Torcedores baleados no Rio Grande do Sul revelam violência e racismo no futebol
Na última sexta-feira -28/11- a polícia gaúcha determinou a prisão preventiva de 10 torcedores gremistas envolvidos no tiroteio ocorrido em 16/11, após o jogo Grêmio X Coritiba, pelo Campeonato Brasileiro.
Um deles, Bruno Ortiz, é filho do Secretário Extraordinário de Irrigação do Governo do RS, Rogério Ortiz. Além disso, é conselheiro do Grêmio. Segundo o delegado Bolívar Llantada, responsável pelas investigações, ele seria um dos responsáveis pelo crime, que resultou em dois jovens baleados - um, na cabeça, em estado grave, com risco de morte e que pode ter seqüelas permanentes; e outro, no peito -.
Os responsáveis pela briga fariam parte da torcida Geral do Grêmio, se organizando numa facção denominada GAS -Geral Ataque Surpresa-. Segundo depoimentos, esse grupo seria contra a participação de negros, homossexuais e mulheres na torcida. De acordo com uma testemunha, o estopim da briga teria sido a bandeira em homenagem ao ex-jogador gremista Everaldo, atleta que representa a estrela dourada na bandeira do clube, e negro.
A polícia ainda não conseguiu prender todos os envolvidos -o responsável pelo disparo, por exemplo, está foragido-, mas adiantou que a maioria dos acusados são rapazes na faixa dos 20 anos, universitários de classe média alta.
O fato em si mostra o descalabro a que chegou a violência no Brasil. Há muito que o futebol tem dado prova da estupidez e covardia que cresce sem parar. Recentemente, tem aumentado os casos de tiros, espancamentos e de brigas mascadas até pela internet, algumas com centenas de envolvidos.
Dentro desta realidade, e ação crescente de gangues em meio ou a partir de torcidas, se desenvolvem, ainda, grupos ou indivíduos, com ações de caráter fascista, que pregam o ódio a outro setor social, via de regra identificados com a população mais pobre. Alguns grupelhos de ideologia nazi-fascista se desenvolvem a partir de uma realidade de crise econômica e ideológica, que afeta principalmente a juventude com poucas perspectivas para seu futuro.
O capitalismo, responsável por diversas ideologias que confundem e enganam a classe trabalhadora, é a estrutura que permite o nazi-fascismo, pois é quem divide, contrapõe e gera rivalidades raciais e de gênero ou orientação sexual. O preconceito em relação a negros, mulheres e homossexuais divide a sociedade de uma maneira artificial, escondendo a real diferença existente: a diferença de classes sociais, entre exploradores e explorados.
Independente da tal GAS existir organizadamente, e de seu peso na torcida, é fato que o ambiente no estádio favorece a ideologia fascista e comportamentos de direita e agressivos como os que assistimos. Gritos contra negros, homossexuais e "favelados" são freqüentes entre torcedores, sendo ainda mais comuns em algumas torcidas. Por isso, criminosos e neo-nazistas conseguem incidir com tamanha facilidade no meio da massa, contando com membros não apenas protegidos pela própria torcida, muitas vezes, mas, em se tratando de membros da classe média alta, de todas as instituições, também.
Os juízes que vão julgar o processo, a imprensa que cobre as notícias, e os delegados que atuam no caso: todos defendem os políticos, dirigentes e ricos em geral por trás desses crimes, que raramente são punidos. A polícia, que esperou que quase fossem mortas duas pessoas por um motivo tão absurdo, é a mesma que não reage diante de agressões de cunho racista e machista nos estádios. As direções dos clubes também são responsáveis por deixarem que a situação chegue a esse ponto, muitas vezes financiando torcedores de aluguel, mercenários que não estão torcendo desinteressadamente.
Defendemos a punição dos responsáveis -diretos e indiretos- pela tentativa de assassinato e por difundirem uma ideologia que destrói e divide a classe trabalhadora. As direções dos clubes devem ser responsabilizadas pelo problema, junto com as instituições negligentes e omissas. Os racistas e neo-nazistas devem ser banidos dos estádio e da sociedade. E a própria torcida deve rechaçar manifestações preconceituosas e que incitem a violência entre trabalhadores.
Nossos inimigos, independente da camiseta, são os grandes empresários, os banqueiros e políticos de direita: são eles que desempregam e exploram, além de lucrarem também com a paixão do torcedor, expulsando os pobres dos estádios, fazendo negociatas com jogadores, e empobrecendo e atacando o próprio futebol.