Publicada em 10/06/2008

Quanto vale ganhar um sindicato?
As más companhias da Conlutas e o exemplo do CPERS

No dia 25 de junho, os CPERS Sindicato (Sindicato dos trabalhadores em educação do Rio Grandes do Sul) realizará eleições para a direção geral da entidade e para cada um dos 42 núcleos regionais. Tratam-se de 86 mil associados e de 3 mil escolas, o que faz do CPERS um dos maiores sindicatos do Brasil. Além da enorme base, o sindicato tem uma trajetória de luta muito forte, com o histórico de ter sido a oposição mais ferrenha a quase todos os governos estaduais. Suas greves e mobilizações servem de exemplo para diversas categorias de trabalhadores.

Mas, as eleições de 2008 trazem um fato novo e muito sério ao inverter completamente a coerência e o compromisso dos lutadores dentro da categoria. Simplesmente, a situação governista, cutista e traidora, se dividiu, simulando terem projetos políticos diferentes, enquanto só divergem na disputa pelo aparelho do sindicato. De um lado, ficou a CUT, com a Articulação – PT; e de outro ficou... a CUT também, com a DS, Articulação de "Esquerda", Esquerda Democrática (todas do PT) e outros apoiadores burocráticas e inimigos dos trabalhadores.

O incrível disso tudo é que a oposição feita pela Conlutas, e que até agora sempre foi uma alternativa aos lutadores, não inscreveu chapa. Além de ter se unido à Intersindical, que não rompeu definitivamente com a CUT e expressa um método burocrático e oportunista onde atua, a Conlutas dessa vez foi ainda mais longe.

Dirigida pelo PSTU e PSOL em professores, mas também com a concordância do CEDS (grupo regional que muitas vezes expressa críticas importantes à condução da Conlutas), a oposição resolveu cumprir um triste papel de ala esquerda da Chapa cutista.

Depois da teoria reformista de "campo burguês progressivo", aplicada pelo PCdoB, PT e recentemente pelo PSOL, que saem à procura do "bom burguês" em toda eleição, o PSTU/PSOL inventaram o "campo cutista progressivo". A justificativa para a apoiar a Chapa cuja presidente é da CUT, cujo programa é em colaboração com o da CUT, e que diz "somos a chapa da CUT", para em seguida dizer que também é a Chapa da Intersindical e da Conlutas, é que apoiar isso tudo ajuda a mobilização.

Isso, além de um escândalo, é um raciocínio estapafúrdio, anti-operário e imerso até o último fio do cabelo no mais grosso oportunismo. Dizer que a contradição disso é da CUT e do PT, que encabeçam a chapa, é um atentado à inteligência. É o mesmo argumento sem sentido que usa o PSOL, quando diz que ao aliar-se com o PV (partido burguês), a "contradição" é deles. Imagina se o PV ainda fosse o cabeça de chapa?

Yeda, o desmonte da Educação Pública e as necessidades dos trabalhadores em Educação!

A educação pública do Rio Grande do Sul nunca foi tão atacada como no Governo de Yeda Crusius. Além do arrocho salarial e das péssimas condições de trabalho dos educadores, o Governo fechou escolas e juntou diversas turmas, que ficaram superlotadas. Yeda fez com a Enturmação o mesmo que Lula quer fazer com o Reuni: piorar a qualidade do ensino e aumentar o trabalho de professores e funcionários.

Nesse sentido, a principal necessidade dos educadores gaúchos passa por construir grandes enfrentamentos contra o Governo da Yeda e seu projeto de destruição da educação pública. Mas é preciso deixar claro que o PT está junto com o PSDB para defender os grandes empresários e privatizar a educação a nível nacional, e ajuda Yeda a destruir a educação também no RS.

Quando esteve no governo do estado, o PT arrochou salários, bateu em manifestantes e sucateou a educação. Quem dirigia o governo petista e chefiava a Secretaria da Educação era o grupo de traidores que hoje é apoiado pela Conlutas. A maioria do PT gaúcho é da DS, que dirigia o governo Olívio Dutra. A educação estava nas mãos de Lúcia Camini, algoz dos professores e que é da AE, corrente que hoje dá as mãos ao PSTU e PSOL na categoria.

