Publicada em 09/11/2008

Balanço das Eleições 2008:
O FRACASSO DA “ESQUERDA DE ELEIÇÃO”

As eleições municipais 2008 foram marcadas pela enorme frieza da massa trabalhadora com os candidatos. Cresceu o voto nulo, branco e as abstenções. Além disso, a maioria dos que votaram o fizeram sem grandes expectativas, escolhendo o candidato que representa o “mal menor”, etc. Ao mesmo tempo, a esquerda que apresentou candidatos, através do PSOL, PSTU e PCB, saiu extremamente derrotada do processo.

A pior e mais importante derrota é a política. Nós achamos tático intervir no processo eleitoral, desde que isso esteja a serviço de avançar a luta e a consciência dos trabalhadores. Ao contrário disso, o conteúdo das candidaturas da “Frente de Esquerda” foi muito pior do que o já defendido nas eleições de 2006, com Heloísa Helena de candidata à presidente. Lá, o programa já era nacional desenvolvimentista, em defesa da burguesia produtiva e contra várias bandeiras históricas da classe trabalhadora. O que tinha de proposta de mudança não entrava em choque em nenhum momento com o sistema capitalista. Portanto, era um programa burguês, ainda que defendido também por trabalhadores e pela esquerda.

 Nesse ano, o PSOL foi ainda mais à direita na construção de candidaturas de “frente popular” (aliança entre trabalhadores e burgueses), coligando-se com o PV em Porto Alegre e com vários outros partidos de direita a nível nacional, como o PMDB e até PSDB.

Acima da divisão por campos: “progressivos x reacionários”, “esquerda x direita”, e acima de todas as divisões que nos são impostas pela ideologia burguesa, existe a divisão por classe social, ou seja, pelo papel que se ocupa na produção. Dentro desse critério científico existem trabalhadores, assalariados, e burgueses, que se apropriam da riqueza gerada pelo trabalhador. Nesse sentido, acima do fato de o PSOL ser de esquerda, está o fato de que o PSOL, bem como o PCB, faz alianças com a burguesia e defende um programa de manutenção da realidade atual.

Por tudo isso, toda a frente de esquerda cumpriu, nas duas últimas eleições, um papel oportunista, e não fez avançar em nada os rumos da luta dos trabalhadores. 

O 2º fracasso da esquerda da eleição foi a votação em si. O PSOL, que imaginava eleger muitos vereadores e fazer uma bancada nas principais capitais, com prefeitos bem votados, decepcionou. Em quase todo o país, os candidatos a prefeito do PSOL tiveram sofríveis votações, em média pouco acima de 1%. Em SP foi quase metade disso, no RJ um pouco mais... De 26 capitais, somente em 8 fez mais de 2%, e somente em 2 ultrapassou os 5%. Para quem havia feito 6% nas eleições presidenciais, foi um banho de água fria. Da mesma maneira, os vereadores eleitos são cerca de uma dúzia. Em SP não se elegeu ninguém, e nas demais, ou ninguém foi eleito ou foi um só, com 3 ou 4 exceções. A diferença desse quadro se deu em Porto Alegre, onde obteve 7% do total do eleitorado e elegeu 2 vereadores. Em nenhum outro lugar se teve uma votação tão "grande" (e ainda assim muito longe dos demais) e se elegeu 2 parlamentares. No RS, porém, é onde o PSOL foi mais à direita,coligando com o PV e aceitando dinheiro da multinacional Gerdau e da rede de supermercados Zaffari, uma das maiores empresas gaúchas. Quer dizer, quem ainda se salvou no PSOL foi quem mais parecido com o PT se tornou: fracasso eleitoral duplo!

            O PCB dispensa maiores comentários, pois se tornou uma sombra da sombra do que já foi. Mesmo coligado em muitos lugares fez votações muito pequenas, não elegeu ninguém e foi um apêndice do PSOL ou PSTU na maioria dos lugares, com exceções tanto para onde saiu sozinho, como onde coligou com a direita e o governo.

