Austrália:
governo pede desculpas a aborígenes enquanto segue massacrando-os
O Governo da Austrália apresentou ao Parlamento o texto do pedido oficial de desculpas que o primeiro-ministro, Kevin Rudd, se encarregou de transmitir, no qual pede "perdão" pela "dor, sofrimento e perda" dos aborígines.
Rudd se dirigiu às vítimas da chamada "Geração roubada", formada por mais de 100.000 menores aborígines que foram separados de seus familiares entre 1910 e 1970 para ser "civilizados" em reformatórios.
A decisão marca uma mudança radical na história política australiana, especialmente após a recusa a pedir perdão do anterior primeiro-ministro australiano, o conservador John Howard, no cargo de 1996 a 2007.
Os aborígenes da Austrália têm um histórico de sofrimento e tentativa de extermínio que nenhum pedido de desculpas pode apagar. Isso é como o Papa João Paulo II pedindo desculpas sobre a Inquisição. À medida que as mesmas famílias que herdaram as riquezas provenientes da exploração aborígene, hoje seguem sendo as famílias que dominam a política, a justiça e a economia australiana, o genocídio continua, e se repete. É como se alguém batesse em outro no meio da rua e pedisse desculpas enquanto segue batendo.
A única reparação possível aos aborígenes é através da devolução a esse povo de suas terras, do acesso universal à educação, da gratuidade de serviços públicos, como transporte, taxas de luz, água, etc. O Estado australiano precisa indenizar cada descendente aborígene, além de garantir pleno emprego a essa comunidade. E cada uma dessas medidas não pode ser tomada nem pelos brancos colonialistas que seguem mandando na Austrália e na vida dos filhos aborígenes, nem mesmo por líderes aborígenes que pretendam "pacificar" o país. A única opção de liberdade, democracia e condições dignas para os aborígenes é a luta em comum com os demais explorados australianos e do mundo inteiro.
É necessário que os trabalhadores australianos, aborígenes ou não, se mobilizem para derrubar o governo hipócrita da Austrália e tomar o poder eles mesmos. Não é possível governo para todos, no sentido de classe. Ou o governo defende o interesse dos exploradores, no máximo estendendo privilégios a poucos descendentes de aborígenes cooptados; ou o governo defende os trabalhadores contra e expropriando os representantes do imperialismo no país. Essa é a verdadeira divisão na sociedade: entre explorados e exploradores, e não entre etnias.
A opressão aos aborígenes, no entanto, é bem real e muito dura, e existe como expressão da necessidade da burguesia de introduzir ideologias racistas para melhor baixar salário de parte dos trabalhadores, explorados duplamente. Para construir uma sociedade sem preconceitos e verdadeiramente reconciliada e socialista, é preciso à unidade da classe explorada contra a classe dos exploradores.
A arte retratou o drama dos aborígenes
Existem dois documentários australianos sobre os aborígenes. Como os fatos envolvendo os aborígenes na Austrália e os povos indígenas no Brasil guardam algumas semelhanças (e muitas diferenças), é interessante que o público brasileiro tome conhecimento deles, por isso, comentarei os filmes.
O primeiro filme, "88.9 Radio Redfern", com direção e roteiro de Sharon Bell e Geoff Burton, é de 1988, quando os "Gubbas" (australianos brancos) celebraram os 200 anos de imigração e os "Kookies" (australianos aborígenes) promoveram um ano de protestos e pesar. A celebração dos brancos era na realidade uma provocação, pois fizeram aportar uma réplica da nau dos colonizadores no mesmo lugar onde houve um massacre de aborígenes duzentos anos antes. A 88.9 Radio Redfern foi a primeira estação comunitária aborígene e esteve no centro das manifestações de protestos da população aborígene naquele ano. Com muita música australiana contemporânea, humor e descontração, a rádio tornou-se o pólo difusor do sentimento de solidariedade e de orgulho da própria cultura entre os aborígenes. Foram realizadas passeatas com dezenas de milhares de pessoas, naquele ano, e todo esse movimento impulsionou de maneira definitiva a luta pelos direitos civis dessa população.
O processo de espoliação da população aborígene na Austrália foi muito violento. Além de serem expulsos de suas terras pelos colonos brancos assentados no princípio de "terra nullis", ou seja, terras sem dono tiveram suas mulheres usadas como escravas sexuais dos brancos e até as décadas de 50 e 60 não eram considerados cidadãos australianos, não tendo direito a voto e não sendo nem recenseados. Os filhos dos aborígenes eram enviados para reformatórios do Estado onde eram induzidos a repudiar suas origens e cultura. Eles foram chamados por um ex-juiz da Suprema Corte da Austrália de "gerações roubadas" e em torno deles discutem-se as formas de indenização do Estado australiano.
Aqui entra o segundo filme a comentar. Chama-se "Urban Clan", é de 1998 e tem direção de Michelle Mahrer. O filme enfoca os três irmãos Page (Stephen, David e Russel), seu desenvolvimento de aborígenes urbanos em artistas até chegarem ao internacionalmente conhecido Bandarra Dance Theatre, em 1991. A essência da história dos três irmãos reflete um sonho aborígene dos três espíritos: um contador de histórias, um cantor e um bailarino, que através de sua arte criam pontes entre a cultura urbana e a cultura aborígene ancestral.
O Bandarra Dance Theatre ocupa um prédio majestoso no centro de Sydney e foi construído pelo governo australiano dentro do espírito de promover reparações aos aborígenes pelos crimes passados e de procurar uma reconciliação.
Na década de 90, como resultado da mobilização dos aborígenes e dos esforços dos governos australianos, algumas leis acerca do problema da terra foram aprovadas, sendo que, em 1993, o "Native Title Act", que revogava o conceito legal de "terra nullis", abriu definitivamente o caminho para a tentativa de um acordo. Todos se lembram das Olimpíadas de 2000, em Sydney, que foram abertas por uma atleta aborígene, como símbolo da tentativa de reconciliação. Governos de direita na Austrália nos últimos tempos tentaram barrar esse processo, inclusive revogando algumas leis que beneficiavam os aborígenes, causando muitos protestos, mas a mobilização dos descendentes de aborígenes e a tomada de consciência por uma arte significativa da população em geral, fazem com que seja cada vez mais difícil ocultar a importância e a justiça das reivindicações e da memória aborígene.