Caso a Frente Popular seja eleita em 2010 para o estado, ou se houvesse eleição antecipada agora, como defende o PSOL e PSTU, por conta da crise de corrupção do governo Yeda, seria a DS quem, muito provavelmente, assumiria e destruiria a educação. O sindicato, neste caso, seria o braço do governo para arrebentar com os trabalhadores e a Conlutas estaria participando desta traição.

Considerando que o CPERS é dirigido pela CUT, ligada ao Governo Lula, os trabalhadores em educação precisam lutar contra essa direção da mesma forma e ao mesmo tempo em que lutam contra os ataques de Lula e Yeda à educação, pois são parte da mesma política de ataque aos trabalhadores. A direção cutista não é capaz de lutar até as últimas conseqüências contra Yeda, exatamente porque a nível nacional o PT e o PSDB estão juntos. Sendo assim, somente derrotando a CUT na categoria é possível lutar contra Yeda e contra qualquer governo que ataque a educação pública.

 Quando se distorce a realidade para justificar uma política oportunista

O normal, para quem tem compromisso com as necessidades da classe trabalhadora, é fazer uma análise da realidade para, depois, a partir de observação, definir quais as táticas a serem usadas de acordo com as necessidades dessa realidade.

Assim, entendemos que Lula governa para os empresários e banqueiros, que a CUT não defende mais os trabalhadores e que, tanto CUT, como Lula e Yeda, precisam ser derrotados. O papel da Conlutas é o de fazer avançar a consciência dos explorados e preparar a luta, impulsionar a ruptura das entidades com a central governista e lutar por outra sociedade, em que os próprios trabalhadores governem.

Ao apoiar a CUT, a Conlutas fortalece o inimigo e não a si própria.  A mensagem ilusória que passa é a de que pode haver soluções comuns com a CUT, que o problema é uma "banda podre" dela e que outro setor pode ser disputado, é progressivo, etc. Isso é um discurso mais à direita que o da própria Intersindical. Essa posição desmoraliza a Conlutas, confunde os trabalhadores e joga ainda mais peso nos argumentos de quem acha que "todos têm seu preço, no final sempre saem abraçados, todos querem cargos, etc."  

Durante um tempo, para justificar sua capitulação ao PCdoB, a direção da Conlutas, encabeçada pelo PSTU, mentiu aos trabalhadores, querendo convencer que o PCdoB estava vindo para a esquerda. Agora, mais uma vez, setores da Conlutas primeiro resolvem o que querem fazer: neste caso, se juntar a CUT para ganhar a eleição. Depois, fabricam argumentos teóricos e justificativas, para tentar montar alguma lógica nesta política desastrada.

Luta antifascista ou Frente Popular?

Existem algumas situações onde um sindicato é dirigido por um setor mafioso, de direita, semi fascista, que frauda eleições, ameaça e tenta matar os dirigentes da oposição. Isso ocorreu, por exemplo, no sindicato dos Municipários de POA (SIMPA). A partir desse cenário é correto construir uma unidade entre a Conlutas e qualquer setor que defenda a democracia sindical.

Isso não quer dizer fazer chapas comuns, o que exige, além de acordo sobre um ponto específico, que é a realização de eleições limpas, um programa. Mesmo nestes casos, não há acordo com o governo e os traidores, ou uma corrente burguesa para construir qualquer alternativa classista na categoria.

Mas, é possível, fazer unidade de ação numa comissão eleitoral, acordos pontuais ou, em casos mais sérios, até mesmo chapas comuns, desde que restritas à tarefa de reabrir o sindicato à base. Foi um acordo deste tipo que ocorreu nas eleições para o Simpa. PT, PSOL, PSTU e CEDS formaram uma chapa com o compromisso de varrer a máfia e chamar eleições logo em seguida. Isso, infelizmente, não aconteceu.

De qualquer forma, o quê isto tem a ver com o que se passa no CPERS? Nada. Absolutamente nada! No Simpa, com a unidade contra a máfia, poderia ter sido mais fácil avançar a consciência dos trabalhadores contra a própria CUT, para logo depois, disputar uma eleição democrática em chapas distintas, com programas distintos, contra a CUT, que, ao nível da luta de classes brasileira é muito mais inimiga dos trabalhadores que a soma de 100 máfias regionais e dispersas.

Mais uma vez: o que isto tem a ver com o CPERS? 

Os companheiros da maioria da Conlutas, ligados ao PSTU, argumentam que o caso do CPERS é igual. Para eles, existe a Articulação Sindical, que está destruindo com o CPERS, e existem outros setores da CUT, como a DS, que são progressivos e que para derrotar a suposta máfia da Articulação seria necessário coligar com esses outros setores da CUT.

