Publicada em 08/08/2008

“DESCOBERTA” RELAÇÃO ENTRE PT E FARC-EP DA COLÔMBIA: QUEM ERAM OS ANTIGOS E QUEM SÃO OS NOVOS ALIADOS DO PT E DA GUERRILHA?

            A partir de reportagem da Revista Cambio, da Colômbia, se gerou um grande debate sobre a relação existente entre a guerrilha colombiana das FARC e o Partido dos Trabalhadores (PT), do presidente Lula, do Brasil. A revista se baseia nas informações recolhidas dos computadores dos militantes das FARC assassinados pelo exército colombiano e pelos Estados Unidos, no episódio em que foi morto o chefe das FARC, Raul Reyes.

                Nos e-mails recolhidos, fica clara a relação amistosa e de aliados entre os líderes das FARC e integrantes do governo Lula, deputados do PT e representantes da cúpula do partido. Essa “revelação” alarmou a burguesia e os jornalistas reacionários no Brasil e no mundo. Com isso, depois de entregar poços do petróleo brasileiro às multinacionais, privatizar ações do Banco do Brasil, arrochar os trabalhadores e fazer os banqueiros terem seus mais altos lucros da História, Lula agora é acusado, depois de muito tempo, novamente de “comunista”. Seria cômico se não fosse trágico.       

PT e FARC: amigos entre si, mas mais ainda dos empresários

                A relação do PT e das FARC não é nenhuma novidade. Quando a direita fascista acusa o famoso “Foro de São Paulo”, como uma conspiração comunista na América Latina, só em uma coisa ela tem razão: as FARC e o PT sempre foram aliados e compartilharam o mesmo projeto político, comum neste Foro.

O que a direita não se preocupa em saber, ou melhor; que faz questão de distorcer e mentir, é que tipo de política defendia o tal Foro de São Paulo.

                O FSP, na verdade, foi um ensaio geral para o que veio a ser o Fórum Social mundial, alguns anos depois. Tanto um como outro eram a combinação de partidos completamente eleitoreiros e oportunistas, aliados dos empresários e financiados pelos banqueiros, como o PT do Brasil, Frente Ampla no Uruguai,etc.; com guerrilhas social-democratas e governos capitalistas latino-americanos. O FSM foi o Fórum de apoio ao presidente Lula que retirava direitos na reforma da Previdência; é o Fórum da conciliação de classe com os empresários ecológicos e o “bom burguês”, o “bom imperialismo” e o “bom traidor dos trabalhadores”, figuras que não existem na realidade, mas eram cultuadas nestes fóruns.

                O FSP, seu antecessor, tinha uma cara mais “radical”, só porque não reunia público, e sim militantes. Mas os dirigentes e seus projetos eram os mesmos: os sandinistas e a Frente Farabundo Martí, obcecados em ganhar votos na Nicarágua e El Salvador; os PCs do Chile (partido que apoio Allende,e seu governo democrático-burguês até 1973, mesmo com Pinochet como chefe das Forças Armadas) e de outros países, todos social-democratas; o PC cubano, que restaurou o capitalismo em Cuba, como fez o PC chinês; e assim por adiante.

No Brasil, os representantes eram o PT, o PCdoB e o PCB. Sem comentários, portanto... Afora o PSOL e o PSTU, que hoje coligam com o PCB e o chamam de “esquerda”, todos sabem que o PCB apoiou o governo Lula, e é completamente reformista. O PCdoB e o PT já são de direita mesmo, sendo pagos e compostos, em sua direção, por empresários e seus funcionários.

                A relação das FARC com o PT, portanto, é mesmo antiga. Tão antiga que, na época, o PT já era traidor, mas ainda não tinha se coligado com ACM, Maluf e Delfim Neto. Mas essa amizade antiga sempre se deu para combater a revolução e o socialismo verdadeiros; sempre se deu para construir uma organização internacional, como foram o FSP e o FSM (ambos hoje falidos), a serviço de um capitalismo humanitário e “menos ruim”, mas que mantivesse a desigualdade entre classes e a exploração. O governo Lula do PT mostra bem o resultado dessa estratégia. 

Mais uma vez: quem são as FARC

Ao contrário do que se pensa, as FARC não são socialistas, muito menos revolucionárias. Isso se concordarmos que revolucionário não é quem diz ser revolucionário (como Chávez, Miguel Rossetto-PT ou até mesmo figuras do PMDB, pertencentes à gangue do MR-8). Nem essa gente é revolucionária, nem Ciro Gomes é socialista, mesmo estando no PSB. Ser um revolucionário socialista pressupõe entender que o mundo é marcado pelo conflito de classes irreconciliáveis, inimigas uma da outra: a burguesia como exploradora e os proletários como explorados.

