FRACASSA FUSÃO ENTRE CONLUTAS E INTERSINDICAL
CONCLAT: Uma demonstração de que não existe unificação sem programa e conteúdo.
O Congresso da Classe Trabalhadora (CONCLAT), realizado nos dias 5 e 6 de junho, na cidade de Santos – SP, terminou com um resultado que ninguém esperava: não houve unificação entre as duas principais entidades que convocaram e construíram o projeto de unificação: Conlutas e Intersindical; e até mesmo dentro da Conlutas houve baixas, como a saída em peso da bancada da “Unidos para Lutar”, formada por CST/PSOL, FOS, etc..
O congresso reuniu mais de 3 mil delegados, o que ainda assim é muitíssimo pouco perto das projeções, e menos até mesmo que o congresso apenas da Conlutas de 2006. Mas o mais deprimente é que este congresso de unificação acabou com cerca de 500 pessoas em seu final melancólico, em uma derrota categórica da direção desse processo de unificação.
Assim, encerra-se com uma derrota histórica e um fracasso absoluto um processo que desde seu início há cerca de 4 anos, se mostrou muito agitado nas cúpulas, e completamente distante das bases; com muitas polêmicas sobre cargos e estrutura, e raríssimos debates sobre o programa e o conteúdo a ser levantado
CONGRESSO DA CONLUTAS FOI O ENSAIO GERAL DO FRACASSO A SEGUIR
O congresso da Conlutas, previsto para 3 dias, acabou diminuído burocraticamente para a metade disso, suspendendo exatamente os pontos sobre “burocratização” e “trabalho de base”. Não por acaso... Mas nem sequer esta redução para 1 dia e meio foi cumprida, tendo sido realizado, efetivamente, apenas a partir das 11h da manhã da 6ª-feira, 4 de junho. Após muita festa e saudações, o debate se resumiu a uma única rodada de grupos de discussão, ainda assim atropelados, sem tempo e (pasmem!) sem que os observadores pudessem falar.
Ou seja, aqueles que foram eleitos em assembleias de base, que também pagaram caríssimo para estar presentes no congresso (apesar de sua estrutura bastante problemática) e estavam dispostos a ajudar na construção das lutas, foram impedidos até mesmo de falar, ultrapassando a diferença de que observadores não votam mas falam. Nunca se viu isso entre nós, e poucas vezes a própria burocracia governista é capaz de chegar a este ponto.
Este caso é emblemático de que a Conlutas realmente mudou. Não é uma opinião e sim um fato, quando se constata que a mesma Conlutas, no embrião de sua criação em 2004, e depois em 2006 e 2008 permitiu que os observadores falassem. Aí, se concretizava um giro político e metodológico que há alguns anos já definia a direção da Conlutas (claramente o PSTU).
Antes disso tudo, a direção da Conlutas já havia aberto mão de que se debatesse a política que deveria orientar as lutas contra o governo e os ataques da patronal. Em troca, priorizou um debate superficial e apenas de autopromoção, ao aplaudir a si mesma e a um processo sem que o conteúdo dele nunca tenha sido debatido. No Congresso esvaziado e despolitizado que propôs e levou adiante, a direção da Conlutas/PSTU só fez aprofundar esta prática.
O debate mal existiu, e a democracia nem apareceu. Além de confinar o debate a grupos com tempo minúsculo e com a exigência de que as propostas, para irem ao plenário final, teriam que ter 10% dos votos de algum grupo, o PSTU fraudou seu próprio regimento restritivo.
Os grupos definiram uma série de propostas, por maioria, minoria e até consenso, e nada foi ao plenário, nem para votação, nem sequer para defesa. A justificativa para tudo era sempre a “falta de tempo”, como se o tempo fosse um fenômeno natural, como um vendaval que destruísse o congresso, e não algo construído politicamente e produto de uma opção da direção da Conlutas.
O argumento do tempo, tão usado contra toda a esquerda pela direita pelega e autoritária, não se sustentava à medida que os que o usavam eram os mesmos que tinham proposto a redução do congresso e gasto uma imensidade do “tempo” com infinitas saudações e vivas ao congresso, impedindo que se desse, na prática, este mesmo congresso.
Ao final, se caçaram os direitos dos observadores e, de fato, os delegados, que também não tiveram como se manifestar, e, quando o puderam, tiveram seus encaminhamentos engavetados na plenária final.
