Publicada em 27/10/2009

De olho na ampliação da União Europeia, Turquia e Armênia assinam acordo de paz

Turquia e Armênia, dois países pobres, situados na periferia européia, assinaram na cidade suíça de Zurique um acordo histórico para o estabelecimento de relações diplomáticas, tentando pôr fim a quase um século de inimizade.

A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, além do principal diplomata americano na Europa, Philip Gordon, e da ministra suíça de Relações Exteriores, Micheline Calmy-Rey, teve de intervir para fazer com que os dois lados chegassem a um acordo, após uma divergência de última hora relacionada às declarações finais que cada país faria. Esta interferência de perto dos EUA e da União Européia revela que há muito mais, por trás da “reconciliação” de 2 países. 

  No final, o documento foi assinado com bastante atraso pelos respectivos ministros de Relações Exteriores, e não houve discursos. O acordo deve ser ratificado pelos parlamentos turco e armênio, e pode levar à reabertura da fronteira entre os dois países, que está fechada há 16 anos. A reaproximação, no entanto, vem enfrentando a oposição de nacionalistas de ambos os lados, dado o oportunismo do acordo, feito apenas para agradar à UE e permitir o ingresso turco no bloco.

O respaldo à Turquia agressora

"O sucesso da Turquia em pressionar a Armênia a aceitar esses protocolos humilhantes e unilaterais provam, infelizmente, que o genocídio compensa", disse Ken Hachikian, presidente do Comitê Nacional Armênio da América. Os armênios foram massacrados pelos turcos, num genocídio contra a minoria durante a Primeira Guerra Mundial, e a declaração desse emigrante armênio é apenas parte dos protestos que houve contra o acordo.

O tratado apenas pede a criação de uma comissão para discutir "a dimensão histórica" da matança de cerca de 1,5 milhão de armênios durante a Primeira Guerra. A discussão deve incluir "um exame científico imparcial dos registros históricos para definir problemas existentes e formular recomendações".

            A cláusula é evidentemente uma concessão à Turquia, que nega o genocídio, alegando que o número é exagerado e que os mortos foram vítimas de guerra civil, numa tentativa semelhante a dos que negam o holocausto, ou tentam diluir a morte de judeus ou comunistas como parte normal dos massacres da 2ª Guerra.

            Na Turquia, o primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, cinicamente, disse que seu país estava demonstrando boa vontade ao restabelecer laços com a Armênia. Mas, não contente com a imposição de seu revisionismo histórico e negação do genocídio, disse que a Turquia gostaria de ver a saída das tropas armênias de Nagorno-Karabakh, um enclave ocupado por armênios no Azerbaijão, e que tem sido o centro de tensões regionais.     

Vale tudo para ser aceito pela União Européia

Diante de tanto favorecimento aos turcos, fica pergunta de quais interesses estariam por trás disso, ainda mais depois que vários países demonstraram apoio ao acordo imediatamente, como os Estados Unidos, Rússia, França e União Européia, presentes à assinatura.

A explicação é que há anos a Turquia reivindica poder entrar para a União Européia, de olho no mercado consumidor para seus produtos e como forma de “exportar” seus trabalhadores, que hoje já entram ilegalmente aos milhões nos países imperialistas europeus.

Os problemas referentes aos direitos humanos na Turquia (incluindo a disputa com os armênios), além da religião majoritariamente muçulmana do país, e os enormes problemas sociais, índices de pobreza e emigração, sempre fizeram da Turquia um vizinho não desejável. No entanto, setores europeus de olho em superexplorar ainda mais o país, e uma burguesia turca ansiosa em poder virar sócia de grandes grupos multinacionais, e evitar o crescimento muçulmano, trataram de costurar um acordo com a Armênia e facilitar o ingresso da Turquia na UE. 

O preço a pagar ficará por conta dos armênios (ainda mais oprimidos e abandonados daqui por diante) e dos trabalhadores turcos, que serão mão-de-obra barata, enquanto seu país perderá ainda mais autonomia e independência.

 

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