Filme sobre Wilson Simonal é mais uma tentativa de reescrever História e defender a ditadura
A imprensa divulgou com grande repercussão o lançamento do filme Simonal - Ninguém sabe o duro que dei, que tenta a todo custo reabilitar o cantor Wilson Simonal, comprovadamente informante da ditadura militar brasileira. Todos os jornais e críticos de cinema fazem elogios rasgados ao filme, destacado como "imparcial", mas, por suas próprias descrições, fica claro que não é nada disso.
O filme minimiza o fato de que Simonal mandou espancar uma pessoa e ainda coloca em dúvida o que sempre foi comprovado, de que Simonal era colaborador da ditadura, que perseguia e matava inclusive alguns artistas, colegas de Simonal. No filme, o cantor é retratado como grande injustiçado.
Artista popstar na década de 60 e 70, Simonal era, junto com Roberto Carlos, o cantor mais famoso da época, e, também como Roberto Carlos era usado explicitamente para disseminar uma música alienada, característica da Jovem Guarda e do iê-iê-iê, e oposta à participação política, como faziam então vários outros cantores.
Mas Simonal não apenas era o garoto propaganda da música pró-sistema, como era pago e colaborava diretamente com a ditadura. Um caso em especial trouxe esta realidade à tona.
Em 1974, Simonal foi condenado por uma surra dada em um contador, três anos antes. Alegando suspeitar que o contador o estivesse roubando, Simonal chamou amigos do Dops para bater nele. O contador então foi levado às instalações do Dops e torturado, o que era a prática desse órgão fascista. Não bastasse isso, durante o processo, Simonal levou como testemunha sua um detetive do Departamento de Ordem Política e Social do Estado da Guanabara. Ele assegurou que o cantor era informante do Dops.
Outra testemunha de defesa, um oficial do 1º Exército, garantiu que o réu colaborava com a unidade. O próprio constatou o óbvio, e que nem mesmo as testemunhas do cantor negavam: que Simonal era "colaborador das Forças Armadas e informante do Dops". Em 1976, despacho do Tribunal de Justiça do RJ novamente reafirmou a condição de "colaborador do Dops".
Por estas e várias outras citações possíveis, fica provado que não foi uma invenção ou uma paranoia achar que Simonal era informante da ditadura. A história do cantor não tem dúvida nenhuma, nem nada a ser esclarecido ou obscuro. Simonal era o estereótipo do cantor de direita, das músicas alienadas e da vida festiva. Segundo seus próprios amigos torturadores, o cantor se dizia ameaçado por gente ligada "a ações subversivas". Simonal não era inocente, nem ingênuo. Sabia o que a ditadura fazia, e o que aconteceria com o contador quando chamou os capangas.
Imprensa embeleza simpatizantes da ditadura e ofende suas vítimas
Diante do fato de que Simonal era um informante da ditadura, a pergunta que fica é: "qual o interesse da imprensa em adulterar essa história?". O interesse, neste caso, não é especificamente em salvar a pele de Simonal, mas um movimento de minimizar a violência da ditadura, e desmoralizar os que lutaram contra ela. Por isso, jornais como a Folha de São Paulo, Estadão, Globo, Zero Hora e tantos outros falam em "perseguição contra Simonal" e outros termos, sempre elogiosos ou que relativizam o papel do cantor.
Algumas frases da imprensa são chocantes, por distorcerem a História ao extremo: "conhecendo finalmente sua história, o Brasil poderá absolvê-lo de coisas que talvez ele nem sequer tenha feito." Ou: "No início da década de 70, Simonal percebeu que estava sendo roubado por seu contador. De pavio curto, o cantor contratou um grupo para dar uma surra no traidor. Porém, o episódio envolveu agentes do Dops, e o obscuro fato fez com que se espalhasse a notícia de que o músico era informante do regime militar. Sem provas contra ou a favor do artista, Simonal foi condenado ao ostracismo, morrendo como um desconhecido em 2000."
Esta absolvição póstuma de Simonal orquestrada pelo conjunto da imprensa acontece no mesmo momento em que a Folha de São Paulo, em editorial, que é a posição oficial do jornal, chamou a ditadura brasileira de "ditabranda", por ser, supostamente, mais leve. Depois de criticada, a Folha voltou ao assunto, e reafirmou o que já tinha dito.
Estas manifestações de apoio velado à ditadura se somam ao endeusamento dos ditadores e membros do antigo regime, a começar pelo próprio Lula, que já elogiou Geisel e o "milagre econômico" de Médice, dois carniceiros e torturadores.
O filme sobre Simonal tenta simular isenção pois deixa que uma pessoa mantenha a acusação de que ele era informante da ditadura. No entanto, ao colocar em debate um fato incontestável, e dar muito mais espaço para teses de que era um pobre cantor negro e vítima do sectarismo ideológico, o filme é uma clara propaganda de ataque às verdadeiras vítimas da ditadura, até hoje esquecidas e desmoralizadas, a começar pela imprensa majoritária no país.
Os trabalhadores devem repudiar toda e qualquer tentativa de reescrever a História, amenizar a tortura e de fazer valer a impunidade aos torturadores e colaboradores do regime ditatorial.
VOLTAR