Publicada em 02/10/2010

UMA DUPLA DERROTA

        No dia 27 de novembro do ano passado, os secundaristas gaúchos de luta sofreram duas derrotas alarmantes. Foi o dia das eleições para o grêmio estudantil da escola Julio de Castilhos, vulgo “JULINHO” de Porto Alegre, o maior colégio do Rio Grande do Sul.

        Repleta de golpes, denúncias e calúnias, a eleição estudantil foi um escândalo do começo ao fim, contando com 3 chapas. A Chapa 1, ainda que camufladamente, era pelo PT; a Chapa 2 era da gestão anterior, composta por PSOL E PSTU; a Chapa 3 foi formada por INDEPENDENTES, e apoiada pelo Movimento Revolucionário, composta pela vanguarda que rachou com a situação.

        Pelo que se poderia imaginar, os golpes e as calúnias seriam típicos dos métodos da chapa governista, de direita, do PT. Mas não foi o que ocorreu! A então direção do grêmio estudantil, do PSOL/PSTU, que teve uma péssima gestão, é que fez isso.

A direção do grêmio não dialogou o bastante com os estudantes, e se importou somente com os atos do FORA YEDA, feitos não para realmente derrubar a governadora corrupta do RS, e sim de modo repetitivo e maçante, sem trabalhar estas questões na escola nem avançar na consciência estudantil. Não há, aqui, nenhuma discordância com a necessidade de atos, muito pelo contrário; mas os estudantes não têm a mesma ideia e consciência dos ativistas organizados, e é nosso papel conscientizá-los para que entendam esta necessidade. Não foi o que a última gestão fez.

        Com um grande índice de rejeição, a Chapa 2 realizou sua convenção num clima que não era dos melhores, com o PSTU e o PSOL (representado pela corrente AS), se digladiando por ocupar posições na chapa. O estudante, que não é bobo, percebeu a evidente disputa entre egos e partidos, que reinavam não só no momento da formação da nova chapa, mas durante todo o ano letivo.

Afinal, por que pessoas tão conflitantes, queriam tanto entrar na mesma chapa? Por que dois partidos que passaram o ano inteiro brigando, sem conseguir dirigir conjuntamente a entidade, achariam que, desta vez, seria diferente? Eles pensam que somos trouxas? Foram estas e outras perguntas que se  formaram na cabeça dos estudantes, enquanto o caos reinava.

        Militantes do PSOL/AS manobravam as intervenções em benefício de sua própria corrente, impedindo as manifestações de militantes do PSTU. Houve militantes batendo boca entre si, enquanto os alguns estudantes quase chegaram à violência física.

        A AS/PSOL dentro do grêmio estudantil (e fora também) assumia uma identidade autoritária e oposta ao diálogo estudantil. Sua única preocupação era referente ao acúmulo de membros para levantar a bandeira do PSOL e visar à próxima eleição.

Os membros que se diziam “da esquerda” no grêmio discursavam que era importante a unificação da chapa com os 2 partidos, em vista da construção da ANEL (Assembléia Nacional dos Estudantes - Livre). É óbvio que estes “pseudoesquerdistas”, no entanto, mais uma vez, não souberam nem analisar a  situação do meio em que  viviam, nem foram capazes de manter o programa que diziam defender, de luta e combativo.

Assim, havia um enorme grau de rejeição estudantil à situação, que era evidente, provocado pela falta de ação e acompanhamento da gestão, mas, principalmente, por suas brigas públicas vexaminosas, que mancharam a imagem do que deveria ser um grêmio estudantil. Mas, apesar disso, o PSTU colocou como sua prioridade não a disputa da base estudantil, e sim os acordos de cúpula, onde a unidade é exaltada apenas por ser unidade, independente do conteúdo.

        No dia da convenção de chapa, promovido por PSOL e PSTU, mais uma vez membros do grêmio  brigavam entre si, terminando num turbulento encerramento, sem votação. Mesmo assim, com um balanço negativo, sem concordâncias políticas, nem confiança um no outro, em nome dos cargos e estrutura da entidade, no final houve a unificação dos 2 partidos.

A corrente AS, do PSOL, achou a convenção vitoriosa; o PSTU achou que não havia nada de mais nas discussões... Já os estudantes não gostaram nem um pouco, pois estão cansados dessa forma de fazer política e movimento estudantil, oportunista e carguista.