CONGRESSO DE UNIFICAÇÃO – CONCLAT – FOI O GOLPE FINAL
No Conclat, não se discutiu nem se votou UMA ÚNICA resolução de programa, ou bandeira de luta. Nos dois dias de encontro, se discutiram apenas duas coisas: 1) Se entravam estudantes na direção da Nova Central ou não; 2) O nome da nova entidade. Marginalmente, alguns grupos forçavam o debate eleitoreiro ou algum outro tema também externo ao programa da entidade a ser formada, como a polêmica “de princípios”, sobre se a coordenação deveria reunir-se a cada 2 ou 3 meses.
Enquanto isso, temas como a luta contra a ocupação ao Haiti; a defesa dos palestinos e contra Israel; um programa de solidariedade ativa e ações comuns pela vitória dos trabalhadores gregos e europeus contra os ajustes neoliberais; um plano de ação contra a crise e seus efeitos no Brasil; a determinação de que se retomasse uma campanha massiva de desfiliação da CUT e formação de chapas anti-governo e anti-governistas; a luta contra os governos de Frente Popular: nada disso existia no Congresso.
Nós, do Movimento Revolucionário, militantes como os representantes do sindicato de bancários do RN, e tantos outros socialistas de base que assinamos a tese “Por uma Central de luta, antigovernista, de base e socialista” fizemos justamente o oposto, apresentando estas questões, tentando politizar o debate e armar a nova central para que pudesse imediatamente se preparar para o enfrentamento ao governo e à patronal. Infelizmente, este debate não teve qualquer espaço no Congresso, e, ao estes pontos serem aprovados pelos grupos para irem ao plenário, foram sumariamente suprimidos, como já ocorrera no congresso da Conlutas.
A condução e método do congresso estiveram a serviço desse conteúdo despolitizado. Os observadores não puderam ter direito nem mesmo a voz, o que só não foi inédito porque um dia antes já tinha acontecido o mesmo com a Conlutas. A justificativa para isso, defendida pelo PSTU, foi baseada na defesa de que os observadores, caso falassem, tirariam direito de voz dos delegados, que teriam mais legitimidade para discutir e deliberar no congresso.
No fim das contas, nem mesmo os delegados puderam falar no congresso nem resolver nada, pois em dois dias de encontro, apenas durante duas horas se realizaram grupos de discussões, somente para “cumprir tabela”, pois iniciaram esvaziados e alguns quase terminaram em pancadaria dado o grau de falta de democracia existente.
Para piorar, todas as resoluções aprovadas nos grupos com mais de 10% dos votos não foram levadas para a plenária final, o que de novo foi um replay do que a Conlutas havia feito um dia antes em seu próprio congresso. Ou seja, se discutiu e votou apenas o que a coordenação quis e julgou mais importante: a entrada ou não de estudantes e o nome da central.
Por fim, só nos resta denunciar e lamentar este triste congresso. Onde não houve debate programático em nome de um oportunismo e ânsia de crescer a todo custo e de todo jeito. Nós do Movimento Revolucionário alertávamos para o perigo de que, da maneira como era conduzida a fusão, esta unidade representasse um passo atrás, um retrocesso; e que o programa final fosse rebaixado. A realidade tratou de comprovar este cenário de maneira ainda pior, pois não saiu-se com programa nenhum!
Junto a isso, a condução em si do Conclat e congresso da Conlutas foi o oposto do que defendemos no movimento sindical e popular. Longe de combater a burocratização, o congresso teve taxas caríssimas, não viabilizou o transporte das delegações e, ainda por cima, privatizou a segurança e organização do congresso.
Ao contrário da auto-organização de congressos passados, onde militantes faziam a segurança do congresso, assim como organizavam os deslocamentos internos e a estrutura de alimentação, dessa vez, uma empresa privada definia quem entrava ou não em ônibus e no plenário do congresso. Bancas de materiais só eram permitidas para quem pagasse para expor, como num pequeno Shopping Center, e bandeiras e faixas foram proibidas de serem afixadas.
A organização burocrática, privada e elitista do congresso sequer garantiu qualidade e comodidade aos participantes, acometidos por uma onda de infecção alimentar e confusão com falta de vagas nos alojamentos. Para completar, as “recepcionistas” do local onde se faziam as refeições, eram modelos contratadas claramente para expor seus corpos e explorar a ideia da mulher como objeto de venda e exposição. O discurso anti-machista, anti-sexista, e de participação popular e democracia na exposição de ideias e propaganda foram jogados no lixo, pela prática do congresso privatizado.
