Publicado em 28/11/2011

Polícia permanente na USP: prisões, intimidação e defesa da “ordem”

        O Brasil inteiro assistiu o desenrolar das manifestações que levaram à ocupação da Reitoria da USP por parte de estudantes da universidade, e a posterior retirada deles e identificação por parte da polícia.

Além do debate em si, quanto à exigência dos alunos de que a polícia não permanecesse mais no Campus, o que foi autorizado a partir de um convênio da Reitoria com o governo Geraldo Alckmin (PSDB), muito se discutiu sobre muitos outros temas, incluindo a ilegalidade das drogas, o direito à manifestação, etc.

O fato em si, porém, mostra que há uma incapacidade contínua de que se administre os espaços populares e universitários sem ter ao lado a força da repressão, da coerção e da intimidação.

Tudo já começa errado quando o reitor da USP, assim como todos os outros das universidades públicas, sejam as estaduais ou as federais, não é escolhido pelo voto direto de quem participa da universidade (estudantes, professores e funcionários). Em qualquer prefeitura, quem escolhe seu administrador é o povo do local; o mesmo valendo para os estados, países e qualquer outro cargo eletivo. Da mesma forma, elege-se o síndico do prédio, o grêmio estudantil, a direção do sindicato ou da entidade patronal. Mas não numa universidade, justamente o local por excelência do livre pensar, do saber e da reflexão.

A aparente contradição de que exatamente no ambiente que mais deveria servir para a reflexão livre a organização democrática haja tanto autoritarismo mostra a preocupação da classe dominante com que qualquer parcela significativa da população tome consciência e rompa com a ideologia burguesa que domina a sociedade. E isso se acentua neste momento em que os governos, sejam do PT (como o de Lula e agora Dilma) ou do PSDB (como o de Alckmin), assistem a um começo de assenso no Brasil.

Herança da ditadura

Com o golpe de 1964 e a ditadura militar, os governos bonapartistas ou semifascistas que se seguiram implementaram a  divisão dos estudantes e seu isolamento físico dos trabalhadores, a partir da construção de campi universitários afastados. Além disso, suspenderam o ensino crítico, influenciado pelo marxismo, determinaram o fim da liberdade de cátedra e a instituição de conteúdos controlados; além da consolidação e um sistema autoritário em torno das reitorias e movimento estudantil, com interventores do governo.

Produto deste entulho autoritário ainda são as eleições sem qualquer paridade para reitor, em geral valendo o sistema 70-15-15, correspondendo estes números aos percentuais, respectivamente, dos votos de professores, funcionários e estudantes. Além desta deturpação da representação universitária, a escolha do reitor ainda é submetida a uma lista tríplice, feita com os 3 primeiros colocados destas eleições fajutas, e cujo escolhido, mesmo assim, ainda pode ser até o 3º colocado.

Quer dizer: o movimento nunca conseguirá eleger um representante seu para uma reitoria por dentro deste sistema, já que teria que não apenas ganhar as eleições, mas ter outros candidatos que ganhassem os 2º e 3º lugares. O resultado é que, de uma forma menos explícita, todos os reitores ainda são interventores, como na época da ditadura.

Este foi justamente o caso do atual reitor da USP, em que o atual reitor, João Grandino Rodas , foi o 3º colocado, mas acabou indicado por Geraldo Alckmin.  Um reitor fraco, ilegítimo e que nunca se sentiu em dívida com a comunidade acadêmica, que nem o elegeu, e  sim com seu chefe, o governador Alckmin, a quem nutre uma fidelidade canina.

Com a falta de verbas sendo uma constante nas universidades, Rodas foi o ponto de apoio do governo em reprimir os estudantes e servidores da universidade, com salários arrochados e direitos ameaçados, o que os levou a inúmeras mobilizações e greves recentemente. Depois de um trágico assassinato de um estudante no campus da USP, numa tentativa de assalto, a reitoria deu o golpe final e estabeleceu o convênio repressivo com a PM paulista.

Mas os estudantes não aceitaram esta manobra, de trocar sua “segurança”, pelo fim do direito de lutar por melhorias na universidade e por se livre organizar. Isto foi o que levou ao conflito que levou à ocupação da reitoria, distorcidamente identificado na imprensa como sendo um protesto em defesa de três estudantes presos consumindo maconha.

Nem as drogas ilegais, nem a defesa da vida ou patrimônio dos estudantes está por trás da militarização da USP, e sim a política de criminalizar as greves e manifestações. É por isso que já houve dezenas de processos administrativos e disciplinares pela expulsão de alunos e pela demissão de funcionários da USP, incluindo diretores do Sintusp, o sindicato dos funcionários, numa clara intimidação e terror sobre o direito de greve e liberdade sindical. Agora, a bola da vez foram os estudantes.

Fora reitor! Por uma universidade livre.

Nós defendemos que os rumos da universidade sejam definidos pela maioria da população, que é quem deve definir o que deve ser ensinado, em que áreas prioritárias e com todos os recursos necessários; da mesma maneira que são os setores internos da universidade que devem definir o regramento cotidiano da vida universitária.

Na USP, nem estas medidas e nem qualquer outra, por mais mínima que seja, podem ser introduzidas com Rodas na reitoria. O reitor já tem as mãos sujas de gás e de cassetetes, utilizados para retirar os estudantes da reitoria e não tem mais condições de continuar no cargo. Em plena madrugada, aproximadamente 400 policiais do Batalhão de Choque invadiram (eles sim são os invasores) a reitoria, que legitimamente deve estar sempre à disposição de alunos e trabalhadores, e, agora, ainda se preparam os processos contra os lutadores - 70 estudantes, dos quais 24 eram mulheres.

A comunidade precisa se unificar com um programa que inclua a democratização da USP e que exija a demissão imediata do reitor!

 

Pela unidade de luta do ME. Comissão independente para analisar denúncias.

Um triste saldo da desocupação da reitoria foi a troca de acusações, incluindo questionamentos morais, supostas traições/conchavos com a reitoria. Integrantes do grupo de estudantes que esteve à frente da ocupação, ligados a grupos estudantis como a LER questionaram om papel de partidos como o PSOL e o PSTU, que teriam tentado negociar a entrega da ocupação com a reitoria, pelas costas dos fóruns do movimento. Estes partidos respondem com críticas à “degeneração” e calúnias da LER.

Diante de um ataque sem precedentes dos governo Dilma e Alckmin à educação e do reforço da militarização da USP, o movimento estudantil precisa se unificar e atuar em conjunto com os trabalhadores da universidade. Assim, defendemos que haja uma investigação independente, formada por uma comissão para esclarecer os fatos ocorridos, como todas as organizações envolvidas muitas vezes já defenderam para o movimento. E que este procedimento se faça junto da luta, que deve se manter e aprofundar através de uma grande campanha pela demissão de Rodas e por novas eleições, livres, diretas e com voto universal para um novo reitor.

 

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