CHOQUE DE ORDEM, POLÍCIA, MILICIAS E TRÁFICO:
Os trabalhadores no RJ estão no meio do fogo cruzado
O Rio de Janeiro é um dos estados mais violentos do país, o que se explica porque também é uma das maiores cidades, que concentra muita riqueza e historicamente marcado por uma grande desigualdade social. Com ricos muito ricos, desde a Corte real, até grandes industriais e políticos em geral; e com pobres muito pobres, desde os milhões de escravos, imigrantes e trabalhadores explorados de todo o tipo, o RJ é um caldeirão em ebulição, conhecido como "tambor do Brasil", em que o que acontece repercute no país inteiro.
No quesito específico da violência, o Rio tem o agravante de também ser o grande centro com maior índice de assaltos seguidos por morte, o latrocínio, além de muitos casos extremamente violentos. Neste caso, mesmo SP, que é maior, possui, em termos percapita, uma situação menos caótica e destruidora como a do RJ. Recentemente dois casos foram parar nos noticiários nacionais, e nos dão a oportunidade de discutir essa situação mais a fundo.
Em um deles, uma atendente de uma loja de conveniências foi brutalmente assassinada com um tiro, mesmo depois de ter entregue o dinheiro e tudo o que os assaltante pediam. O outro caso foi o de um cobrador de ônibus que também foi vitimado a sangue frio.
É claro que a imprensa tradicional dá espaços a essas noticias para desviar a atenção dos trabalhadores, tentando alastrar o medo na classe trabalhadora, além de colocar a culpa de fatos como esse na “maldade', que seria inerente a alguns indivíduos. A lógica é teatralizar a violência, e responsabilizar pessoas individualmente por sua "monstruosidade", ou então culpar coisas em geral, como a "falta de limites", a "violência na TV", etc. Para quem se preocupa em entender esta situação a sério, porém, fica evidente que esses crimes, e os próprios assaltantes são produto do meio em que vivem, ou seja, do capitalismo doentio e decadente.
A violência é concreta, e suas causas também! Culpados incluem governos, tráfico e polícia!
Ao mesmo tempo em que não se pode cair no alarmismo de achar que no Rio só existe violência e balas perdidas, o que além de mentira é uma forma de que o resto do país pense "como estamos bem", mesmo com a crise social e criminalidade aumentando em todos os lugares; por outro lado, é preciso reconhecer, e lutar contra a barbaridade real que atingiu a sociedade do Rio de Janeiro.
A saída dos governos é a velha fórmula de aumentar o policiamento e a repressão, supostamente para aumentar a segurança. Na verdade, a "tolerância zero" ou outras políticas de truculência nunca atingem só os indivíduos que cometem crimes. Em geral, as pessoas inocentes são vítimas de negociações de sequestro mal resolvidas, em que a polícia mata os reféns; são mortas em tiroteios nos morros; dentro de carros que são confunddos com o de assaltantes; em troca de tiros em saídas de banco e assim por diante. Os trabalhadores morrem sem sentido e sem razão nenhuma, onde estiverem, porque a polícia é feita e preparada para dar tiro e matar, antes de perguntar.
Os dados da violência mostram uma relação direta entre o aumento do desemprego, inflação e mazelas sociais com a correspondente avalanche criminal que vem em seguida. Os assaltantes, crianças a serviço do tráfico e pedintes são consequencia da falta de investimentos em escolas, lazer e emprego para a juventude e suas famílias.
Políticas a la ditadura, de "choque" ou tolerância zero lembram o slogan do assassino Paulo Maluf, em SP, de pôr a "Rota na Rua". Em nome de combater "bandidos", essa tática terrorista ameaça e ataca todos os trabalhadores, que são sempre os suspeitos aos olhos dos governos e polícias, ainda mais se moram na periferia, se são jovens ou são negros.
Esses políticos fascistoides, como Eduardo Paes agora quer fazer no Rio, se aproveitam de uma situação de total desamparo dos trabalhadores diante da violência, para fortalecer as instituições que garantem a segurança da classe exploradora, como a polícia, por exemplo, e reforçar ainda mais a impunidade deles mesmos, proibindo manifestações sociais e a organização popular.
Energia contra pobres; confraternização com verdadeiros criminosos.