Forma e conteúdo: um golpe a serviço de uma política oportunista

A Chapa 1, que já estava formada, com seus componentes dizendo-se de “centro”, e sem prometer nenhuma luta, ia correndo por fora, de modo despolitizado. Por outro lado, a vanguarda estava rachada com o grêmio estudantil, e, pela postura submissa, oportunista e burocrática, sem levar em conta a base, o PSTU também rachou.

Assim, 2 ex-militantes do PSTU (a partir deste momento), montaram a Chapa “vem com a gente”, e, imediatamente, começou-se o processo de conscientização dos estudantes, principalmente contra a Chapa 1, que tinha todo o apoio e direção do PT. Paralelo a isso, começou-se também a arrecadação financeira, baseada no auto-financiamento, com pedágios, que pagavam os panfletos e adesivos.

A “Vem Com a Gente” foi inscrita com o número 3, e, desde então, foram feitos apenas 1000 adesivos, 250 planfletos, uma faixa e um mural, demonstrando a precariedade financeira, de uma chapa que contava com o apoio só de seus próprios membros, ao contrário das outras com recursos transbordando dos sindicatos e caixas dos partidos que as compunham.

Assim, após a ajuda de um estudante do turno da noite, que fez um segundo adesivo, visto que a falta de recursos da Chapa 3 havia levado à falta desse material, a campanha começou a sofrer uma perseguição lamentável.

A chapa 2, supostamente do campo da “esquerda”, que deveria estar preocupada e combatendo a Chapa 1, de direita; descontente com os resultados negativos de sua campanha, e com a adesão de massa conseguida pela Chapa 3, passou a caluniar, mentir e fazer ataques morais contra os militantes da Chapa 3, num processo tipicamente stalinista e digno das piores tradições da direita, MR-8 e UJS, conhecidas correntes degeneradas no movimento estudantil.

O desgaste pretendido da Chapa 3, porém, não foi muito grande, pois os estudantes nem davam crédito à situação, muito desmoralizada à esta altura, e isso só serviu para fortalecer a Chapa 1. A maior demonstração da confusão estudantil que se deu a partir dessa campanha direcionada contra a chapa à sua esquerda, e não à sua direita, pelo PSOL/PSTU, se deu no dia do debate. A Comissão Eleitoral, votada pelos estudantes, era composta na maioria pelo PSTU e PSOL, mas se esperava que, se não ia ser idônea, ao menos, cumprisse as regras do regimento eleitoral.

No entanto, como eles, por serem militantes, se centralizam pelos seus partidos, e esses partidos agiram sem nenhum traço da moral e da ética revolucionárias, ou mesmo dentro da civilidade política mínima, a Comissão Eleitoral agiu como uma extensão da chapa 2. No turno da manhã, a comissão simplesmente cancelou o debate, alegando calúnias contra si mesma. Ou seja, se considerando intocável, a comissão resolveu “censurar” o debate, porque sofreu críticas.

A comissão não fez nada contra a chapa 2, que fazia calúnias públicas e morais contra a Chapa 3, que lhe despertou muita dor-de-cotovelo. Entretanto, a mesma comissão omissa diante de várias ilegalidades, foi extremamente ágil ao cassar o registro da Chapa 3, alegando que tinha sido feito um 2º adesivo (pelo regimento, só é permitido um). Esta regra, que existe para, em tese, coibir o abuso do poder econômico e impedir que uma chapa desequilibre a eleição por ser muito rica, foi usada, de forma burocrática e golpista, para atacar justamente a chapa mais pobre (que fez um adesivo preto-e-branco porque acabaram os coloridos, feitos em meia dúzia). Ao mesmo tempo, ficaram intocadas as chapas financiadas com fartos recursos vindos de muitos lugares, menos da contribuição dos estudantes de base.

Agora, a Chapa 3 era a Chapa 4, e se teria que refazer toda a campanha de novo, sem orçamento algum. Detalhe: faltavam menos de 24 horas para as eleições.

A burocracia ajudando a direita e os governistas

Com um golpe “quase perfeito”, dado na véspera da eleição, os integrantes da Chapa 3-4 sentiam o gosto amargo de um esforço que parecia ter sido em vão. Por volta deste momento, o Movimento Revolucionário se somou aos companheiros da Chapa 3-4, que romperam à esquerda com o PSTU e com a Chapa 2, formada num acordo oportunista. O choque com a situação de ataques morais e burocratas por parte da própria comissão eleitoral e de militantes do PSOL e PSTU só não foi maior porque já não era o primeiro.

