Publicado em 03/10/2010

Geraldo Vandré, um morto-vivo sob tutela militar

A entrevista com o compositor Geraldo Vandré, exibida pela Globo News, revela que o vibrante e ardoroso jovem que compôs "Para não dizer que não falei de flores", transformou-se num morto-vivo, sob tutela da Aeronáutica. Em função das violências sofridas nas mãos dos militares brasileiros durante a Ditadura Militar, Vandré é apenas uma caricatura do que já foi.

A Globo News apresentou uma longa entrevista com Geraldo Vandré, gravada no dia de seu aniversário de 75 anos e realizada no Clube da Aeronáutica do RJ. Ele, inclusive, portava um emblema da Aeronáutica no peito. 

No vídeo, ele aparece lúcido e com boa saúde. Contrariando tudo o que sempre foi divulgado sobre o assunto, Vandré desmentiu firmemente que tivesse sofrido qualquer forma de pressão ou coação da repressão durante a Ditadura Militar. Perguntado sobre as posições de Chico Buarque durante a Ditadura, o qual representou uma “contraposição” a suas canções engajadas, com uma temática menos comprometida, ele o elogiou e disse que Chico Buarque não teve a carreira interrompida como ele, e que pode continuar se apresentando no Brasil.

O repórter insistiu muito para que ele comentasse a gravação que fez ao voltar ao Brasil, em que afirma que nunca foi antimilitarista. Essa gravação foi feita sob coação da Polícia Federal, e apresentada numa edição do Jornal Nacional, como parte das negociações para o retorno de Vandré ao Brasil, em 1973. Vandré disse, simplesmente, não se lembrar dela.

No entanto, ele disse que foi beneficiado pela Anistia e que pôde voltar ao serviço público federal, onde se aposentou. Comentou que pretende gravar músicas em algum país da América Latina, sendo que a música que ele tem para gravar seria de mais exaltação à Aeronáutica. Vandré que compôs "Fabiana", em homenagem à Força Aérea Brasileira (FAB), como um poema de 1985.

Mais um dado interessante é que as imagens dele cantando "Para não dizer que não falei de flores", no Festival Internacional da Canção (FIC), de 1968, teriam sido “perdidas” pela Globo. E que só restaria o som. Como sustentáculo da ditadura, não é de surpreender que a Globo tenha destruído registros tão importantes de um fato que marcou a resistência ao regime militar.

Na mesma recente entrevista à Globo News, Geraldo Vandré recitou uma letra de música muito bonita que apresentou num festival da canção no Peru, em 1972. É sobre a pátria, mas não patriótica. Essa deve ter sido sua última produção musical de qualidade.

No final, ele recitou a “Fabiana” e explicou que o refrão dela é um contraponto ao refrão de "Para não dizer que falei de flores". Foi mostrado um vídeo que corre na internet em que aparece um Policial Militar cantando a música "Para não dizer que não falei de flores" num bar no bairro Bexiga, em São Paulo. No final, Vandré vai cumprimentá-lo, numa prova de que a música de protesto já fora devidamente apropriada pelas próprias Forças Armadas.

O programa mostra o exílio em que ele permanece, com o comentário de que ele habita um país onde ele é o único habitante. Ficou clara na entrevista a tutela que a Aeronáutica exerce sobre ele, e o espectador tem a clara visão de que essa tutela o transformou num morto-vivo, incapaz de viver, pensar, ou compor por si próprio.

 

 

 

* Este texto é adaptado da contribuição de Fausto Alves Barreira, colaborador do Movimento Revolucionário.

 

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