Publicado em 27/12/2011

Revolução no Iêmen: governo mata dezenas, mas luta continua e Saleh tenta asilo nos Estados Unidos

A revolução no Iêmen teve novos conflitos sangrentos nesta semana. Após meses de protestos e lutas populares, que quase conseguiram capturar e executar o ditador Ali Abdullah Saleh, que teve seu palácio bombardeado e foi ferido, deixando o país por 3 meses após isso, o governo tentou reaver sua iniciativa e retomou o massacre contra os trabalhadores.

Esta ofensiva, porém, novamente foi respondida com a força das ruas, e o governo de Saleh foi obrigado a recuar. Diante desse cenário, a oposição organizada majoritária do país, simplesmente traiu a revolução de uma forma abominável e permitiu a continuidade de Saleh no poder, apenas com a promessa de novas eleições e da “aposentadoria” do ditador. Qualquer punição, julgamento ou justiça seria impedida, em nome da “unidade”. Uma unidade criminosa e que desrespeita os mortos pela libertação do país, friamente executados quando se manifestavam.

Mas a população não engoliu este acordo inadmissível e voltou às ruas, contra seus “representantes” traidores e contra o governo assassino. A bandeira é “Fora Saleh já! Prisão e pena de morte ao ditador e seus assessores”.

O resultado foram inúmeras manifestações. Simultaneamente, milhares de pessoas foram às ruas de várias cidades contra a imunidade concedida ao presidente Ali Abdallah Saleh em troca de sua renúncia. "Um julgamento é necessário, e a imunidade é rejeitada", gritavam os manifestantes na capital, próximos da Praça da Mudança, epicentro da contestação desde janeiro.

Outras manifestações similares acontecerem em 18 cidades do país, todas convocadas por militantes que querem o julgamento do presidente pela morte de centenas de manifestantes durante a repressão. "Precisamos punir (os responsáveis) pelo derramamento de sangue dos jovens", declarou o imã Wahib al-Sharabi em Taez, segunda maior cidade do país.

O acordo para a saída da crise, firmado no fim de novembro pela iniciativa das monarquias do Golfo, com a colaboração da oposição traidora, prevê a saída de Saleh apenas em fevereiro e sem punição alguma. Mas, desde a assinatura deste acordo, várias manifestações impedem que esta “paz dos cemitérios” seja efetivada, principalmente em Sanaa e Taez, onde já há manifestantes armados contra o governo.

Na maior mobilização popular, se realizou uma enorme marcha que saiu do interior do país e se dirigiu à capital, exigindo o fim de Saleh. Dezenas de milhares de manifestantes chegaram a Sanaa após terem percorrido a pé 270 km desde Taez (sudoeste). À noite, porém, os manifestantes foram bloqueados em um bairro do sul da capital, numa das muitas ações de emboscada preparadas pelo governo ditatorial.

Uma batalha pelo destino do Iêmen

A transformação dos protestos populares em luta armada contra o governo já começou no Iêmen. Assim como na Líbia e na Síria, alguns manifestantes já estão armados e perceberam que é preciso derrubar violentamente o governo ditatorial. O banho de sangue que ocorre há meses ensinou que, apenas com cantos, não se vai derrubar um regime burguês genocida. O resultado é o aumento dos confrontos, a radicalização das lutas e a pressão insuportável sobre Saleh.

Como resultado, o governo, primeiro, ergueu barricadas nas ruas da capital Sanaa, demonstrando desespero e falta absoluta de controle sobre a cidade; e, depois do acordo que lhe deu mais fôlego, assistiu à derrubada das barricadas que dividiam a cidade, mas, ao mesmo tempo, teve de retirar suas tropas da capital, tentando sinalizar que “o acordo de paz” devia ser respeitado pelas duas partes do conflito (governo e população). Uma tática de quem já está derrotado e tenta simular “moderação”. Neste momento, o vice, Abd-Rabbu Mansour Hadi, junto de líderes da oposição, tenta conduzir as lutas para o terreno eleitoral, marcando as eleições presidenciais para fevereiro.

Claramente, há um política de duas faces: uma bate forte, e mata inocentes às dezenas, atirando a esmo durante as manifestações, numa demonstração do ponto a que chega o terrorismo de Estado no capitalismo; e outra, que assopra, acenando com a viagem de Saleh e uma transição negociada, com eleições em poucos meses.

Porém, as massas não têm por que confiar neste processo. Depois de 33 anos no poder, saleh hoje é um fantasma, sem poder real nenhum. A capital Sanaa hoje está dividida, com o norte da cidade já controlado pelos revolucionários, e o sul, controlado pelo governo apenas através de tanques e grande efetivo militar. Não há mais nenhum apoio popular ao governo, que conta os dias de seu fim próximo.

Soldados da Guarda Republicana e do exército já desertam e abandonam a repressão, deixando a ação mais enérgica da ditadura nas mãos de tropas mais violentas e paramilitares a serviço dos privilégios de um setor mais intransigente da burguesia semicolonial iemenita.

Há batalhas terríveis nos distritos de al-Hasaba e Soufan, dentro da capital Sanaa, e explosões, tiros e confrontos de massa são cada vez mais frequentes. O cessar-fogo só serve aos assassinos de Saleh,  e este é o momento de aprofundar os combates e impor um governo dos trabalhadores.

Saleh vai cair! Abaixo o acordo de transição “pacífica”. Justiça e poder aos trabalhadores já!

Diante de um cenário cada vez mais desfavorável, Ali Abdullah Saleh se vê completamente encurralado e desmoralizado, e disse que irá aos Estados Unidos para permitir que um governo interino prepare uma eleição para substituí-lo, mas não especificou quando deixará o país. Como se tivesse outra alternativa... Na verdade, Saleh não está em condições de “permitir” nada, e sua manobra não passa de um golpe para ganhar tempo para matar ainda mais trabalhadores e colocar um governo capacho como seu substituto.

No entanto, as declarações de Saleh pela “paz nacional” vieram, outra vez, banhadas de sangue. Forças leais ao governo atiraram contra manifestantes que exigiam que Saleh fosse julgado por matar opositores durante 11 meses de protestos. E mais 9 pessoas morreram e outras 90 ficaram feridas! Esta é a paz negociada pela ditadura com a oposição de fachada que assinou o acordo de “paz”.

        Tiros foram disparados a partir de telhados, carros e dentro de lojas, por mercenários covardes, agindo como franco-atiradores de Saleh, já que os enfrentamentos abertos são cada vez mais evitados pelo governo, que sabe que as massas já não recuam, mesmo diante das mortes.

        A burguesia imperialista e a árabe, inclusive, já rifaram Saleh, mas não podem aceitar que ele seja justiçado pelos revolucionários, como foi Kadafi, na Líbia. Por isso, e para não permitir que o novo governo rompa com seus interesses no país, a Liga Árabe e a ONU já vinham tentando uma solução mediada para o Iêmen. Contudo, Saleh havia rejeitado três vezes o plano proposto, com eleições parlamentares e presidenciais depois de ele formar um novo gabinete, liderado pela oposição, e deixar a presidência.

Agora que a revolução avança, Saleh já defende o plano, e a oposição de fachada concorda. Mas os trabalhadores estão dispostos a atropelar estas negociações. Os revolucionários do mundo todo devem estar com as massas em luta iemenitas e apostar tudo na vitória dos trabalhadores por meio de ações de insurrecionais, através do armamento do proletariado, da expulsão do imperialismo do país, da expropriação do petróleo, empresas e e terras e do julgamento popular de todos os membros do regime.

A revolução árabe  mundial passam pelo Iêmen nestas semanas.

 

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