Publicada em 02/08/2009

Pão e circo. Enquanto a condição econômica piora, Lula propõe “vale-cultura” de R$ 50, mas quer que trabalhadores paguem a conta e empresários lucrem com isso.

            Devendo ser votado em até 45 dias, com caráter de urgência urgentíssima para ser aprovado pela Câmara dos Deputados, o projeto chamado de “vale-cultura” passará depois, caso aprovado, para o Senado, que tem a palavra final.

            O vale -materializado na forma de um cartão magnético- teria um valor de R$ 50 e seria recebido por trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos, para ser gasto em livros, CDs, DVDs e espetáculos de música, teatro e cinema. A principio, o vale-cultura será deduzido do salário do trabalhador (assim como vale-transporte e vale-refeição) em até 10%, e os empregadores que aderirem ao beneficio para seus funcionários poderão ter desconto de ate 1% no imposto de renda. Mas ambas as definições, ao longo das votações, podem acabar sendo alteradas.

            A medida, segundo o governo, pretende modificar dados alarmantes revelados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): somente 14% dos brasileiros vão regularmente ao cinema, 96% não frequentam museus, 93% nunca foram a uma exposição de arte e 78% nunca assistiram a espetáculos de dança. Ou seja, a cultura, o lazer e a arte não são acessíveis aos trabalhadores hoje em dia, sendo praticamente restritos aos ricos.

No capitalismo, até quando “ganhamos”, perdemos.

Entretanto, é evidente que Lula e seus compadres não estão preocupados com isso. Não é por estarem preocupados com o afastamento dos trabalhadores diante do lazer e cultura que Lula e o governo apresentam este projeto.

            O vale-cultura, assim como o bolsa-familia, bolsa-escola e todas as outras “bolsas de votos” do Lula, é mais um projeto assistencialista e eleitoreiro, de olho em 2010. Através desses projetos, Lula acorrenta uma massa de miseráveis que não consegue romper com seu governo devido ao receio de perder essas migalhas que, para quem já tem pouco, significa muito.

            Lula prefere dar o “circo” ao invés de dar emprego, salário e direitos, que estão em baixa neste ano de crise e em função das medidas de Lula, que só beneficiaram os grandes empresários e banqueiros. E, mesmo este “circo”, vai ser pago por nós!

            O escandaloso projeto de Lula prevê que o vale seja descontado do salário. Quer dizer: o que vai se ganhar de um lado vai se perder do outro. O vale não vai valer nada, ou muito pouco. Na prática, o governo vai obrigar o trabalhador a gastar em CDs o dinheiro que antes mal conseguia pagar o leite ou o aluguel. Por sua vez, os empresários vão poder abater esta “concessão” dos impostos. Ou seja, os ricos vão ganhar ainda mais e os pobres vão ganhar apenas mais uma ilusão.

“A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte”

            Diante das necessidades e atropelos do dia-a-dia, tudo nos impulsiona para que fiquemos alienados e prestemos atenção somente no que é mais vital, como alimentação e saúde. O capitalismo embrutece de tal forma o ser humano que a maioria da população passa o dia e a vida inteiros somente garantindo sua sobrevivência.

Porém, o tempo para a leitura, à musica, ao cinema, ao teatro; quer dizer, o tempo ocioso dedicado a nos trazer diversão e relaxamento, reflexões mais profundas sobre o mundo, ao combate à alienação, ao prazer, e ao ócio sadio: isso é cada vez mais difícil de ter. O que não significa que seja menos necessário. Muito pelo contrário.

            E é por isso que, sob o capitalismo, tudo o que se refere à cultura e ao lazer é tão caro aos trabalhadores. Não interessa ao sistema e aos seus senhores que os trabalhadores reflitam quanto a sua situação de miséria, exploração e opressão, muito menos que tenham raciocínio abstrato, experiência cultural e conhecimento das ciências. Quanto mais bestializada e obediente for a “massa”, mais fácil de mantê-la sob as sua rédeas e amarras.

            Portanto, a existência de um vale-cultura seria muito importante para a classe operária, caso fosse verdadeiramente uma conquista, arrancada do lucro da patronal. Defendemos que exista um vale com este propósito, mas que seja num valor compatível com gastos amplos e diversificados em cultura, e que permitam enriquecer as experiências do trabalhador e sua família. A maneira mais correta de fazer isso porém, e que deve ser o objetivo de nossa luta mais imediata, é a conquista do salário mínimo do Dieese, em torno de R$ 2100, que garantiria, justamente, o acesso ao lazer, esportes e cultura, sem prejuízo da alimentação, vestuário, moradia, saúde e educação.

Mas, mesmo assim, seria apenas uma maneira de amenizar a situação de pobreza cultural do Brasil. As pessoas não deixam de buscar cultura somente por falta de dinheiro, mas também por falta de tempo e porque, quando sobra tempo e dinheiro, falta disposição, pois o cansaço mental e físico não deixa espaço para muita coisa. No fundo, o capitalismo embrutece, emburrece e deixa exaurido o trabalhador. A verdadeira libertação e o acesso à cultura devem vir da luta por uma sociedade socialista.

 

 

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