POR RESPONSABILIDADE DA DIREÇÃO DA CONLUTAS, A INTERSINDICAL CONSEGUIU ROMPER COM UMA UNIFICAÇÃO SEM CONTEÚDO NEM PROGRAMA
No final de um congresso sem discussão e resolução nenhuma, a polêmica sobre o nome da nova entidade polarizou o plenário. A proposta de nome feita pelo PSTU, e defendida somente por ele e seus grupos satélites, que assinaram sua tese desde o início era “CONLUTAS-INTERSINDICAL”, ao qual agregaram o complemento de “CENTRAL SINDICAL E POPULAR”. Um nome rejeitado pela imensa maioria das forças políticas presentes, de dentro e de fora da Conlutas, inclusive pela própria Intersindical, que defendia junto com as demais um nome novo, sem referencia às centrais que estariam se dissolvendo na fusão.
Mesmo assim, o PSTU, depois de abrir mão de todo programa da Conlutas para unificar com um programa mais rebaixado da Intersindical, que não enfrenta o governo de conjunto, defende a Frente Popular do Hugo Chávez, trai greves e faz acordos oportunistas com os pelegos, bateu pé e não abriu mão do nome.
Dessa forma a Intersindical, Unidos para Lutar e MAS, como maiores correntes, romperam com o congresso e se retiraram, não só por causa do nome, mas pela condução antidemocrática do processo em geral. Na verdade, ficou muito fácil para a Intersindical romper com o congresso, pois ele não tinha nenhuma resolução de conteúdo. Rompeu-se com o nada, no máximo com um nome de algo que não existe politicamente. Ao contrário, se como defendíamos, tivesse havido um debate político, com resoluções neste sentido, não haveria condições para a Intersindical, mesmo que quisesse, romper o congresso, ainda mais por causa de um nome.
A Intersindical representa parte do que há de mais nefasto no movimento sindical, com sindicatos que são o exemplo da burocratização, oportunismo e traição de lutas, muitas vezes em conchavo diretamente com governo e os governistas.
Ao mesmo tempo, há muita gente honesta na Intersindical e companheiros valiosos. O que dizíamos, e seguimos dizendo, portanto, é que a fusão poderia ser muito progressiva, mas também poderia ser um retrocesso. O PSTU garantiu, pela falta de programa e democracia, que a fusão se encaminhasse para um retrocesso. A direção da Intersindical, entre a qual muitos foram a contragosto para a fusão, se aproveitou disso e foi ainda mais longe, rompendo com qualquer unidade
PSTU PERDE O CONTROLE DE SUA PRÓPRIA MANOBRA E SAI DERROTADO
Ficou evidente que a direção do processo perdeu o controle de sua própria manobra. O PSTU quis transformar todo debate do congresso num debate de composição e nome da central para evitar que se discutisse seu programa e tarefas. Mas, depois desse circo todo, já não podia mais recuar nisso, pois esse realmente tinha se transformado no debate “sério e radical” que seus militantes foram convencidos a travar.
Isso explica a aparente infantilidade e falta de inteligência por parte de quem queria tanto a unificação, mas não conseguiu nem mesmo isso, porque não abriu mão do nome defendido.
Nós, do Movimento Revolucionário, não achamos que o mais grave foi a intransigência infantil em não abrir mão de um nome. O mais grave foi o fato de o congresso não ter votado nenhuma resolução programática e ter tratorado os delegados presentes que aprovaram suas resoluções nos grupos de discussão.
Por isso, não concordamos com aqueles que se retiraram do congresso em função da discussão do nome. Essa foi uma manobra golpista, para manter a política atual de apoio aos governistas e ocupação de cargos pela Intersindical. Entretanto, para nós, a Nova Central não existe (o que tem que ficar claro, pois não houve fusão nenhuma) e a responsabilidade por se permitir que a Intersindical tenha feito o que fez é da direção da Conlutas/PSTU, que despolitizou e silenciou o congresso e sua base.
UMA DERROTA DOS TRABALHADORES, MAS QUE AS LUTAS PODEM E DEVEM SUPERAR AMPLAMENTE
Ao final desse processo fracassado, foi toda a classe trabalhadora quem saiu derrotada. Sai derrotada, porque se fortalecem momentaneamente aqueles que sempre disseram que não é possível uma central por fora da CUT, bem como aqueles que ceticamente acreditam que qualquer nova central vai sempre se tornar uma nova CUT.