Uma semana antes, o PSTU cassou e impediu o direito à fala do Movimento Revolucionário na atividade de lançamento da pré-candidatura de Zé Maria a presidente, em Porto Alegre. Esta atividade, que se pretendia daqueles que podem estar juntos na campanha, e não apenas dos militantes do PSTU, acabou permitindo que até mesmo o PSOL (que rejeita o PSTU e despreza seu apoio) falasse, mas não a nós. Este fato, e outros tantos que demonstram o sectarismo que muitas vezes ainda pauta a postura do PSTU, mesmo assim, não nos impediram de nos alarmar com a degeneração vistas no Julinho.

A partir deste instante, de unidade entre os lutadores dissidentes, até então independentes, da Chapa 3-4, e do Movimento Revolucionário, panfleteamos um novo material, e, de boca em boca, no puro trabalho de base, se começou a recuperar o que o golpe havia tentado destruir.

Mais uma vez, a Chapa 2 se desesperou, e deu às eleições um caráter de baixo calão, com ataques e mentiras morais, e não de luta. Nitidamente, a obsessão de PSOL e PSTU passou a ser impedir que a Chapa apoiada pelo Movimento Revolucionário saísse vitoriosa, mesmo que o preço a pagar fosse ter que ajudar a eleger a chapa petista.

No debate da tarde, a chapa 2, passando por cima até de sua comissão, quis inventar uma nova regra, de que o debate só deveria ser feito com o presidente e vice-presidente de cada chapa na tribuna. Como nem o vice da Chapa 1 nem o da Chapa 4 (já renomeada) estavam lá, os militantes da Chapa 2, através da fiel e obediente comissão eleitoral, bateram o pé e cancelaram, mais uma vez, o debate.

À noite, a Chapa 2 nem apareceu para o debate. Só a comissão, que recolheu os panfletos da chapa 4, em mais uma medida “disciplinar”. Seu discurso, desta vez, era de que o panfleto era demais acusatório e difamador à comissão. Ou seja: CENSURA, outra vez!

Sendo assim, ficamos sem propaganda física da nossa chapa, sem debate em nenhum turno e com um quadro de golpe, fraude política e degeneração moral absoluta. Mas, contra todas estas falcatruas, o estrago já estava feito: a grande maioria dos estudantes já conheciam a chapa 4, e, para sua tristeza, também já conheciam quem era a Chapa 2, da situação.

A VOTAÇÃO

A votação foi no dia seguinte, um dia tumultuado, com militantes ainda mais raivosos e estudantes ainda mais confusos. Quase houve brigas físicas, além de insultos e ataques, mas todos contra a Chapa 4, pois a Chapa do PSOL/ PSTU, curiosamente, não atacava a chapa petista.

O estudante, que não pôde ser esclarecido, votou em menor número, o que ensejou uma tentativa de novo golpe da comissão, que propôs uma “urna móvel” no turno da noite. Depois disso tudo, foi com pesar, mas não espanto, que todos souberam o resultado:

Chapa 1: 41,74% dos votos válidos

Chapa 4: 32,03% dos votos válidos

Chapa 2: 26,21% dos votos válidos

Foi, antes de mais nada, uma derrota dos estudantes. A chapa petista ganhou, e um ano com uma direção estudantil tentando sabotar as lutas no Julinho vem aí.

Da sua parte, o Movimento Revolucionário estava lá, com o estudante, na luta pela educação e contra os governos da burguesia que agridem o povo. Estivemos e estaremos lá, pois nunca desistiremos de lutar. Dessa luta, sai o saldo positivo de que é preciso estar organizado para poder enfrentar os aparatos traidores, reformistas e pseudo-esquerdistas, e responder a eles com a firmeza e organização revolucionárias. Hoje, os camaradas que estiveram no centro da formação da Chapa 3-4 estão militando no Movimento Revolucionário, para construir novas direções, de base, democráticas, combativas e que se pautem pela moral dos lutadores.

Quanto aos “pseudo-esquerdistas” do PSTU/PSOL, que ficaram em último lugar, mesmo com a "máquina" da situação, é uma pena perceber que mesmo com um discurso tão de esquerda e de luta, da boca para fora, usem métodos tão baixos e adotem uma política tão pelega. Foi uma derrota perceber que, mais uma vez, para parte da esquerda, a vitória da direita é um prêmio de consolação, “menos pior” que a vitória dos revolucionários, o que coloca no lixo até mesmo a tão falada unidade, dos quais são os grandes defensores.

 

 

 

 

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