            O PSTU, que já expressou candidaturas contra tudo que está aí, serviu de ala esquerda das candidaturas de Frente Popular do PSOL por todo o país. Abriu mão de ter candidatos em muitos lugares e de seu programa nos demais. Aplicando a nova "teoria" e orientação interna de "não desprezar o voto", e rejeitar rótulos como "Contra burguês, vote 16" e "Não queremos só seu voto, mas você na luta", o PSTU jogou-se para conseguir votos nesta eleição. Em muitas cidades, fez materiais caros, adesivos, cartazes e até banners, todos eles com o número bem destacado e o rosto do candidato. Só faltavam as tradicionais palavras de ordem, a política!

            Mesmo com a preocupação eleitoral exaltada, o resultado eleitoral foi o pior de todos! O PSTU não elegeu ninguém, e diminuiu drasticamente sua votação. Foi engolido pelo PSOL e perdeu votos para o nulo ou branco também.

            Em BH, apoiado pelo PSOL, fez 0,57% dos votos válidos e 0,4% do eleitorado. Nos outros locais, foi 0,8%, 0,4%, 0,2% do eleitorado. Somente em uma capital, mais de 1% do eleitorado votou no PSTU, Aracaju, uma das mais inexpressivas politicamente. Mesmo onde foi "bem", como São José dos Campos (3,47% válidos e 2,8% total), já tivera uma votação grande em 2004, e é muito pouco para um pleito com poucos candidatos, sem disputa com o PSOL, e onde dirige muitos sindicatos.

            Comparado com 2006, os números do PSTU são bem piores. Comparado com 2004, que era municipal também, é pior ainda. Em 2004, o PSTU chegou a 4,2% válidos em Macapá, e teve mais de 1% válido em 6 capitais (4 se for sobre o total). O número mais impressionante é o total: para prefeitos, em 2004, o PSTU fez 92808 votos nas capitais. Em 2008 fez 39683, numa queda para menos da metade, mesmo com o eleitorado crescendo! Para vereador, onde concorreu em quase todos os lugares, tinha feito 84990 em 2004, e baixou para 49206 em 2008: despencou! Enquanto isso, o PSOL fez 346.205, quase 7 vezes mais. Em cidades como RJ, o PSOL fez quase 11 vezes mais votos, em Belém quase 10X mais, Fortaleza cerca de 25X mais. Em todas estas cidades, o PSTU é "forte". Em outras o percentual foi de 20X, até quase 80X em algumas capitais.

            Os resultados eleitorais não são os mais importantes para os revolucionários. Mas sempre foram usados para que extraíssemos algumas conclusões. Nesta eleição, ainda mais para quem quis a todo custo obter votos, a conclusão é que o PSOL é um aparato eleitoral, com os mesmo vícios do PT, mas sem nadados votos que esse tinha. E que seus aliados além de não eleger ninguém e fazer votações minúsculas, caminham a seu lado para um abismo eleitoral.

PSOL: “O NOVO PT”

Não tem como fazer um balanço da esquerda nas eleições sem localizar a essência do principal partido da nova frente popular, o PSOL. Esse partido surgiu para ocupar o espaço eleitoral deixado pelo PT, que passou de vez para o lado da burguesia quando chegou no governo federal. O programa do PSOL é o mesmo do defendido anos pelo PT: o de reformas graduais do capitalismo, de amplas alianças, de defesa de um capitalismo mais humano e da construção de um socialismo abstrato, a longo prazo e descolado da realidade concreta das massas.

 Nesse sentido, o PSOL é o “novo partido com o velho programa” e, por isso, é extremamente reacionário. Quando a realidade permite a experiência amarga com o reformismo através do Lula e PT, surge um novo partido para frear essa experiência e o avanço na consciência da classe trabalhadora. Quando as massas deixam de acreditar na democracia burguesa, surge o PSOL para dizer que o voto pode mudar a vida, que é possível tornar o congresso nacional mais ético, etc.