Continuando com o exemplo negativo do prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, e seu chamado choque de ordem: são deslocados batalhões de homens muito bem armados para tirar à força trabalhadores das suas casas, muitas delas há anos ocupadas, mas consideradas ilegais por serem fruto de luta, de ocupação de prédios e terrenos em situação de total abandono, seja pelo Estado ou por algum proprietário privado.
Paes é "firme" pregando a “limpeza' da cidade através da repressão, e às vezes, até matando se for necessário para poder impor o choque de ordem. Mas faz isso porque é contra pobres desarmados. Nos morros, controlados por traficantes, a polícia do governador Sérgio Cabral, escudeiro de Paes, só entra depois de pedir autorização e pagar propina. Ao mesmo tempo, os financiadores do tráfico e policiais milicianos são eleitos deputados, financiam e compõe a base de apoio desses governos, frequentando suas altas rodas e círculos sociais, sem nenhuma punição, e muita adulação.
Essas ações espetaculares na mídia são um espetáculo mal feito , apenas para jogar a sujeira pra debaixo do tapete, numa tentativa de esconder um problema social crônico e sem qualquer solução por dentro do capitalismo, esse sim responsável por jogar mais trabalhadores na mendicância, não garantir as mínimas condições de emprego, moradia e um vida digna.
As milícias são fruto de uma polícia falida
Além dos bandos de policiais que aterrorizam os moradores das favelas, e dos traficantes, a mais nova fonte de medo que afeta os trabalhadores, principalmente de áreas pobres e favelas, são as milícias. As milícias são grupos de policiais, ex- policiais, bombeiros, guardas municipais, etc., ou seja, em geral pessoas ligadas ao Estado, treinadas e pagas pelo dinheiro público, em associação com outros criminosos comuns.
Controlam desde o que e quem entra e sai, até as atividades de comércio e das associações de moradores. Além disso, realizam extorsão dos moradores, que são obrigados a contribuir financeiramente com a milícia, que comanda a favela. Fazem mais dinheiro ainda prestando serviços de luz, água, gás, TV a cabo (os chamados 'gatos'), etc.
Esses grupos armados foram constituídos como contraponto aos traficantes, mas usando todos os seus métodos violentos, negociando drogas e reprimindo os trabalhadores. Sua única diferença é que eles estão tomando o lugar de bandidos sem as mesmas conexões, relações políticas e influência. A conversão dos morros dominados por traficantes "comuns" em comunidades controladas por milícias é mais um passo no estrangulamento das liberdades e condições de vida básicas dos trabalhadores, pois é ainda mais difícil lutar contra o traficante policial do que contra o traficante que subornava o policial.
O combate às milícias, exatamente por isso, não se pode fazer apenas exigindo "justiça" no abstrato, que sejam presos, ou medidas paliativas dessa natureza. As milícias nada mais são que a consequência da falência da polícia enquanto instituição, pois é de onde vem os principais líderes desses grupos. O Estado burguês não é capaz de garantir a segurança nem sequer da simulação de ordem que precisa dar, para esconder o verdadeiro papel da polícia, que é manter a propriedade privada dos grandes capitalistas. A criminalidade chegou a uma brutalidade tão grande, que a polícia se rendeu neste seu trabalho "secundário", de fingir que combate o crime, e terceirizou esta tarefa a um grupo mafioso paraestatal, que são as milícias. Assim como muitos PM's buscam fazer “bicos' para complementar a renda, outros integram milícias que garantem ganhos muito superiores aos seus, ou mesmo os bicos de seguranças privados.
O Estado burguês não pode mais abrir mão das milícias!
Depois de assistir contentemente o avanço das milícias, o Estado criou uma CPI das milícias, numa tentativa de investigar e punir os líderes milicianos. Assim como apontam o tráfico, os políticos agora dizem que as milícias são seu mais novo inimigo. Isso acontece, pois esses grupos estão aumentando cada vez mais o seu poder (militar e político), o que ameaça inclusive alguns dos atuais controladores do estado burguês em suas disputas eleitorais.
Por exemplo, um dos principais chefes de milícias é um ex-PM, conhecido como Batman, que chefia um grupo que controla a Zona Oeste do Rio, dominado pelos irmãos Jerônimo e Natalino Guimarães. Ambos são policiais civis expulsos e ex-parlamentares, que montaram um gigantesco esquema eleitoral em Campo Grande, cuja última façanha foi elegerem outra representante da família, Carminha Jerominho, que estava presa em pleno dia da votação.
