Publicado em 12/02/2010

Venezuela em crise. Chavismo desmoralizado

         Nas últimas semanas, a Venezuela tem passado por dias de grande turbulência, com protestos e paralisações em alguns estados, sendo os efeitos mais visíveis. O país está sentindo profundamente as consequências da crise econômica, mesmo mais de 1 ano depois. Os cortes de energia estão acontecendo de forma constante; o governo tem aumentado as restrições a todo e qualquer tipo de oposição, perseguido e matado lutadores; e a inflação cresceu descontroladamente.

Em uma das manifestações, dois estudantes foram mortos pela polícia a mando de Chávez. As universidade tiveram as aulas suspensas, e o Movimento Estudantil deu sinais de disposição de ir à luta.

        Esse clima de instabilidade é utilizado também pelos setores mais reacionários, que tentam se utilizar da desmoralização do Chavismo para se postularem como alternativa. O que sempre garantiu que Chávez tivesse um controle da situação do país foi justamente seu estancamento das mobilizações, seja por sua retórica, por concessões sociais parciais, ou mesmo através da repressão. Agora, sem o dinheiro do petróleo, e com as exportações em decadência, sobrou apenas a repressão.

A oposição burguesa, assim como Chávez, também é desmoralizada, por que já passou anos governando o país, e é ainda mais responsável que o atual governo pela situação da Venezuela. Hugo Chávez chegou ao poder como expressão da luta contra esse setor de direita, na maior parte golpista, que tentou derrubá-lo diversas vezes.

Ele se construiu como alternativa ao governo burguês tradicional, com um discurso radical contra esses que hoje o atacam. Chávez foi eleito porque a classe trabalhadora passou a repudiar os partidos tradicionais e a burguesia neoliberal venezuelana. Agora, diante da cosntatação de que Chávez não resolveu os problemas do país, contraditoriamente, a direita volta a ganhar alguma força. Mas a maioria da população, ou ainda vê em Chávez um "mal menor", ou simplesmente não acredita mais em ninguém.

Na falta de uma altwernativa revolucionária de verdade, muitos trabalhadores lutam em defesa do “socialismo do século XXI” de Chávez, pensando defender o país contra a burguesia, mas, na prática, estão apenas defendendo outro setor burguês, mais nacionalista.

Paralelo a isso, há trabalhadores que, ao levar às últimas consequências a reivindicação por emprego, salário e investimentos sociais, ou seja, bandeiras cujas vitórias só podem ser obtidas pelo fim do capitalismo em sua fase imperialista, se chocam contra Chávez. Estes ativistas, ainda que inconscientemente, lutam pelo socialismo ao levantar este programa e o método da ação direta, como vem ocorrendo através da ocupação de fábricasm, por exemplo.

Como Chávez é incapaz de conceder qualquer benefício à classe trabalhadora, e acaba se desmoralizando diante desses protestos, são estes manifestantes de esquerda o seu alvo principal, e não a direita que ainda é rechaçada pela maioria organizada da população.

Mais uma vez a RCTV. Depois da tragédia, vem a farsa

         Uma das medidas de Chávez foi o fechamento da RCTV, uma emissora de TV que atuou diretamente a favor do golpe de 2002, e é identificada pelos trabalhadores como inimiga.

Foi como expressão dessa luta, que apresentou a necessidade de punir e fechar a RCTV, que o governo cancelou a concessão da emissora em 2007. Não à toa, isso aconteceu anos depois de todos estarem cansados de saber do papel reacionário dessa emissora, e Chávez segurou ao máximo essa medida, para usá-la em um momento em que precisasse manter sua fama de combativo e antiimperialista.

        Acontece que, neste momento, Chávez resolveu cancelar além da transmissão da RCTV, a RCTV Internacional (que seguia suas transmissões a cabo e vendendo matérias a outros países) e de outras seis emissoras; todas por não terem colocado no ar seu pronunciamento.

Defendemos como correto e necessário o fechamento de todas as emissoras cúmplices em atacar os trabalhadores, desde que isso seja parte das reivindicações operárias e populares, e que a expropriação desses setores, ainda mais os golpistas, seja controlada pelos trabalhadores.

No entanto, denunciamos a manobra de Chávez em tomar para si a responsabilidade de tal medida em 2007, que só foi levada a cabo por contestação dos trabalhadores. Hoje, Chávez faz ainda pior: tenta simular que está reaplicando essa medida, para montar uma fachada que justifique restringir ainda mais todo e qualquer tipo oposição ao seu governo, mirando na direita para atingir a esquerda. Para derrotar a direita e seus golpes, é preciso derrotar Chávez. Agora é a hora dos trabalhadores governarem através de seus organismos de luta

        Cada vez, fica mais claro o que está por trás dos discursos radicalizados de Hugo Chávez, e isso acontece depois de anos de experiência com este governo. Chávez combate em palavras o imperialismo para favorecer outros setores da burguesia nacional venezuelana. A sua disputa e medidas em relação a RCTV, por exemplo, vem no sentido não de acabar com o capitalismo e a burguesia como um todo, como prevê o socialismo revolucionário, mas sim de gerenciar a economia venezuelana para que os setores burgueses a que Chávez pertence e defende tenham maior parte do controle do país.

        A luta contra a tentativa de golpe do imperialismo, e contra a direita reacionária como um todo passa por armar e mobilizar os trabalhadores, que devem expropriar os bens e meios de produção da burguesia.

Não há como "anistiar" os golpistas, como fez Chávez, ou deixá-los livremente lutando e se organizando. Assim, ao contrário do que tenta parecer o governo venezuelano, não é a esquerda revolucionária quem faz o jogo da direita, ajudando a enfraquecer o governo, e sim Chávez quem a ajuda, ao impedir que seja totalmente derrotada.

Chávez já provou não ter nenhum interesse em levar essa luta até as últimas consequências, e o “socialismo do século XXI” já nasceu morto. Chávez se pinta de vermelho e socialista para desferir duros golpes contra os trabalhadores de seu país. Hoje, assim como se derrotou os golpistas em 2002, é necessária a mobilização e luta para impedir novos golpes, o que passa por superar Chávez, implantando um governo socialista, organizado por assembléias de bairro e local de trabalho, expropriando toda a burguesia imperialista e nacional.

 

VOLTAR

 
Notícias Relacionadas

• Volkswagen e Porsche; Fiat e Chrysler; Renault e GM: Crise estimula fusões na indústria automobilística.

• Governo do Sri Lanka massacra população que luta por independência do Eelam Tamil!

•Fernando Lugo assume paternidade de criança de 2 anos e mostra que seja como presidente, seja como bispo, sempre agiu contra os explorados e oprimidos

• GM está próxima de pedir concordata! Obama exige que empresa se divida em duas: Uma falida, com as dívidas trabalhistas e financeiras, e outra com o lucro e o patrimônio da GM

• O leste europeu 20 anos depois da queda do muro: Geração pós-queda do muro de Berlim diz não ao capitalismo no Leste Europeu

• Crise põe PIB mundial em queda livre: Pela 1ª vez, economia mundial deve ter recessão anual

• Uruguai aprova o direito à eutanásia!