É por isso que, ainda que possamos estar juntos em algumas lutas e greves de trabalhadores, o PSOL, estrategicamente, é inimigo de todos os explorados e oprimidos. É inimigo da mudança, da revolução e do socialismo, pois defende democracia burguesa a manutenção da ordem. 

PSTU: DO ENFRENTAMENTO À CAPITULAÇÃO

            Ao contrário do que fazia anteriormente, quando o PSTU era um partido que denunciava as eleições, principalmente no próprio processo eleitoral, e combatia o reformismo e oportunismo, agora se omite e capitula grosseiramente diante das traições do PSOL.

Em 2005, o PSTU falava com todas as letras, publicamente, que o PSOL representava a reedição do PT, que era um partido oportunista, etc. Isso mudou já nas eleições 2006, pois o PSTU foi o principal impulsionador da Frente Popular de Esquerda, mesmo sabendo que o programa seria de defesa da burguesia e contra os trabalhadores.

Nessas eleições, diante da quebra da independência de classe, com o PSOL se coligando com empresários, aceitando dinheiro da Gerdau, o PSTU deveria ter rompido publicamente com a frente a nível nacional e ter discutido com os trabalhadores o porquê. Isso não só era necessário como seria extremamente educativo para a população. Os trabalhadores já desconfiam dos partidos eleitoreiros, que se vendem para tentar eleger seus candidatos. O correto era aproveitar esse momento e, através do exemplo concreto da traição, fazer o máximo de pessoas entenderem que o PSOL também é igual a todos eles. Inclusive, a maioria dos vereadores eleitos pelo PSOL foi através de coligações com a burguesia.

Infelizmente, o PSTU não fez esse enfrentamento coerentemente e insiste na frente popular junto com o novo velho partido. O preço que paga por isso é o de abdicar de um programa e um perfil revolucionário nas eleições.  

Ainda que em menor grau, o PSTU também semeia ilusões no voto e na democracia burguesa, tudo em nome de uma coligação que poderia dar-lhe em troca a eleição de algum deputado ou vereador. Porém, e essa é a segunda derrota (a eleitoral), o PSTU mais uma vez não elegeu ninguém, e teve uma das piores votações de sua historia recente.

É irônico, mas real. Quando aumenta o espaço para se desmascarar a farsa das eleições, a esquerda faz o contrário e se torna mais eleitoreira do que nunca. O resultado disso foi uma derrota política, pelo conteúdo que defenderam, e numérica, pela votação que fizeram.

PELO MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO!
SURGE UMA ALTERNATIVA À “ESQUERDA ELEITOREIRA”

Mais do que nunca, é hora de construir uma alternativa dos trabalhadores, socialista e revolucionária. Mais do que ser de esquerda, é preciso ser diferente de tudo o que está aí e defende uma mudança de verdade, que só pode vir com lutas, greves e mobilizações de massas.

O Movimento Revolucionário tem o orgulho de ter chamado o Voto Nulo nestas eleições, e de ter feito uma campanha de massas, neste sentido. Distribuímos dezenas de milhares de panfletos, colamos cartazes, fizemos agitação com som em lugares de concentração pública, mais adesivos, etc. Não priorizamos as eleições, mas soubemos disputá-las com um programa dos trabalhadores, ainda que sem candidatos.

            Não viramos as costas às eleições, por mais podres que sejam, pois ainda há ilusões nelas. Fizemos o debate político! Mas viramos as costas, junto com os trabalhadores, aos políticos de sempre, aos conchavos políticos e aos que atacam os trabalhadores.

            O Movimento Revolucionário sai vitorioso, política e eleitoralmente das eleições, por ter identificado e estimulado o avanço da experiência das massas com a democracia burguesa, e por tentar desenvolver, ainda que de forma ainda bem inicial, a ruptura direta com este sistema e a construção da revolução socialista.

 

 

 

 

 

 
 
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