Publicada em 14/09/2009

Heliópolis mostra que as lutas populares têm força.

Quem acompanhou as mobilizações ocorridas recentemente na favela da Heliópolis (São Paulo, capital), pôde perceber a radicalização que as lutas populares podem assumir. Um fenômeno muito comum na França, por exemplo, de revolta social dos trabalhadores das periferias diante de questões inicialmente raciais, ou de violência policial, agora se repete no Brasil, mesmo que em menor escala.

Paralelo ao aumento da força das manifestações, também ocorreu uma mudança de enfoque dada pela imprensa, quando se obrigava a ter que relatar o acontecido.

Primeiramente, os responsáveis eram vândalos, e havia um tumulto, ou outros termos preconceituosos. Depois, a imprensa teve que mudar o tratamento das pessoas para considerá-los manifestantes, e admitir que se tratava de um protesto.

Tudo começou com a perseguição a supostos assaltantes dentro da favela. Guardas-civis de São Caetano do Sul (ABC paulista) invadiram a favela, deram disparos e ainda por cima saíram perseguindo carros, como justiceiros, sem se importar com as vidas em risco, e nem sequer com a legalidade, que restringe sua ação justamente a São Caetano, pois são uma guarda dessa cidade. Os assassinos seguiram em sua perseguição desabalada, até acertarem uma adolescente de 17 anos, e conseguirem o que queriam: matar alguém naquele dia. Ana Cristina de Macedo, pobre e inocente, morreu com um tiro no pescoço.

Contra o aumento da repressão, é preciso revidar e se organizar!

Somente na capital paulista, nos últimos três meses, esse é o quinto caso de pessoa atingida por “bala perdida”. Na verdade, as balas têm endereço certo quando saem dos revólveres da polícia: os negros, pobres e jovens.

Mas dessa vez, não ficou por isso mesmo. Os protestos iniciaram algumas horas após a morte da adolescente. Manifestantes escreveram a palavra “JUSTIÇA” no asfalto, queimaram ônibus, carros e interditaram ruas. Atos foram convocados através de panfletos distribuídos na comunidade.

A Tropa de Choque da Polícia Militar tentou conter os protestos com bombas de gás e balas de borracha. Também forneceu a informação de que os atos estavam sendo incitados por traficantes, que estariam oferecendo cestas básicas a quem participasse. Vendo quem é a fonte, essa informação é, no mínimo, duvidosa (para não dizer mentirosa, com o objetivo de desqualificar os manifestantes).

A ação policial, que segundo o prefeito paulistano, Gilberto Kassab, foi inadequada, é defendida pelo Secretário Municipal de Segurança de São Caetano. De acordo com Moacyr Rodrigues, o procedimento dos guardas foi correto.

A polícia afirma que Ana foi atingida numa troca de tiros com assaltantes, mas testemunhas dizem que os fugitivos não revidaram os disparos. Além disso, o laudo de balística conclui que a arma autora do disparo contra a menina, de fato, pertencia à Guarda Civil Municipal de São Caetano. Não restam dúvidas: foi uma execução policial!

As manifestações, que duraram cerca de três dias, resultaram em mais de 20 pessoas detidas pela polícia, num protesto exemplar da necessidade de aumentar as lutas populares contra as instituições e efeitos do capitalismo, como a violência, o desemprego e a pobreza.

Reivindicamos o método de luta utilizado pelos manifestantes de Heliópolis. Diante da morte de uma inocente pela polícia, que mais uma vez mostrou-se incompetente e despreparada, os protestos eram mais do que necessários. A imprensa resolveu tratar, primeiramente, por vandalismo, numa tentativa de desmoralizar as mobilizações e tirar delas qualquer motivação política. Porém, ao ver que não cessariam tão rapidamente, mudou seu enfoque. Essa é uma demonstração que a luta de classes é mais forte que qualquer ideologia ou mentira da mídia.

Quanto à ação policial, entendemos que somente alguém desprovido de qualquer bom-senso para defender que a polícia invada lugares disparando indiscriminadamente para todos os lados. E, infelizmente, é assim que se dá a ação policial na maioria das favelas e periferias. É daí que surgem tantos mortos por balas perdidas. 

Os manifestantes presos devem ser soltos imediatamente, e os policiais envolvidos na morte da adolescente, presos, exonerados e julgados de acordo com a vontade dos trabalhadores.

E, para que não aconteçam mis mortes como a da jovem Ana, é preciso multiplicar as manifestações como as de Heliópolis. Só na rua, e com a ação direta se pode derrotar a polícia, a violência e o terror capitalistas.

 

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