Os marxistas, desde o próprio Marx e o Manifesto Comunista, e, mas tarde, os revolucionários, e o partido Bolchevique, com Lênin e Trotski à frente, deram suas vidas para educar os trabalhadores nessa concepção. Isso não é sequer uma ideologia, ou opinião política, simplesmente, mas uma compreensão científica dos processos sociais e das leis da História, alicerçada no materialismo e na dialética.

Mas o socialismo científico e a revolução sempre tiveram, além de inimigos declarados, correntes que combatiam a revolução chamando-se exatamente de socialistas e revolucionários. Os anarquistas chamaram-se de socialistas para melhor sabotar a I Internacional. Os mencheviques e social-democratas do mundo inteiro, defendendo o reformismo, ou o centrismo, chamaram-se socialistas e revolucionários, inclusive, para melhor destruir o caráter de luta e internacionalista da II Internacional. E, por fim, os maiores criminosos dentro do movimento operário, os stalinistas, levantavam pôsteres de Lênin e diziam-se marxistas-leninistas para melhor fazer desaparecer as lições e as conquistas de um e outro.

As FARC e o PT precisam ser considerados conforme seu programa e sua prática, portanto, e não por suas falsas definições de si próprios. Hoje em dia, porém, o desmascaramento do caráter oportunista do PT não requer grande esforço, à medida que seus próprios dirigentes deixam claro que passaram para o lado da direita mais furiosa contra os trabalhadores.

As ilusões nas FARC ainda são maiores, mas deixemos que as FARC mesmo falem, para vermos que tipo de política defendem, e que até mesmo no discurso já não são mais diferentes, no essencial, dos outros oportunistas latino-americanos. Com a palavra, um dos membros do Secretariado das FARC, entrevistado pelo jornal MUR, do Partido Comunista Português, chamado pelo pseudônimo de Ricardo Gonzáles:

“Consideramos que existe um estado terrorista na Colômbia, um estado agora marcado por uma tendência fascistizante. Atualmente, a luta armada alastra, pela necessidade de se fazer frente às armas homicidas do estado com as armas libertárias daqueles que mantiveram o amor da dignidade. Este povo colombiano de que fazemos parte é um povo digno e valente que, recorrendo a todas as formas de luta, e combinando-as, muda o cenário político e abre uma possibilidade de diálogo, e trânsito pacifico para a revolução colombiana. Nisso também as FARC se podem medir na praça publica com os seus inimigos. Não tememos a praça publica. Não tememos a confrontação de idéias. O mau é que eles não permitem que se produza ai essa confrontação de idéias. Neste momento qualquer homem ou mulher, combatente das FARC, que se apresente a expor o que pensa é imediatamente assassinado ou capturado, acusado de terrorista. Por isso, neste momento não nos resta outra opção para expor as nossas idéias que não seja o recurso aos fuzis. Essa é a realidade na Colômbia. No imediato trabalhamos para a construção de um novo governo de ampla coligação, que permita abrir as alamedas de uma democracia real no país. Para isso convocamos os setores políticos e sociais mais diversos, liberais, conservadores, o clero católico, as associações econômicas de todo o país, a intelectualidade, os operários, os camponeses, as minorias étnicas, homens e mulheres do mundo da cultura. O objetivo é parar a guerra. Para isso temos de enfrentar unidos o projeto fascista para a Colômbia que está a ser implementado pelo Sr Álvaro Uribe com o apoio da oligarquia e dos EUA e, também, de alguns países da União Européia que se intrometem descaradamente num conflito que somente diz respeito aos colombianos, conflito cuja solução cabe exclusivamente aos colombianos. Há 40 anos que vimos dizendo que queremos a paz, que lutamos por mudanças. Teria sido bem preferível que não tivéssemos sido obrigados a lutar entre colombianos para implantar uma reforma que o país necessita urgentemente. Como somos revolucionários, cabe-nos assumir os riscos que resultam do enfrentamento com o estado colombiano e os seus cúmplices, aqueles que o amamentam do estrangeiro” (negritos nossos).

Há grandes industriais patriotas que contribuem para as FARC, tal como proprietários de grandes fazendas, que também nos ajudam. As FARC mantêm na Colômbia negócios rentáveis que facilitam o seu abastecimento. Obviamente como é uma guerra que nos foi imposta e são os ricos quem tem o dinheiro, os potentados que se beneficiam do suor e das lágrimas do nosso povo, às vezes tivemos de recorrer a retenções de pessoas, os chamados seqüestros” (negrito nosso).

