeia.
Milhares de pessoas que se manifestaram contra o governo desde o início da turbulência política já foram presas. A maioria foi libertada após alguns dias no cárcere. Porém, muitas continuam presas sem motivo algum a não ser por terem desafiado o governo. Dentre essas pessoas que estão na cadeia, cerca de 80 foram condenadas ate a 15 anos de prisão, e há ainda cinco pessoas, até agora, condenadas à morte. Isso subtraído o número dos que morreram nas ruas.
Ahmadinejad faz discurso anti-imperialista para esconder a burguesia nacional
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Durante as manifestações que homenageavam o aiatolá morto, o atual presidente utilizou-se dos meios de comunicação estatal para convocar a população a se mover contra os “mohareb” – aqueles que travam guerra contra Deus. Assim Mahmoud chama seus opositores de hereges - que atentam contra a ordem islâmica. Essa política de mobilizar sua base de apoio, sob um eixo fundamentalista, serve para transformar o conflito contra seu erros políticos em uma suposta traição à religião e costumes majoritários no Irã.
Além de apelar às questões religiosas, o presidente ofende a todos que vão contra seu governo de "aliados do imperialismo", chamando-os de pró-EUA, ou pró-Grã Bretanha. Na verdade, os setores que representam as lideranças de oposição são traidores da classe trabalhadora, realmente são ligados ao imperialismo. Porém, a população iraniana que se mobiliza hoje possui um ódio tão grande do imperialismo, quanto de Ahmadinejad, e este sentimento aumenta a cada dia que se mobilizam. O governo, dessa maneira, acaba dividindo a população com falsos discursos.
Nem o imperialismo, nem a burguesia dos aiatolás. Organizar as organizações dos trabalhadores para acabar com o capitalismo!
As mobilizações no Irã demonstram a radicalização que as lutas hoje vêm tomando, com a classe trabalhadora, seja em qual for o país, tendo tão pouca perspectiva de vida, sem que nem mesmo as mais simples necessidades sejam atendidas, que se sentem dispostas a uma luta de morte contra aqueles que são um entrave à melhoria de sua realidade.
Ahmadinejad é um político ligado a um conservadorismo retrógrado, que ataca direitos simples da classe trabalhadora, governando por meio da censura e repressão. Faz isso para manter um setor da burguesia nacional, ligada aos aiatolás, no poder. Por outro lado, a burguesia nacional, mantém certa independência em relação ao imperialismo - fruto de uma revolução em nível de regime - que acabou por expulsar o Xá Reza Pahlevi, que era ligado aos EUA. Dessa maneira, qualquer crítica ao seu governo, tanto interna quanto externa, o regime logo discursa que o imperialismo está incitando a população contra o presidente.
A necessidade da classe trabalhadora se sintetiza em organizar suas próprias bandeiras de luta e lideranças, que tanto não sejam ligadas ao regime, muito menos ligadas ao imperialismo. Com a dinâmica dos fatos, de repressão latente e inclusive de mortes promovidas por milícias paramilitares que assassinam os lutadores, torna-se urgente a organização de milícias operárias de autodefesa, por locais de moradia, por exemplo.
A luta travada pelos trabalhadores contra o regime deve tornar-se uma luta maior – na luta contra o capitalismo e a burguesia de conjunto, já que, qualquer que seja o dominador, a exploração, por consequência, continuará. Portanto, qualquer direito, por menor que seja, estará ameaçado. Os trabalhadores iranianos devem tomar as ruas, assim como em 1979, e derrotar o atual governo, propondo mais que um novo regime: devem lutar por um novo sistema – socialista – que garanta todas as necessidades da classe, liberdade política e religiosa, e um Irã de fato independente.
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