Publicada em 13/10/2009

Fraude no ENEM: um problema a mais dentro de uma proposta de ataque à educação

            4,1 milhões pessoas no Brasil pretendiam prestar as provas do ENEM que aconteceria nos dias 3 e 4 de outubro. Dois dias antes de se realizarem as provas, o Ministério da Educação anunciou que elas estavam adiadas, pois havia ocorrido vazamento das provas, o que comprometia completamente a seleção.

Com isso, o ENEM foi adiado para os dias 5 e 6 de dezembro. Nessa data ocorrem, ao mesmo tempo, provas de vestibular em diversas universidades. Isso gerou uma indignação em grande parte da população, principalmente nos estudantes que vão ter de optar, em muitos casos, ou apenas pelo vestibular de uma universidade específica, ou pelo ENEM, que lhe permitiria escolher outras instituições.

            Depois de descoberto o roubo de uma cópia da prova, vieram à tona fatos que indicam que já existiam problemas desde o início da organização do exame. Como, por exemplo, o fato de haver muita desinformação sobre o local de realização da prova, etc.          Mas estes são os problemas mais visíveis, porém menores, de um exame com muito mais aspectos negativos. Ao anunciar o "novo ENEM", o governo Lula fez festa, vendendo a idéia de que com isso estava dando um grande passo em relação ao ensino superior. A mentira contada era de que, por meio desta prova, se facilitaria o acesso à universidade.

Mas a realidade mostra que o ensino público, se mudou, foi pra pior. O ENEM hoje em algumas universidades tem caráter de vestibular; em outras ele é apenas um pequeno percentual, ou 1ª fase do processo. Foi apenas isso que mudou: a instituição de uma prova federal única, que, inclusive, despreza a diversidade regional, passa uma visão que privilegia a História, a geografia e a literatura apenas dos principais centros, além de ser muito mais suscetível a fraudes, erros e confusão.

O número de vagas segue o mesmo, o que exclui os trabalhadores e grande parte da juventude do ensino superior. A possibilidade de, pelo ENEM, se poder escolher entre até 5 faculdades facilita a vida de quem tem condições financeiras de mudar de cidade, disputar cursos mais difíceis, e, se não for aprovado, ficar com outra vaga, que não será mais daquele estudante que já se inscrevia para cursos onde sua chance era maior.

Pela universalização do ensino superior

            Isso mostra também que o Estado é incapaz até mesmo de vender suas ilusões de forma eficaz. A educação, no capitalismo, é um meio de garantir o benefício de grandes grupos empresariais privados, assim como garantir a instrução preferencialmente à parte da classe média e aos ricos. Com o novo ENEM tudo isso permanece, e inclusive se acentua.

            Com a revelação desta fraude, muitos tentam achar apenas um culpado: aquele que roubou a prova, dando a entender que o problema foi a má intenção e a ganância de poucos indivíduos. Nós, ao contrário, achamos que se deve apurar, responsabilizar e principalmente punir todos os culpados, mas o maior responsável por isso é o governo. Entendemos que, emergencialmente, o ENEM devia ser cancelado, até que se possa abolir a terceirização de quem confecciona as provas, que devem passar para a responsabilidade do próprio Estado.

No entanto, a única forma de impedir que outras fraudes ocorram (e certamente acontecem – essa foi apenas a que foi descoberta) e de acabar com o desespero das reprovações de estudantes com vontade  e capacidade para seguir estudando,é o fim do vestibular. É preciso universalizar o acesso ao ensino superior a todos os que querem estudar. O país desperdiça tempo, formação e recursos ao impedir que milhões de jovens possam ingressar nas universidades, ou fiquem reféns do ensino pago.

O governo Lula vem investindo mundos e fundos para salvar a burguesia. Deu bilhões de reais para os banqueiros, desde o inicio da crise econômica mundial; gasta na compra de aviões caça; para sediar as olimpíadas; fora os gastos em viagens para inaugurar obras do PAC (a maioria delas que nem começaram, diga-se de passagem). Se Lula tem verba para isso, diante de tamanho descaso com a educação pública, com certeza há dinheiro para aumentar as vagas disponíveis a todos, a começar pela estatização do ensino privado, que hoje é um dos comércios mais lucrativos do país e preciso ser encampado, a serviço dos trabalhadores e estudantes, como forma de universalizar o ensino superior.

 

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