Publicado em 14/02/2011

Continuar a revolução. Não ao exército! Por um poder das ruas, baseado nos organismos dos trabalhadores.

            Após o delírio da população com a vitória provisória da fase democrática de sua revolução, as pessoas que ficaram acampadas na praça dizem que só sairão quando o Comando Militar, que assumiu o poder no lugar de Mubarak, implementar reformas democráticas e econômicas profundas. É aí que começa o conflito que ou levará a novos enfrentamentos e à possibilidade da tomada do poder pelos próprios trabalhadores, ou levará a uma derrota da revolução.

            Uma revolução que conquiste vitórias quanto ao governo e ao regime, mas que seja abortada e impedida de derrubar o Estado como um todo, ou seja, ser uma revolução social, está condenada, mais cedo ou mais tarde, a ter revertidas todas suas conquistas, inclusive as democráticas e econômicas. E, ainda que inconscientemente, este dilema está se dando neste exato momento. O exército sabe disso, e a população começa a perceber.

            "Hoje começa uma nova República. Sou feliz", disse no dia vitorioso, na praça Tahrir, o jovem Mustafa Aid, que comemorava juntamente com dezenas de milhares de seus compatriotas a queda de Mubarak. Apesar da conquista, Aid afirmou que "o povo ficará na praça pelo menos hoje e amanhã para celebrar e para garantir que o Exército vai começar uma transição democrática". "O povo fez cair o regime", "O povo e o Exército são um", eram alguns dos lemas mais gritados pela multidão que tentava ter acesso à praça.

            Esta confusão ainda predomina no Egito nestes primeiros dias, com a expectativa de que talvez não seja mais preciso continuar a revolução com a mesma intensidade que teve até agora, já que o exército esta dizendo que garantirá as conquistas da revolução. As direções oportunistas do movimento e as manobras da burguesia levam a isso. Mas a experiência acumulada no processo de luta e as reivindicações ainda não atendidas, colocam a situação ainda sob indefinição. A luta pela revolução socialista ainda está aberta no Egito. Prova disso foram manifestações de bancários e de policiais civis que estão ocorrendo neste momento.

            Os militares declararam feriado bancário nesta segunda-feira em uma tentativa de desorganizar o movimento organizado da categoria. Segundo a agência de notícias Reuters, o comando militar deve proibir reuniões de sindicatos e organizações profissionais, proibindo na prática as greves, para forçar os egípcios a voltar ao trabalho.

            Muitos trabalhadores, no entanto, como os bancário e policiais a que nos referimos, estariam se sentindo encorajados pelos protestos a se organizar e protestar pela derrubada de chefes, a quem responsabilizam pelas grandes desigualdades de renda dentro das empresas.

            "Nós não queremos quaisquer manifestantes acampados na praça depois de hoje", disse neste domingo o chefe da polícia militar egípcia, Mohamed Ibrahim Moustafa Ali. Na manhã do domingo, centenas de policiais - uma das forças de segurança mais temidas pelos egípcios durante o governo de Mubarak - entraram na praça Tahrir, o que aumentou a tensão no local. Os policiais cantavam, hipocritamente: "é um novo Egito, o povo e a polícia são um só", semelhante a um grito de ordem bastante popular durante os protestos das últimas semanas no Cairo.

            A multidão, no entanto, gritou de volta: "vão embora, vão embora". Há um grupo bastante consistente de ativistas está localizado em um dos cantos da praça Tahrir, apesar das tentativas do Exército em remover as pessoas. O correspondente da BBC no Cairo Jon Leyne afirma que os soldados que estão na praça parecem indecisos sobre como reagir ao crescente número de manifestantes que se dirige para a área.

            Os veículos já trafegam com normalidade na praça, onde barricadas haviam sido erguidas durante os protestos e foram retiradas pelo exército, que teve de remover carros queimados que serviam de barreiras. As Forças Armadas mantêm tanques e veículos blindados nas ruas, principalmente em frente aos prédios do governo e de outras instalações importantes.

            Entre estas medidas, o exército teve que fechar o Congresso e suspender a Constituição, que era uma das bases de seu grande poder. Os militares também já prometeram suspender o Estado de Emergência, que vigora no país há 30 anos "assim que a crise acabar" e garantir uma eleição presidencial "livre e justa" em setembro.

As Forças Armadas também fizeram um apelo para que os manifestantes "voltem ao trabalho e à vida normal". Também afirmaram em comunicado: "Sabemos a extensão da gravidade e a seriedade dessas questões e das demandas da população para iniciar mudanças radicais. O Conselho das Forças Armadas está estudando esse cenário para alcançar as esperanças de nossa grande população."

 

 

 

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