Agora perguntamos: a principal tarefa da categoria é derrotar um grupo mafioso, que ameaça e atenta contra a oposição, para assegurar o mínimo de democracia na entidade? Não! Não é esse o cenário do CPERS.

Por mais governista, traidora e burocrática que seja a atual direção do CPERS, ainda há possibilidade de se disputarem eleições de forma segura, em que cada chapa faz a sua campanha sem, com isso, ser ameaçada de morte. A direção da Conlutas, conscientemente, exagera nas cores "democráticas" da eleição para sumir com a disputa política. É exatamente o que sempre fizeram os etapistas, os stalinistas e outras versões da degeneração política no movimento sindical.

Nós, do Movimento Revolucionário, nos enchemos de vergonha pela posição da Conlutas nesta eleição. Se esta lógica, aplicada no CPERS, prevalecer no conjunto do país, a Conlutas deixa de fazer sentido, pois será apenas uma marionete de esquerda para ajudar a enganar os trabalhadores e destruir com sua organização independente e anti-governista.

É possível ter um programa bom para os trabalhadores e para o Governo ao mesmo tempo?

O grande problema nessa história é justamente que não se trata de uma unidade pontual com setores que são ligados ao Governo Lula. Isso pode ser feito. Por exemplo: uma mobilização contra o aumento das passagens de ônibus, uma luta contra a Enturmação da Yeda ou uma chapa sindical que se proponha a derrubar uma máfia com traços fascistas para garantir o mínimo de democracia no sindicato, etc. Uma unidade assim, pontual, pode ser feita com todo mundo.

Mas não é possível que formemos uma chapa, com todo um programa político de gestão, junto com a CUT governista. Isso é uma traição, pois a CUT não é apenas uma central pelega. Pior do que isso, a CUT nem pertence mais aos trabalhadores, uma vez que é sustentada política e financeiramente pelo governo burguês de Lula. A Conlutas, quando se junta com o grosso da CUT no RS, com aqueles que chefiaram o governo do PT, está se juntando ao patrão, aos que retiraram salário e espancaram os trabalhadores.

Não existe como o programa dessa chapa ser bom ao mesmo tempo para os trabalhadores e para o governo. Isso é impossível. As coisas são boas para uma classe ou para a outra. E é obvio que a contradição dessa chapa, assim como todo o prejuízo político, é da Conlutas. Pois não é contradição nenhuma a CUT lutar contra a governadora Yeda. A CUT pode inclusive criticar alguns pontos do Governo Lula como a Reforma da Previdência. Isso não significa nada.

Os governistas são obrigados a criticar algumas questões do Governo, exatamente pra fingir que o governo está em disputa, que é possível que ele passe a governar integralmente para os trabalhadores. É quando se critica para, na verdade, gerar ilusões e justificar a sua opinião política.

Nesse sentido, O Movimento Revolucionário está categoricamente contra essa chapa conjunta entre a CUT e a Conlutas, pois essa política parte de uma disputa de aparato dentro da própria CUT (disputa essa que fez a DS se descolar da Articulação).

O programa da chapa não corresponde às necessidades dos trabalhadores em educação, uma vez que é aceito pela DS, e porque o objetivo dessa aliança é ganhar a direção da entidade a qualquer custo, independente do que é melhor ou pior para a categoria.

O processo eleitoral da entidade deve servir para que se debata quais as tarefas e necessidades do movimento hoje, para ganhar os trabalhadores para a luta e ruptura com o governo e seus capachos. Opinamos que o mais importante não é simplesmente ganhar uma entidade, como se isso fosse um fim em si mesmo.

Se, para ganhar a direção do sindicato for necessário apresentar um programa de gestão que não serve para nada, e ainda joga uma água fria na compreensão dos trabalhadores da necessidade de romper com a CUT, nós somos contra! Queremos, sim, fazer um amplo debate na categoria sobre a necessidade de derrotar a burocracia da CUT para avançar a luta em defesa da educação.

Não nos resta alternativa senão dizer para que os trabalhadores não votem em candidato da CUT nesta eleição. Nem da CUT 1, nem da CUT 2, por mais valorosos e bem intencionados que sejam os simpatizantes e apoiadores de qualquer uma delas.

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