Publicado em 13/10/2010

Aborto: Dilma defende os interesses das mulheres? Serra é a alternativa?

Enquanto Dilma procura as respostas do motivo que fez com que não ganhasse em primeiro turno, a oposição de direita a denuncia como assassina de criancinhas, por supostamente ser a favor do direito ao aborto.

        Dilma, a favorita na corrida a presidente do Brasil, que tanto alega ser diferente por ser mulher e saber das necessidades das mulheres, faz o possível para demonstrar que é confiável aos setores mais reacionários e que também vai impedir a legalização do aborto.

Em sua campanha eleitoral, faz questão de ressaltar que seu programa de governo é “em defesa da vida”, uma expressão genérica com a qual qualquer um poderia concordar, não fosse o fato de ser um eufemismo apropriado pelos fundamentalistas cristãos para dizer-se contra o direito à vida da mulher grávida.

Ao mesmo tempo, Dilma, de forma mais clara, mas ainda assim no terreno das frases que dizem uma coisa para significar outra, se promove como representante dos “valores mais sagrados”, se dizendo contrária a qualquer iniciativa de ao menos debater a possibilidade de legalização do aborto, como um plebiscito.

        Essa mudança na postura do PT, que antes defendia o direito das mulheres, na verdade, é anterior às eleições, mas se agravou agora. O PT, em seu 3º Congresso, ocorrido em 2007, se colocou em defesa da descriminalização do aborto, e não mais pela sua legalização. Esta mudança, aparentemente sutil, é brutal, e um retrocesso enorme.

Na primeira hipótese, a da descriminalização, se garante que o aborto não seja mais assunto de polícia e sim de saúde. Traduzindo: o aborto segue sendo ilegal, as mulheres seguem sem assistência nenhuma, morrendo às milhares e reféns de clínicas clandestinas, mas não podem mais ser presas por isso. Na segunda hipótese, da legalização, se garantiriam as condições necessárias de higiene e saúde aos procedimentos, que deveriam ser cobertos de forma gratuita e com qualidade pelo SUS.

        O PT, com essa mudança, disse o seguinte: as mulheres não podem mais ir para a cadeia, mas podem seguir morrendo e tendo sequelas por abortos mal feitos. Para se ter uma ideia, os mais de 1,5 milhão de abortos realizados anualmente no Brasil geram mais de 150 mil mulheres mortas ou com lesões graves todos os anos.

Dilma, desesperada para não perder mais nenhum voto, agora quer dialogar com os setores mais retrógrados de nossa sociedade – as Igrejas, que, neste sentido, pregam valores do tempo da Idade Média, chegando algumas ao ponto de serem contra o uso de contraceptivos e contra o aborto até mesmo em caso de estupro.

        A candidata do PT pisa no programa que as mulheres fundadoras do Partido dos Trabalhadores reivindicaram por tantos anos. E, principalmente, das mulheres trabalhadoras que não têm acesso a tratamento médico adequado, recorrendo a clínicas clandestinas de aborto de péssimas condições, e colocando em risco sua vida.

Mulher brasileira: Serra as defende?

         Os tucanos, por sua vez, enquanto acusam Dilma de assassina de bebês, se dizem os verdadeiros defensores da vida no Brasil. Seu carro-chefe é a o programa “Mulher Brasileira”, que garante 6 consultas pré-natais para as mães no SUS.

        Toda mulher precisa de muito mais cuidados do que somente 6 consultas, embora esse item seja imprtante. Mas o PSDB não garante isso onde é governo, nem o direito à alimentação, salário digno, creche pública e gratuita e licença-maternidade de 6 meses.

Por isso, “garantir” 6 consultas é irrisório.

A saúde da mulher, assim como o restante da população, só poderá ser considerada satisfatória quando o SUS suprir as necessidades da população. O que não acontecerá enquanto o Estado for governando pela burguesia, com Dilma ou Serra à frente.

Aborto: questão de saúde da mulher

        Recentemente, agências de notícias divulgaram dados parciais do Ministério da Saúde sobre a questão da saúde da mulher neste ano. Somente nos seis primeiros meses de 2010, foram 54.339 internações por decorrências de aborto mal feitos, uma média de 12 casos por hora.

Os números registrados entre janeiro e julho são 41% superiores à soma de internações por câncer de mama e câncer de colo do útero (38.532), doenças específicas das mulheres e consideradas as maiores causas de morte entre elas.

Como se percebe, qualquer programa de governo que diga defender as mulheres, no caso de não tocar nesse assunto, é uma mentira e uma enganação.

O aborto, além de garantir a questão da liberdade de escolha da mulher sobre o próprio corpo, tem a ver, principalmente, com a continuidade da vida da própria mulher, já que o aborto é principalmente questão de saúde pública, e pode pôr em risco a saúde da gestante.

Os trabalhadores devem rechaçar os dois candidatos que prometem muito aos trabalhadores e para as mulheres, mas, na vida real, são completamente contra seus direitos.

Nesse segundo turno, mesmo tendo uma mulher participando do pleito, os trabalhadores não têm candidato. Dilma, assim como Serra, não defende os direitos das mulheres trabalhadoras, como faz questão de demonstrar quando nega qualquer discussão em torno do aborto; discussão essa que poderia salvar milhões de mulheres que morrem todo ano.

Por isso, neste segundo turno, vote nulo. Em defesa do aborto legal, seguro, público, gratuito e sem burocracia.

 

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