Retaliação econômica aos EUA: enfrentamento com o imperialismo ou defesa do direito dos latifundiários?
O governo Lula uma vez ou outra gosta de posar de esquerdista, e como quem se enfrenta com setores da burguesia e do imperialismo. Agora, mais uma vez, faz suas encenações, dessa vez se expressando nos “conflitos” econômicos entre EUA e Brasil.
Apesar da aparência de enfrentamento, o governo brasileiro, ao aumentar impostos de produtos dos EUA, está na disputa defendendo o direito dos latifundiários brasileiros, já que o motivo para os atritos são os subsídios que o governo norte-americano concede aos agricultores do seu país, em específico ao algodão.
Esse benefício aos produtores norteamericanos barateia o preço final do produto, e acaba tornando inviável importar dos latifundiários brasileiros.
Lula só teve essa medida após o aval da OMC
Essa discussão em torno dos subsídios oferecidos pelos governos, tanto dos EUA, quanto de diversos países da Europa, tem sido discussão da OMC (Organização Mundial do Comércio). Assim, o governo Lula só tomou tal medida, que à primeira vista parece drástica, após o organismo ter permitido, não sendo nenhuma medida radical, portanto.
Mas o que fica claro é que a OMC, uma organização que claramente tem um posicionamento pró-imperialismo, tanto que autoriza e instrui a superexploração em diversos países pobres, tomou a medida de autorizar o Brasil à retaliação, pois sabe que para existir um equilíbrio na economia mundial é preciso que as divisões do trabalho entre os países sejam obedecidas.
Existe um limite de valores que podem ser sobretaxados, fixado em US$ 829 milhões. Deste valor irrisório, que representa uma minúscula compensação à burguesia brasileira, o governo brasileiro dividiu US$ 591 milhões em multa para produtos que vão entrar no Brasil com impostos com valores superiores, e US$ 329 em quebras de patentes e outras propriedades intelectuais. Nada que questione a dívida externa ou o lucro das multinacionais, por exemplo.
O que é o comércio "justo" que a OMC defende?
A medida que Lula tenta apresentar como nacionalista contra um ataque vindo de um país rico é, na verdade, o conformismo e a necessidade de manter o Brasil cumprindo o mesmo papel que sempre lhe foi atribuído – o de fornecedor de matérias-prima baratas.
A divisão do trabalho que Lula defende é essa: de que os latifundiários, que enriquecem às custas de bóias-frias e até mesmo trabalho escravo, continuem tendo a oportunidade de vender a preços muito baixos, as matérias-primas para os países desenvolvidos.
A retaliação que se prepara demonstra essa discrepância que existe entre aquilo que se vende e o que se compra, e a diferença de valor que existe entre essas duas situações. Com as novas regulamentações, os produtos industrializados dos EUA serão sobretaxados: veículos dos EUA subirão de 35% para 50%; a tarifa do trigo passa de 10% para 30%;o leite em pó de 28% para 48% e o algodão, o pivô do “conflito”, terá suas taxas aumentadas em 100 %.
Mesmo com toda a repercussão que isso trouxe, tanto no Brasil quanto nos EUA, Lula se adiantou para esfriar os ânimos, dizendo: "O Brasil não tem interesse em confrontação. Temos interesse em respeito às decisões da OMC. Ou obedecemos às instituições, ou o mundo vai virar uma bagunça". Demonstrando que, como último recurso, é que utiliza essas medidas.
Os trabalhadores nunca saem ganhando com medidas dos governos
Como esses atritos que estão ocorrendo entre os dois países tratam exclusivamente de conflitos entre as burguesias, o trabalhador não ganha nada. De um lado, Obama quer agradar os agricultores dos EUA, e por isso dá subsídios; mas, ao mesmo tempo não abre mão dos acordos que existem entre seu país e o Brasil, e aceita a retaliação minúscula, já que é uma grande vantagem comprar matérias-prima baratas, e de quebra vender seus produtos industrializados com grande valor agregado para um vasto mercado consumidor, mesmo com taxação excedente.
De outro lado, Lula quer agradar um setor fundamental para seu mandato, o dos latifundiários e burgueses envolvidos no agronegócio; aqueles que Lula tanto defendeu durante seu mandato e que deram quantias consideráveis para sua campanha eleitoral. Ao mesmo tempo, não toca em nada realmente agressivo aos EUA, pois é dependente desse país.
Pelo viés do povo, porém, já se discute que o preço do pão, o produto mais básico na mesa de cada trabalhador, vai aumentar de preço, já que o Brasil deixará de comprar trigo dos EUA e terá que comprar de outro país. Assim, até a suposta "força" do Brasil em reagir, que não tem nada de verdadeira, vai repercutir em aumentos repassados para o bolso do trabalhador.
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