O problema para alguns deputados críticos das milícias não são as mortes e o terrorismo que praticam, mas o fato de estarem pedindo voto para seus próprios candidatos a vereador e deputados, e não mais para os líderes religiosos, comerciantes corruptos e assistencialistas, que até ontem eram os candidatos preferidos, inclusive através de alianças desses sujeitos com os traficantes e milicianos.
Na prática tanto traficantes como a milícia não tem nada de inimigos do Estado: uns correspondem a um setor empresarial ilegal, mas com lucros enormes, e plenamente integrado ao sistema capitalista e suas instituições; outros são o atual braço ilegal e violento do próprio Estado. Assim como os políticos que compram votos através de cestas básicas e bolsa família, hoje a milícia, o tráfico e a polícia são inimigo dos trabalhadores. As degenerações do capitalismo em decadência, como os grupos de extermínio, capangas de fazendeiros e milicianos só tendem a crescer no capitalismo. Banqueiros, latifundiários e grandes empresários precisam destes bandos para garantir seus negócios e manter as pessoas sob controle e ameaça.
Pela auto defesa dos trabalhadores!
Pelo Socialismo e a revolução!
Considerando que o crime organizado, por uma forma ou outra, é parte auxiliar e com cada vez mais força do próprio Estado capitalista, os trabalhadores só poderão se ver livres dessa violência de classe que sofrem, se lutarem contra o próprio governo, o regime e as instituições como um todo, incluindo a Justiça, o parlamento, as Forças Armadas, imprensa, etc.
Por isso, é vergonhoso e criminoso o papel do PSOL, partido que se diz defensor dos trabalhadores, mas é um dos principais impulsionadores da CPI das milícias, sendo Marcelo Freixo quem preside a CPI. Essa iniciativa do PSOL só serve para iludir os trabalhadores de que é possível solucionar os problemas do capitalismo através do Estado burguês. E pior ainda, por meio de CPI's que todos sabemos como acabam sempre: Em pizza!
Assinar um requerimento para criar uma CPI até é possível, desde que se fale a todo instante para que não se confie nela e façamos o possível para demonstrar que ela é um golpe para que os trabalhadores cruzem os braços enquanto seguem sendo mortos. Mas, fazer como o PSOL faz, de servir de "bombeiro", acalmando a crise por meio de uma saída ridícula e destinada ao fracasso, é ajudar a milícia e a burguesia a fazerem o que querem.
Só é possível garantir uma vida digna à classe trabalhadora acabando com o capitalismo, através da luta também violenta, de resistência, contra seus bandos e exércitos. Para acabar com o tráfico, com as milícias, com a violência, e principalmente com a pobreza e miséria que os alimentam, não bastam apenas ideias ou boa vontade.
Cada líder comunitário, grêmio estudantil e sindicato que se forme para mudar esta situação, que não se proteja, será assassinado ou fechado. Nenhuma CPI ou "choque de ordem" podem deter este processo.
É necessário organizar a resistência e a autodefesa dos trabalhadores. Isso requer medidas de segurança, como rondas comunitárias, manifestações públicas, unidade com os trabalhadores de toda a cidade, denúncia política dos milicianos e dos políticos e empresários que os sustentam. Mas, todas estas medidas devem ser combinadas com ações de força também. A população deve organizar-se em núcleos que vão criando condições também de se armar. É preciso constituir um fundo financeiro para garantir a segurança de companheiros perseguidos, assim como pagar cursos e treinamento a alguns responsáveis da região, e adquirir armas também.
Evidentemente que só é possível sair vitorioso contra a polícia, tráfico e milícias com mobilização social, e não simplesmente pelo choque militar. O mais fundamental de todo processo é construir uma organização revolucionária comprometida com este programa, sem se vender, se corromper ou usar isso prioritariamente para ganhar cargos e votos.
Mas também é fundamental preparar esta força dos trabalhadores, pois como diz a música do Rappa "paz sem voz não é paz, é medo", e não queremos esta falsa paz dos cemitérios, em que só morremos e perdemos. Se sofremos esta guerra contra nossa classe, saberemos responder à altura.
Abaixo o choque de ordem!
A milícia, o tráfico e a polícia são parte do Estado burguês e inimigos dos trabalhadores!
A CPI das milícias é uma piada!
Organizar a auto defesa dos trabalhadores!
Pelo Socialismo e a Revolução!
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