Greve de bancários: paralisação com força total, onde Confraf/CUT sai em defesa de Lula e os Banqueiros
Chegou ao fim, no último dia 14, a greve nacional dos bancários, que ficará registrada como a maior paralisação da categoria nos últimos 20 anos. A forte adesão ao movimento grevista se refletiu no crescente aumento do número de agências fechadas a cada dia da paralisação. Foram mais de 8 mil agências de bancos públicos e privados que fecharam as portas em todo o país durante os 15 dias em que os bancários pararam de trabalhar (alguns estados permaneceram 16 dias em greve).
Apesar de terem feito uma greve histórica, o reajuste obtido pela categoria não correspondeu à força da sua mobilização nem a alta lucratividade dos bancos. Os salários e outras verbas serão reajustados em apenas 7,5%. A exceção ficou para os que ganham o piso na Caixa, Banco do Brasil (BB) e Banco do Nordeste (BNB), que tiveram reajustes variados e um pouco acima desse percentual, para igualarem o salário de ingresso em R$ 1600, e uma parte dos bancários de bancos privados que amargaram apenas a inflação de 2009, medida pelo INPC em 4,29%.
O baixo índice de reajuste já era previsível, uma vez que a Contec e a Contraf/CUT, confederações que negociam com os patrões, apresentaram ao governo e aos banqueiros uma pauta de reivindicações rebaixada, sem convocarem, na maior parte dos estados, assembleias de base para aprová-la. O pedido de 11% de reajuste estava muito aquém das perdas salariais da categoria, que alcançam 24% nos bancos privados, e giram em torno de 80% a 100% nos bancos públicos.
Assim como ocorreu em todas as campanhas salariais durante os dois mandatos do governo Lula, a Contraf/CUT, que dirige a imensa maioria dos sindicatos do país, escolheu novamente blindar o governo, ajudando-o a manter a política de arrocho salarial, assédio moral e terceirização. Essa opção ficou clara desde os congressos específicos de cada banco, quando o presidente da Contraf/CUT, Carlos Cordeiro, declarou que a prioridade esse ano era a eleição de Dilma Rousseff, candidata do governo à presidência da república. Em encontros que deveriam servir de preparação para a campanha salarial, os sindicalistas da CUT tiveram a ousadia de colocar em votação, nos congressos do BB e BNB, o apoio à candidatura petista.
A atuação da Contraf no decorrer da campanha apenas confirmou a total falta de independência da CUT diante do governo Lula. Definiram-se mais uma vez por negociar o índice de reajuste para toda a categoria na mesa da Fenaban (Federação Nacional dos Bancos), que reúne os bancos públicos e privados, sob a liderança dos banqueiros. Essa tática de negociação ignora a imensa perda salarial dos bancários de bancos públicos e deixa a cargo dos banqueiros a definição do aumento salarial desse setor, impedindo-o de negociar diretamente com o governo índices de reajuste maiores.
Outro exemplo do atrelamento ao governo foi o adiamento da deflagração da greve, que só foi marcada para o dia 29/09, pois os cutistas julgavam que Dilma Rousseff se elegeria no primeiro turno. Durante todo o mês de setembro, data-base da categoria, nenhuma assembleia foi convocada nas principais bases do país para preparar a mobilização dos bancários.
Por tudo isso, não foi surpresa que o final da greve também tenha se dado com traições à categoria. Com uma greve forte, sem sinal de cansaço, a Contraf/CUT indicou a aceitação de uma proposta que não atendia as reivindicações dos bancários, e iniciou o desmonte do movimento pela imprensa. Para a CONTRAF, a forte adesão à greve não combinou com o cenário de segundo turno das eleições, por isso se apressaram em colocar um fim à paralisação, para não desgastar ainda mais o governo Lula e, por consequência, sua candidata, Dilma.
Questões específicas de cada banco como plano de cargos e salários, reposição das perdas salariais e isonomia entre novos e antigos funcionários foram deixadas de lado nas mesas de negociação. Ainda assim, a proposta feita pelos bancos foi defendida pela Contraf/CUT como sendo um grande acordo, com avanços para os bancários, e gerentes de todo o país foram convocados para irem às assembleias votar pelo fim da greve.
Esse roteiro de traições tem se repetido a cada ano, indignando os bancários. Além da enorme lucratividade do sistema financeiro, que no primeiro semestre atingiu a cifra de R$ 25,2 bilhões, e que por si só já seria o suficiente para atender as reivindicações da categoria, o resultado de outras campanhas salariais, também com negociação em setembro, acenou com boas perspectivas para os trabalhadores do ramo financeiro. Foi o que ocorreu com os metalúrgicos, que obtiveram 10,8%, e com os bancários do Banco de Brasília (BRB), que conquistaram 12% de reajuste. Negociado fora da Mesa Única da Fenaban, o acordo do BRB prevê ainda a incorporação automática das funções após dez anos de exercício, estabilidade no emprego e o atendimento a um dos itens da pauta de isonomia (o adicional por tempo de serviço ou anuênio). Esse acordo pressionou a Contraf, ao colocar em xeque a mesa da Fenaban e servir de ânimo para as bases de todo o país.
O sentimento de frustração dos bancários com o comando nacional e o resultado da greve ficou demonstrado em muitas assembleias Brasil afora. Ele pode ser expresso, para citar alguns exemplos, na aprovação da “Moção de repúdio à traição do comando da Contraf/CUT e à condução salarial em 2010” no Rio Grande do Norte ou na aprovação de um plebiscito no Rio Grande do Sul, por pressão da base, para consultar a categoria sobre a desfiliação da CUT.
À medida que a CUT derrota sucessivamente todas as greves dos bancários, aumenta o espaço para os que fazem oposição organizarem a categoria. Em 2010, assim como em anos anteriores, os sindicatos dos bancários do Rio Grande do Norte, Maranhão e Bauru/SP, reunidos com parte das oposições bancárias do país no Movimento Nacional de Oposição Bancária (MNOB), apresentaram uma pauta de reivindicações alternativa a da Contraf. Construída e aprovada pelas suas bases, a pauta tinha como eixo a reposição das perdas salariais, reajuste de 24% e isonomia para todos. A força da oposição ainda não foi suficiente para levar à mesa de negociações a pauta do MNOB, mas esse é o caminho a ser seguido. É preciso organizar a base em oposições de luta, que sejam independentes do governo e pelo fim da Mesa Única da Fenaban. Precisamos construir uma alternativa à altura do poder de mobilização dos bancários, que foi tão bem demonstrado nessa greve.
-Leia a Moção de repúdio à traição do comando da Contraf/CUT e à condução salarial em 2010
-Leia a Carta ao Presidente Lula
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