Publicado em 14/03/2011

Guerra civil revolucionária na Líbia

Moradores de cidades do leste da Líbia, como Tobruk, celebraram a vitória sobre as forças de segurança. A oposição tomou o controle também de Misrata, que se tornaria a primeira grande cidade do oeste da líbia a sair das mãos do governo. Testemunhas disseram que a população estava comemorando com um buzinaço.

Os revolucionários têm o controle também de Benghazi, tendo inclusive invadido bases das forças de segurança e roubado armas. Para celebrar sua vitória, manifesfantes fizeram um buzinaço e marcharam gritando palavras de ordem como "longa vida à Líbia".

A cidade de Benghazi, a segunda maior da Líbia, localizada 1.000 km a leste de Trípoli, é o epicentro das manifestações que exigem o fim do regime de Kadafi, há mais de quatro décadas no poder e uma espécie de “capital” da revolução.

A província de Cyrenaica, no leste da Líbia, não está mais sob controle de Kadafi, e são soviets (conselhos populares) que administram o país. Musaid, Trobuk, Benghazi, Misrata, Khoms, Tarhounah, Zeiten, Zaouia, Zouara e al-Zawiyan foram tomadas pela revolução, que, apesar de ter momentaneamente parado de avançar, ainda impede que Kadafi retome o controle do país.

A batalha por Trípoli

Em Trípoli, a revolução não conseguiu ainda derrubar Kadafi, moradores temem deixar suas casas alegando que forças pró-Kadafi estão atirando aleatoriamente nas ruas e mercenários patrulham as ruas massacrando quem ousa protestar.

        Contudo, a luta prossegue com força. O prédio que servia de sede para um canal de televisão e uma rádio pública foi saqueado por manifestantes, onde delegacias e escritórios dos chamados “comitês revolucionários” de Kadafi foram incendiados, incluindo o da Praça Verde, cenário de violentos confrontos entre mercenários e opositores do regime.

        A programação do canal e da emissora de rádio ficaram fora do ar por mais de um dia. A Al-Jamahariya 2, segundo canal público, e a rádio Al-Shababia foram criadas por um filho de Muamar Kadhafi, Seif al-Islam, em 2008, antes de serem nacionalizadas, em mais uma fraude em que o governo compra emissoras de sua própria família.

        A batalha por tomar Trípoli segue indefinida, mas obteve um retrocesso momentâneo diante de um grau de violência descomunal. Kadafi aposta em acabar com a revolução, ou ao menos detê-la através do fascismo!

Testemunhas afirmaram que ocorreu um "massacre" na capital da Líbia, Trípoli, durante operações de repressão a manifestantes por forças de segurança do regime de Muamar Kadafi nos últimos dias. Aviões atiram contra civis que circulam pelas ruas, tanques e metralhadoras atiram contra quem sai às ruas e há um regime fascista na cidade. Com todas as letras!

"Eles não fazem distinção (entre civis e militares), estão atirando para limpar as ruas", disse à BBC News um morador de Trípoli. "(Os atiradores) não são humanos, não sei o que são.", "Vi uma mulher ser morta apenas por ter saído em sua varanda. Ela não estava fazendo nada, não estava protestando. Apenas olhou pela sua varanda. E minha esposa ouviu o barulho de aviões bombardeando as pessoas", acrescentou o mesmo morador.

        Moradores de um bairro da cidade disseram que há dezenas de corpos espalhados pelas ruas e que o número de feridos é alto. Mercenários, na maioria de outros países africanos, muitos deles com participação em crimes de guerra, estão patrulhando as ruas e abrindo fogo indiscriminadamente, inclusive contra equipe médicas.

        As cenas de mercenários e militares metralhando e bombardeando a população, a proibição de reuniões, atividades de qualquer natureza e até de sair ma sacada dos apartamentos, quanto mais às ruas, mostra um regime genocida, contra o qual não há luta legal praticamente possível. Só com armas e atuação clandestina se podem fazer ações de sabotagem, guerrilha urbana e de combate aos fascistas.

Comitês revolucionários militares e populares governam parte do país

O leste da Líbia vive hoje uma situação onde o governo, a Justiça, as leis, o exército oficiais líbios não têm mais autoridade nenhuma. E, no lugar deste poder burguês que desmoronou, quem governa, impõe regras ou leis, atua como Justiça em muitos locais e vigia e serve de exército é a população com armas na mão.

Em cada cidade libertada se formam comitês de trabalhadores que se reúnem para decidir tudo. Decidem boletins de informações para repassar à imprensa, decidem sobre a distribuição de comida, sobre a divisão de tarefas de defesa, sobre a segurança, o armamento, o funcionamento da cidade, etc.

Um jornalista do Jornal Zero Hora, que está na Líbia como correspondente, descreveu os organismos de poder popular como “conselhos à moda bolchevique”, e é de fato o que são. Comitês populares, chamados de soviets na Rússia, são expressão da classe trabalhadora que tomou o poder nestas localidades, e são o próprio poder popular.

Hoje há uma guerra na Líbia, que é uma guerra de classes aberta, opondo um poder velho, decadente, burguês, liderado por Kadafi; e um poder operário e popular, dos soviets líbios, que governa o leste do país.

A chamada “dualidade de poder” é um fenômeno recorrente das revoluções e acontece durante um período curto de tempo, pois é impossível que estes dois poderes convivam simultaneamente por muito tempo. Ou os trabalhadores toma o poder e instalam um regime dos conselhos, ou soviético (dos soviets), ou este poder popular é esmagado e a burguesia recupera o controle total do país.

Assim, a Líbia hoje expressa um revolução massiva, radical e de cunho socialista, sim, pelo que é reivindicado (salário, emprego, direitos democráticos, expropriação das multinacionais, etc.) e pelos métodos de luta e governo incipiente que já existe.

Um sintoma desta revolução que ocorre na Líbia é a clássica divisão das Forças Armadas. Se, como instituição burguesa, aliás a principal delas, as Forças Armadas não pode ser conquistada, no mínimo a divisão social pode causar estragos e fazê-las rachar. Neste momento, soldados desertam em massa no leste e cidades do oeste, muitos deles inclusive se tornando instrutores de guerra à população.

O lado líbio da fronteira egípcia está sob controle da revolução, por exemplo, e são rebeldes armados com cassetetes e fuzis Kalashnikov que saúdam visitantes do Egito. Até o exército do Egito disse que os guardas líbios da fronteira fugiram e que "comitês populares" (soviets) controlam a fronteira.

Os revolucionários e trabalhadores de todo o mundo têm o desafio de fazer vitoriosa a revolução líbia. Desta vitória, toda a correlação de forças mundial entre as classes sociais em luta seria modificada. O imperialismo sofreria uma derrota imensa, o capitalismo sofreria um duro golpe, com o fornecimento de petróleo e seus negócios ameaçados, e as massas de todo o mundo teriam um impulso revolucionário incrível, ficando provado que além de revoluções, as massas podem ganhá-las e governar por si mesmas.

Hoje, e cada dia mais, somos todos líbios!

 

 

 

 

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