Fica claro que as FARC querem o direito de ser um partido eleitoreiro sem correr o risco de ver assassinados seus candidatos. A FARC quer ser como o PT, ou outro partido de nome socialista, mas que participa e defende as eleições e as instituições da democracia burguesa. As FARC são contra os “desvios” do capitalismo, como o fascismo e a corrupção, mas não o capitalismo em si.

Não defendem os explorados contra os exploradores, mas o “povo” contra a “oligarquia”. Defendem a “dignidade”, a “justiça” e outras concepções abstratas, sem conteúdo de classe e sem dizer que justiça e que dignidade são essas e a serviço de quem elas estariam. Fazem como o PT que defendia “ética”, e hoje deu no que deu. O objetivo das FARC são mudanças no sistema político, com eleições limpas e um governo nacionalista burguês na Colômbia. As FARC combatem o semi-fascismo, porque defendem a democracia burguesa.

As FARC não são nem internacionalistas de verdade, nem revolucionárias, e nem sequer são anti-imperialistas de maneira coerente. Como admitem, não se sustentam sequer de forma classista, e apelam aos “bons burgueses” para pagar suas contas. São a estes empresários que respondem quando abandonam o socialismo. Não respondem nada aos trabalhadores e operários pobres das cidades porque, por mais radical que seja no método, é oportunista na política e sua saída é burguesa, além de se basear em um método equivocado, camponês, foquista e isolado da luta de classes real.     

O PT não apóia mais as FARC. Apóia os paramilitares!

                Apesar de as FARC terem se tornado uma caricatura do movimento que já representaram, e de não serem nenhuma alternativa para os trabalhadores explorados colombianos, e muito menos do mundo inteiro, nós estamos ao lado das FARC na sua defesa contra as perseguições que sofre, e na luta militar contra o governo realmente reacionário de Uribe.

O crime das FARC é achar que se derrotam governos de direita, como o de Uribe, com um capitalismo humanitário. Esta lógica de melhoras por “etapas” é o mal que aflige a toda a esquerda hoje em dia, incluindo a totalidade das maiores organizações brasileiras, que, na prática, renegam a revolução.

                Nós somos adversários das FARC no terreno político e achamos que é preciso que as massas colombianas, entre elas as camponesas, rompam com essa direção oportunista, e construam uma organização revolucionária de fato na Colômbia. Mas, em se tratando de haver um confronto armado e aberto entre as FARC e o governo Uribe, aliado aos EUA, nós estamos incondicionalmente ao lado das FARC no terreno militar.

No campo político, no que se refere ao aspecto democrático, também repudiamos qualquer tentativa de criminalizar esta organização e somos pela prisão e julgamento popular de todos os paramilitares e membros do governo envolvidos na perseguição e crimes contra os lutadores sociais, além da libertação imediata de todos os combatentes das FARC.

                Neste sentido, a relação do PT com as FARC é o oposto da dos revolucionários. Eles apóiam justamente as capitulações e traições políticas das FARC, mas a abandonam quando estão sendo massacradas pela direita assassina. As FARC foram muito à direita nos últimos anos, mas o PT conseguiu ir tão longe que, mesmo assim, renega o contato com as FARC, porque isso lhe tiraria votos.

                Como conseqüência, o PT agora deixa o imperialismo jogar bombas nos acampamentos das FARC, matar seus dirigentes, e, como resposta, chama o grupo de terrorista, impede seu acesso à fronteira brasileira e ajuda o governo Uribe e os paramilitares das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) a responsabilizar as FARC pelos seqüestros que cometem. Com isso, inocentam os verdadeiros terroristas: Bush, Uribe e paramilitares da AUC.

Não bastasse isso, Lula fornece grãos e produtos que a Colômbia precisa, além de governar para os latifundiários brasileiros (irmãos políticos dos “para” da Colômbia). Lula paga a dívida externa a Bush, que usa esses recursos para fornecer armas e bombas para o governo colombiano. O mínimo que se poderia fazer, hoje em dia, é romper relações com a Colômbia enquanto o governo Uribe estiver em guerra civil contra os trabalhadores. O PT nem cogita nada parecido.

Não há dúvidas: hoje em dia o Fórum que Lula e o PT fazem parte é com os semi-fascistas e imperialistas na América Latina.  

 
 
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