O fato de que não apenas se rebaixou o programa da Conlutas, como depois ele foi completamente extinto, já que nada foi votado e um programa não se transmite por “osmose”, como popularmente se diz, reforça estas concepções atrasadas.
O Movimento Revolucionário, porém, identifica que esta derrota é muito mais superestrutural (no âmbito da vanguarda e setores organizados) do que estrutural e de base. Nas ruas, na luta de classes real e dinâmica, a experiência com o governo Lula e seus representantes sindicais traidores segue crescendo.
Assim, apesar do fracasso da fusão por cima, com um método e política opostos às necessidades da base, a verdadeira fusão dos diferentes setores de lutadores pode e deve se dar na ação direta.
É preciso construir uma grande jornada de lutas contra os ataques aos direitos dos trabalhadores, corte de verbas e arrocho ao funcionalismo propostos por Lula. Chamamos, neste sentido, uma grande jornada de luta, com paralisação nacional dos setores combativos, na primeira semana de agosto, preparando uma forte greve das categorias com data base em setembro, incluindo bancários, petroleiros, metalúrgicos e trabalhadores de Correios.
NÃO RECONHECEMOS A NOVA CENTRAL
Nós não reconhecemos o simulacro de votação de nova central que o PSTU, pateticamente, tentou votar ao final da plenária do Conclat. Uma pretensa nova central em comum com quem tinha se retirado, sendo que nem mesmo os então integrantes da Conlutas permaneciam ainda juntos.
A prova do fracasso do congresso e da fusão é que nem mesmo o site da Conlutas pôde anunciar a fusão, se concentrando apenas nas resoluções do Congresso da Conlutas e do encontro sindical.
Caso existisse essa nova central, a partir da incorporação daqueles todos que romperam antes da votação, nasceria uma central sem programa e princípios, com uma direção eleita pela cúpula, com pouco mais de 500 pessoas, onde as forças que restaram no congresso sequer puderam apresentar chapa para concorrer à direção da entidade, etc.
Agora, restaram a Conlutas e a Intersindical separadas e a primeira iniciativa para superar este baque sobre os ativistas que contavam com a fusão, é reconhecer esta derrota, sem mentiras ou fantasias, e tratar de reafirmar e reconstruir a unidade e o programa da Conlutas, que, na prática, também sai enfraquecida, mas ainda contando com um peso importantíssimo e uma total capacidade de recuperação.
Lamentavelmente, a direção da Conlutas segue dizendo que a Nova Central foi fundada, com o nome de Conlutas-Intersindical-CSP, mesmo sem a Intersindical dentro. A incapacidade e prepotência de uma direção não reconhecer seu erro, depois de ter transformado seu principal objetivo em um fracasso histórico, pode agravar ainda mais a situação, ao querer legitimar artificial e burocraticamente uma central que não existe.
SEGUIR NA LUTA POR UMA FERRAMENTA DE LUTA, ANTIGOVERNISTA, PELA BASE E SOCIALISTA
Nós seguiremos construindo a Conlutas, como sempre fizemos, mas enfrentando sua direção majoritária e defendendo que a unidade da classe trabalhadora e suas organizações pode e deve existir, desde que baseada num programa de combate ao capitalismo, aos governos e pelegos, com coerência, democracia e pela base.
A ausência desse programa levou à derrota o processo de unificação, e, se não for combatida internamente, vai conduzir a novos desastres. Apenas como reflexão, imaginemos o que teria significado um erro desse tipo e tamanho se aqui se tratasse de um processo como parte de uma situação revolucionária no Brasil, onde estivesse colocada a luta pelo poder dos trabalhadores.
Por isso tudo, os militantes do Movimento Revolucionário, que alertaram durante todo o congresso a manobra e erro que estavam sendo cometidos, acabamos cantando uma palavra de ordem em alto e bom som, que serve como inspiração para nossos novos desafios, bem como para ter a humildade de reconhecer que às vezes é preciso recomeçar de novo: “A derrota/ dessa fusão/ se recupera com programa e discussão”.
A partir de agora, é reagir com ainda mais lutas contra o governo e patrões, mais unidade entre os que verdadeiramente são combativos e reiniciar, com democracia e discussão política, aquilo que ainda é necessário em termos de fortalecimento e consolidação de uma nova direção para os trabalhadores.
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