Publicada em 15/09/2009

Atleta identificada como hermafrodita é vítima de opressão e racismo.

A campeã do mundo nos 800m Caster Semenya foi identificada como hermafrodita. A atleta sulafricana e negra precisou realizar teste de feminilidade no Mundial de Berlim e apresenta níveis elevados de testosterona no organismo. Conforme um jornal australiano, a atleta passou por exames que detectaram a ausência de útero e ovários, e a existência de testículos internos, responsáveis pela produção de testosterona.

A Associação Internacional de Atletismo (IAAF), controlada por membros de países europeus, chegou a cogitar retirar o título de Semenya e vetá-la em competições futuras em razão de sua condição. A entidade também recomendaria que a atleta de 18 anos fosse submetida a uma cirurgia.

Seriam decisões escandalosas, mas que não apenas foram debatidas, como são defendidas por amplos setores de jornalistas e dirigentes de países ricos, inconformados com suas constantes derrotas e inferioridade diante das conquistas das atletas negras.

Depois dos protestos internacionais, mas não sem antes expor e humilhar a jovem de 18 anos, a IAAF foi amenizando o discurso, primeiramente se esquivando sobre qualquer decisão: “O resultado do teste de sexo será examinado por um grupo de médicos especialistas. Nenhuma decisão sobre o caso será divulgada até terminar essa investigação.”. E, um dia depois, o porta-voz da Federação Internacional de Atletismo, Nick Davies, afirmou que Semenya não irá perder a medalha de ouro conquistada em Berlim.

“Essa é uma questão médica e não doping, o que caracterizaria uma trapaça dela. Esses testes não sugerem nenhuma suspeita de má conduta, que daria uma vantagem a Semenya sobre as adversárias. Não há uma desqualificação de resultados em casos desse tipo”, disse Davies. Este reconhecimento é o mínimo que se esperaria, mas não repara as agressões e ataques que a atleta sofreu neste período.

Ao mesmo tempo, o secretário-geral da IAAF, Pierre Weiss, disse que a entidade divulgará o documento final sobre o caso somente em novembro, após consultar Semenya, mas deixou no ar uma proibição ao dizer que:

“Nós não temos uma legislação específica para esse assunto, como acontece com o doping. Não há nada que possa nos indicar que decisão tomar em casos desse tipo. Mas está claro que ela é uma mulher, mas talvez não seja 100%. Temos de verificar apenas se ela pode ter uma vantagem no esporte por ficar entre os dois sexos”.

Não há vantagens em ser “pseudo-hermafrodita”. Semenya é vítima de racismo

Na verdade, não há hermafroditismo neste caso, e sim pseudo-hermafroditismo. No hermafrodita, precisaria ter tanto ovários como testículos (logo, produção de óvulos e espermatozóides), e os órgãos genitais externos seriam uma combinação dos órgãos masculino e feminino.

No caso da atleta, ela é, no máximo, pseudo-hermafrodita, ou seja, há a predominância de um sexo, feminino na situação se Semenya. O pseudo-hermafroditismo é uma anomalia genética, que nasce com a pessoa, portanto, e pode ser de diferentes tipos, mas se caracteriza por uma pessoa apresentar órgãos masculinos e femininos, simultaneamente.

A ciência, e a prática e lutas sociais dos trabalhadores, já trataram de identificar que a o ser-humano e sua identidade sexual e de gênero são muito mais complexas que a questão meramente genética. É por isso, por exemplo, que defendemos que os transsexuais sejam considerados e tratados de acordo com o sexo com o qual se identificam. Assim, mesmo que tenha nascido com um corpo de homem, uma criança pode se sentir, sem que isso seja uma doença ou uma depravação, uma mulher.

Esta pessoa tem todo o direito de ser tratada e considerada como uma mulher, devendo receber toda a assistência médica e psicológica necessária, além de defendermos que possa trocar seu nome, e passar, efetivamente, a ser uma mulher, socialmente.

Dessa forma, é um absurdo querer estender parte dos direitos das mulheres a uma pessoa que nasceu num corpo masculino, mas não estender outros.

Muito mais absurdo, é querer se restringir os direitos de mulher e de qualquer ser-humano, ao esporte, à privacidade, e ao respeito, de uma menina, que sempre foi mulher, e assim quer ser tratada.

A família de Semenya, ao invés de ficar envergonhada com a menina, como poderia acontecer num continente marcado pelo conservadorismo e opressão à mulher, protestou contra as possíveis punições e mostrou que tem orgulho da garota: “Por que o ciúme leva as pessoas a dizerem coisas tão ruins?” perguntou a mãe dela, Dorcus Semenya. E ainda disse: “Eu a criei desde que era uma menina e não tenho dúvida de que é mulher.”

Este é o caso. Ela sempre foi mulher, foi tratada assim, e se sente dessa forma. Semenya não sai em “vantagem” por ser pseudo-hermafrodita. Isso com certeza sempre lhe causou embaraço, constrangimento e vergonha. Ela nunca vai poder ser mãe, e sempre foi “diferente” por onde passou. Ela já foi vítima de muito preconceito e dificuldades, e agora está sendo exposta publicamente no mundo inteiro.

Além de pseudo-hermafrodita, Semenya é vítima de preconceito por ser pobre,de machismo por ser mulher, e de racismo por ser negra. É isso que, com certeza, está por trás do furor com que se condena a atleta nos meios de comunicação dos países ricos. Já houve outros casos na História, de outros atletas assim, mas que não foram tão perseguidos.

Todos os trabalhadores e socialistas devem defender o direito das pessoas sexualmente diferentes a quem sejam tratadas de forma respeitosa e que tenham acesso ao tratamento ou intervenções que queiram, para se sentirem melhor. Independente disso, porém, elas devem ter os mesmos direito de todas as outras pessoas, sem serem vítimas mais uma vez.

 

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