As saídas possíveis para a Líbia
A imprensa como um todo, os governos e as próprias organizações políticas da esquerda reformista tentam apontar apenas duas saídas para a Líbia: o caos político (que pode significar um impossível governo islâmico, ou a divisão do país a la Iraque) ou a consolidação da democracia burguesa, para a qual todos os esforços deveriam ser empregados. Mas a realidade mostra que não são apenas essas as saídas. E que, de toda forma, o imperialismo já está derrotado.
Ainda que, contraditoriamente, o imperialismo, através da França, EUA e OTAN, principalmente, tenham colaborado decisivamente para a queda de Kadafi, o melhor regime para a burguesia internacional era o que existia sob as ordens do ex-ditador, em que os lucros das multinacionais petrolíferas eram garantidos à base de mortes e de um controle totalitário. É muito mais fácil para as grandes potências explorarem as riquezas de um país dessa forma, sem a possibilidade de greves, convulsões sociais, luta por direitos salariais e trabalhistas, etc. E era isso que Kadafi garantia.
Mesmo que por muitos anos Kadafi não tenha compactuado com o imperialismo, isso se dava não por alguma defesa dos trabalhadores, mas por querer se apoiar na burguesia nacional da Líbia e se localizar como liderança da região num determinado momento de ascenso político revolucionário, em que bater de frente com o imperialismo era uma necessidade para não perder totalmente o controle para a população. O famoso “vão-se os anéis, ficam os dedos”. Mas, mesmo esta animosidade parcial, que nunca levou a nenhuma ruptura com o capitalismo, expropriação da burguesia ou qualquer forma próxima de um Estado operário, há muito tempo já não existia.
Nos últimos 10 anos, Kadafi era o principal aliado da Itália na região, e tinha reestabelecido plenamente seus negócios e acordos com os EUA, França e todos os demais países imperialistas. Chegou ao ponto de o governo líbio ter ações de times de futebol italianos, como a tradicional Juventus; e de Kadafi ter contribuído com a campanha de Sarkozy na França, como ele mesmo revelou.
Assim, a queda de Kadafi é uma derrota do imperialismo e de seus interesses na região, pois acrescenta um cenário imprevisível onde antes tudo estava garantido. Ainda que, de fato, prevaleça uma democracia burguesa, amistosa aos interesses das multinacionais, a vitória democrática, que seja, da revolução armada dos trabalhadores, vai impor uma nova situação de reivindicações e protestos que manterão o novo governo, seja ele qual for, desestabilizado.
Quem derrubou Kadafi foi a revolução árabe, que fez com que entrasse em cena uma luta muito forte, da maioria da população, dos trabalhadores e soldados que desertavam. E, exatamente por isso, o programa da revolução não pode ser atendido por nenhum governo que não seja um governo socialista e operário. A democracia burguesa, incensada como a “salvação” da Líbia, não pode nem prover salários, nem direitos, nem sequer a democracia real que as massas esperam obter agora, depois da derrubada do ditador que as massacrou por 42 anos.
A “democracia” capitalista prevista para a Líbia vai levar ao mesmo lugar que levou no Egito: lugar nenhum! No Egito, apesar da derrubada revolucionária de Kadafi, o sistema capitalista se manteve, pois a estrutura e a propriedade no Egito se mantiveram nas mesmas mãos. É isso que precisava ser diferente na Líbia.
A revolução que ocorre na Líbia e no norte da África é produzida por forças tão poderosas e uma energia de luta tamanha que é possível que, assim como ocorreu na Rússia de 1917, após o “fevereiro” que derrubou o czar, venha um “outubro” que coloque os trabalhadores no poder. Esta é a luta atual no Egito e Tunísia, que já tiveram seus fevereiros vitoriosos. E é esta a luta na Líbia. Manter a revolução, de forma permanente, e imediatamente, continuá-la como um revolução socialista vitoriosa, a única forma de atender ao que realmente esperam as massas líbias.
A miséria, o desemprego, que está em 30%, e a falta de liberdades, para serem resolvidos, dependem da generalização dos soviets (conselhos populares) líbios. Por isso, é necessário construir uma direção política revolucionária autêntica.
O CNT (Conselho Nacional de Transição), que busca constituir um governo com figuras da oposição, incluindo alguns ex-ministros que romperam com Kadafi em meio ao processo revolucionário, numa tentativa de diminuir a participação popular nos processos, não pode ser esta direção.
A grande ilusão que vendem é a de que, sob os mesmos contratos e estrutura econômica atual podem governar a Líbia a serviço da população. O que é o mesmo que esperar que Dilma, no Brasil, Obama, nos EUA, ou qualquer outro governo “democrático” elimine o desemprego e a miséria ou solucione os problemas sociais. Essa, sim, é uma saída utópica! Que em 150 anos de social-democracia e reformismo nunca pôde ser obtida em lugar nenhum.
Na Espanha temos o maior exemplo atual de falência da democracia-burguesa. Através de uma luta fortíssima, num país já “democrático”, mas onde as pessoas saem às ruas exigindo a “democracia real”, já que a que existe é uma farsa.
Uma saída do tipo fascista não é possível para a burguesia, diante da radicalização das massas no mundo inteiro; vide as ocupações desastrosas do Iraque e Afeganistão e os golpes militares rechaçados como o de Honduras. Hoje em dia, as ditaduras caem e os governos democráticos que as substituem também vivem uma crise política. A crise econômica não poupa regime nenhum e a crise histórica e crescente do capitalismo leva a burguesia a um beco sem saída.
Os trabalhadores, no entanto, têm saída. E não precisam fazer nada de muito diferente do que já iniciaram na Líbia, ao tomarem armas para impor seu próprio futuro, e terem governado a si mesmos através de conselhos populares em muitos locais. O que falta é a unificação e aprofundamento desse processo, o que só pode se dar por meio de uma direção revolucionária.
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